"Senhorita Júlia" inspira novo filme de Sérgio Silva

Professor do Departamento de Arte Dramática, o DAD, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o diretor Sérgio Silva traz para o cinema a sua sólidaformação teatral. Em Anahy de las Missiones, ele transportoua trama de Mãe Coragem, de Bertolt Brecht, para a RevoluçãoFarroupilha, ocorrida no Rio Grande, no século 19. No seu novofilme, que está sendo rodado em Viamão, a 20 km de Porto Alegre,Silva recorre a outro autor importante (e a outro texto quevenera). Noite de São João baseia-se em Senhorita Júlia,de August Strindberg, que teve uma versão recente, inédita noBrasil, dirigida por Mike Figgis e, nos anos 50, virou umclássico de Alf Sjoberg."É um filme noturno", diz o diretor, que fazassociações e cria metáforas misturando sexo e lua. A lua écrescente no céu de Viamão, mas uma imensa bola suspensa sobre oset projeta uma luz que simula lua cheia. O set está armado naEstância Gaúcha de Águas Belas, pertencente ao Instituto Gaúchode Tradição e Folclore. Foi aí que Silva fez a festa delançamento de Anahy, quando a velha fazenda tombada foientregue ao público, completamente restaurada. É um típicogalpão gaúcho, todo decorado com bandeirolas mais coloridas doque as de Alfredo Volpi. Em frente, uma imensa fogueira projetauma chama que invade a noite e pode ser vista a distância.Uma unidade de bombeiros permanece alerta no set. Umaambulância, também. "Com fogo não se brinca", diz a produtoraGisele Hailitl, que todos chamam de Giza, desta maneiraexplicando a precaução. É uma produção de R$ 3,2 milhões. Osinvestidores são: Banrisul, Ipiranga, Tintas Killing e BrasíliaGuaíba Obras Públicas. Entre os apoiadores estão o Banco doBrasil, o BNDS, a Quanta e o Labocine. Giza explica: "Um milhãopara a rodagem, um para a pós-produção e um para o lançamento."Quando terminaram o lançamento de Anahy, ela encomendou aSérgio Silva, de quem é parceira fiel, dois projetos, um caro eoutro mais barato. O caro é uma adaptação da tragédia gregaHipólito, transposta para a era atual. O barato, que não é tãobarato assim, é a Senhorita Júlia de Silva. Outro filme deépoca do diretor, que transpõe a ação da peça de Strindberg parao início do século 19.Fernanda Rodrigues faz Joana, Marcelo Serrado é João e oterceiro papel é de Dira Paes, que já trabalhou com o diretor emAnahy e interpreta Joana (Cristina na peça). Um triânguloque Silva, fiel ao autor, trata de forma não convencional. Júliaé a mimada filha do dono da fazenda. Ela oprime as pessoas aoseu redor, mas não o faz por maldade. "Foi criada assim eexerce de forma natural essa maneira de oprimir as pessoas",define Fernanda. Numa noite de São João, Júlia se envolve comJoão, capataz da fazenda. A peça de Strindberg também se passanuma noite de São João, mas lá a aurora é boreal, representa oauge do curto verão sueco. A noite de Silva é meio irreal. Eletrabalha de forma a não dar ao espectador a sensação da passagemde tempo. É uma longa noite que termina de chofre, com a chegadada aurora. E há uma cena prévia, também diurna. Tudo isso lembraA Noite, de Michelangelo Antonioni, mas Silva nega qualqueraproximação, até porque os elementos dramáticos de seu filme e odo diretor italiano são diversos.Fernanda e Marcelo Serrado não foram as primeirasescolhas de Silva para os papéis. Ele queria fazer Noite deSão João com Marcos Palmeira, um dos atores de Anahy, eLetícia Sabatella. Chegou a retardar a produção por quase um anopara ter Palmeira no elenco, mas o ator terminou a novelaPorto dos Milagres estressado e pediu a Silva, em nome daamizade, que o liberasse. Outra novela - O Clone - tambémimpediu a participação de Letícia, cuja personagem, cresceu natrama de Glória Peres. Foi a chance de Fernanda e Serrado, ambosglobais. Ela já fez um filme dos Trapalhões (Simão). Acaba defazer Nelson Rodrigues no teatro: O Beijo no Asfalto. Achaque a experiência com a personagem rodriguiana lhe deu bagagempara assumir a complexidade da Senhorita Júlia. Mesmo assim,é um desafio e tanto para uma atriz vista com freqüência nospapéis (rasos) de heroína jovem na Globo.Essência preservada - Serrado fez O Beijo comFernanda. Foram dirigidos por Marcos Alvisi. Ele também acha queNelson Rodrigues lhe deu estofo para encarar o personagemstrindberguiano. Não poupa elogios ao diretor: "Sérgio émaravilhoso no trato com os atores. E, até por ser professor deteatro, ele possui uma visão profunda da peça, que sabe passarpara a gente." Só não é a estréia de Serrado no longa, apósalguns curtas, porque ele concluiu, pouco antes de viajar para oSul, sua participação no novo filme ("Baratinho, mas muitointeressante") de Murilo Salles, o diretor de Assim Nascem osAnjos. Silva realmente tem um jeito especial de trabalhar comos atores. Reconhece que houve uma mudança considerável noperfil dos personagens, com os atores de que dispõe. "Júlia eJoão ficaram mais jovens, impetuosos e imaturos, mas acreditoque a essência de Strindberg está sendo preservada."Os conflitos sociais e sexuais da peça são agudizadospelo diretor, que situa Noite de São João no quadro daagitação que os anarquistas promoveram no Rio Grande, no séculopassado. Há personagens secundários que representam aconsciência da classe trabalhadora. João não possui essaconsciência. Sonha com os frutos de ouro no alto da cristaleirada casa de Júlia, mas é oprimido pelas botas do pai dela, ocoronel que nunca chega a aparecer. Araci Esteves, a admirávelAnahy de Silva, interpreta Joaquina, a matriarca da casa,confinada em seu quarto, entre os objetos que lhe são caros (eque ela manda comprar em Montevidéu). Joana, a personagem deDira Paes - todos os nomes começam com J, um capricho do diretor-, vai um passo adiante de João.Agregada na casa, não é servil como o namorado. "É umapersonagem boa de fazer", diz a talentosa Dira. A rodagem vaiaté dia 20, sem folga durante o carnaval. Houve problemas. Silvaqueria fazer o filme com Pedro Farkas, mas o fotógrafo declinou,dizendo que gosta de trabalhar com luz natural e esse não é ocaso de um filme que se passa à noite, com luz artificial parasimular o luar. O fotógrafo escolhido foi Rodolfo Sanchez, querodou durante uma semana e ficou doente, desligando-se por umtempo da produção. Quem assumiu a fotografia foi Paulo Teles,cameraman de Sanchez. Não é fácil trabalhar com luz artificial,mas ele está se saindo bem, diz o diretor (e mantendo o conceitode Sanchez, acrescenta Giza). Do set de Noite de São João, aprodutora informa, pelo telefone, que Sanchez está recuperado,já deixou o hospital em São Paulo e viaja sábado para PortoAlegre, para retomar a função.

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