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'Sentimentos que Curam' é menos piegas do que seu título brasileiro leva a crer

A diretora Maya Forbes imprime à história difícil um ritmo interessante, e a tempera com boas doses de humor

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

22 Julho 2015 | 04h00

Sentimentos que Curam é muito menos piegas do que seu título brasileiro leva a crer. A história é até propícia para derramamentos emocionais. Mire e veja: Cameron (Mark Ruffalo) é um pai de família de temperamento instável. Um dia ele foi diagnosticado como maníaco-depressivo, denominação hoje substituída pela de Síndrome Bipolar. Trata-se com derivados de Lítio, como era usual na época. Ou seja, tem altos e baixos, e de maneira muito intensa.

Cabe a ele cuidar de duas filhas pequenas quando a mulher, Maggie (Zoe Saldana), recebe uma oferta de trabalho em outra cidade e passa a visitar a família apenas nos fins de semana. Ou quando dá. O interessante é que Cameron faz parte de uma tradicional família de Boston, aristocrática, rica e cheia de formalidades. Como se pode imaginar, ele não é lá muito benquisto pelos familiares. Mesmo porque, talvez o detalhe não seja inoportuno, é casado com uma mulher negra, que estudou e teve de abrir caminho na vida por conta própria. Nada caiu do céu para Maggie, nem mesmo esse marido problemático que ela tenta administrar, ao lado de uma carreira que discrimina tanto a cor de sua pele quanto sua condição de mãe de família e esposa de um ser problemático.

Por sorte, a diretora Maya Forbes imprime à essa história um ritmo interessante, e a tempera com boas doses de humor. As meninas de Cameron são ótimas e, na verdade, elas cuidam mais do pai do que ele delas. Cameron, no fundo, não passa de uma criança crescida, temperamental e de ótimo coração. Precisa de gente sensata ao seu lado e, como se sabe, muitas vezes crianças e adolescentes conseguem mostrar mais juízo que adultos, mesmo quando estes não apresentam distúrbios psiquiátricos. O humor que tempera toda a trama está presente até mesmo no título original - Infinitely Polar Bear - trocadilho que as garotas fazem entre a doença do pai - a Síndrome Bipolar - e os ursos polares. Intraduzível em português, mostra como a família pode brincar com um assunto sério e que a atinge de modo muito contundente, e com isso aliviar as tensões que a atingem.

Ruffalo é o destaque, entre o elenco. Embora este seja bem equilibrado e sem desníveis, Ruffalo é quem encara a parte mais difícil, exatamente por trabalhar com oscilações de humor muito fortes.

O filme é uma espécie de comédia dramática, ou seja, trabalha também de modo oscilante entre a busca do riso e a da emoção. Não há qualquer problema nisso e os grandes diretores italianos dos anos 1960-70 provaram que esses dois registros opostos cabem num mesmo filme. Basta saber passar de um a outro e fazê-los intensos e inspirados em si mesmos, o que é mais simples de falar que de fazer.

Mas é claro que depressão é coisa séria e a Síndrome Bipolar algo complexo e assustador, que atinge muita gente no mundo. Mexer de maneira leve com assunto de tal peso pode provocar reações contrárias. Mas talvez seja mesmo uma alternativa de abordá-lo e levá-lo ao conhecimento do público. Há filmes que tratam de assuntos sérios com saídas fáceis. Não me parece o caso este Sentimentos que Curam. A dose de humor e compaixão com que se olha para um caso como o de Cameron nada tem de desrespeitoso ou alienado. Com risco de redundância, nunca é demais lembrar que chorar e rir são manifestações tão dignas uma quanto outra. Ambas humanas, demasiado humanas, diria Nietzsche.

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