'Sentido da Vida'? Nonsense é arma do Monty Python

Sexteto volta no momento em que estreia o novo longa de integrante

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 de julho de 2014 | 02h00

Pode ser mera coincidência ditada pelas conveniências do mercado, mas é, no mínimo, curioso que Monty Python e o Sentido da Vida esteja de volta, em versão restaurada (e digital), no momento em que estreia o novo longa de Terry Gilliam, O Teorema Zero. O norte-americano Gilliam, nascido em Minneapolis, em 1940, integrou com Graham Chapman, Terry Jones, John Cleese, Eric Idle e Michael Palin o sexteto que revolucionou o humor inglês a partir do programa de TV Monty Python Flying Circurs, que foi ao ar em outubro de 1969 e prosseguiu, como série, ao longo de quatro temporadas, com um total de 45 episódios.

Só a série de TV não explica o fenômeno do Python, cujo Flying Circus, Circo Voador, espalhou-se por shows, programas de rádio, jogos de computador, livros e filmes. O primeiro longa, E Agora para Algo Completamente Diferente, de 1971, é uma coletânea de esquetes refilmados da segunda temporada da série. Foi seguido, quatro anos depois, por Em Busca do Cálice Sagrado e por Monty Python Meets Beyond the Fringe (1976), A Vida de Brian (1979), Monty Python ao Vivo no Hollywood Bowl (1982) e O Sentido da Vida (1983). Outros dois títulos costumam ser atribuídos ao grupo, mas são obras isoladas de alguns integrantes - Jabberwocky, Herói por Acidente, de 1977, e Erik - O Viking, de 1989.

Pegue uma comédia como O Sentido da Vida. Vale tudo, bradava o crítico Edmar Pereira num texto no antigo Jornal da Tarde. Da ingenuidade ao requinte, da sutileza à mais contundente grossura. E Edmar perguntava-se como era possível ser hilariantemente filosófico para falar, com indignada ironia, sobre o sentido da vida, se é que isso existe. Foi sempre assim com o sexteto. Na TV, eles desconcertavam seu público como no esquete em que Mao, Lenin, Che e Karl Marx são convidados a debater... o campeonato inglês de futebol. Ou no cinema, em O Cálice Sagrado, quando o rei Arthur é interpelado em seu direito divino de governar por um camponês afundado até o pescoço no... esterco.

Nos anos 1950, na empresa Ealing, consolidara-se um humor inglês de características excêntricas. Mas esse humor, expresso em filmes como As Oito Vítimas - que acaba de sair em DVD -, integrou-se ao establishment britânico e foi ficando cada vez menos irreverente. O que os Python perceberam é que os transformadores anos 1960 exigiam irreverência e virulência crítica. Iniciaram uma verdadeira revolução, mas os sobreviventes refletiam, não faz muito tempo, que o ‘sistema’ tudo absorve e hoje o Monty Python é parte do modo de ser inglês, que tanto queria combater.

Para o espectador que, por ventura, jamais tiver assistido a um filme/esquete/show do Monty Python, uma boa tentativa de aproximação talvez seja prepará-lo para o que vai ver. O YouTube é cheio de piadas do grupo, mas você vai ver que faz toda diferença ver o sexteto no escurinho do cinema e, de preferência, com a sala cheia, todo mundo rindo. É um humor difícil de escrever. É visual, mas também é (muito) falado. Vale-se de trocadilhos e elucubrações sonoras. Em O Cálice Sagrado, um dos Python tem a cara de pau de simular uma cavalgada fazendo ploc-ploc com dois cocos na cara do espectador. E ele ainda explica que não havia dinheiro para contratar os cavaleiros. Essa mistura de humor surreal com nonsense é a essência do Monty Python. Remete à anarquia de uma comédia cult (e metalinguística) como Hellzapoppin, de H.C. Potter e Ole Olsen, de 1941.

Do nascimento à morte, os esquetes pulverizam na tela família, tradição e propriedade, king (queen) & country. O sentido da vida? O arco começa com o nascimento de bebês num hospital dotado dos mais modernos recursos tecnológicos. Católicos ortodoxos protestam contra o uso de anticoncepcionais enquanto pais desempregados vendem os filhos para experimentos científicos e crianças cantam e dançam o número Every Sperm Is Sacred.

Numa escola tradicional, o professor dá uma aula de sexo explícito com integrantes de sua classe. Um homem obeso come até estourar num restaurante de luxo. E a própria morte é conviva num banquete mortal, de onde todo mundo se transfere para o paraíso, representado como um cassino onde todo dia é Natal e as coristas, nada angelicais, andam de topless. John Cleese, como um maître francês, e Michael Palin, como convidado no banquete fatal, são os melhores atores do grupo.

Dá para rir bastante, mas, à força de tanto tirotear, contra tudo e todos, o excesso termina por pesar. Você entende por que o Monty Python acabou - apesar do revival atual em Londres. Esses caras já teriam estourado a galáxia.

MONTY PYTHON E O SENTIDO DA VIDA

Direção: Terry Gilliam e Terry Jones. Gênero: Comédia: (Reino Unido/ 1983, 107 minutos). Classificação: 14 anos. Classificação: 14 anos.

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