'Senhores do Crime' retrata bastidores da máfia russa

Produção tem uma única indicação ao Oscar neste domingo, na categoria melhor ator para Viggo Mortensen

Alysson Oliveira, da Reuters,

08 Fevereiro 2021 | 12h06

Senhores do Crime, que concorre a uma única indicação ao Oscar neste domingo, na categoria melhor ator para Viggo Mortensen, explora os bastidores de uma família mafiosa russa, estabelecida em Londres. O diretor David Cronenberg e o roteirista Steven Knight se apropriam de alguns clichês do gênero - como um herdeiro incompetente e um esperto homem de confiança do patriarca - para levar o longa a outro patamar, acima da média e longe de obviedades.  Veja também:  Trailer de 'Senhores do Crime'  O espectador entra neste submundo na companhia de Anna (Naomi Watts), uma parteira que, sem querer, envolve-se com os mafiosos. É um mundo que fascina e assusta nas mesmas proporções. A história acontece basicamente entre o Natal e o Ano Novo, começando com o nascimento de uma menina sob os cuidados de Anna e a morte da mãe da bebê. A parteira encontra o diário da moça, que era russa, e espera achar alguma pista sobre sua família. O diário está em russo, mas Anna tem um tio que fala a língua e vai ajudá-la na tradução. O cartão de um restaurante perdido dentro do caderno pode ser uma pista preciosa sobre quem é a moça que morreu no parto. Ao chegar ao local, Anna percebe que o ambiente é familiar e aconchegante, comandado pelo patriarca Semyon (Armin Mueller-Stahl). Mas também não demora muito a perceber que ele é um chefão da "vory v zakone", a máfia russa, e chefia as operações de dentro de seu estabelecimento, que serve como fachada. Cercando o patriarca, há o filho herdeiro incompetente Kirill (Vincent Cassel) e o homem capaz de fazer o serviço sujo e limpar a sujeira, Nikolai, interpretado com sutileza por Viggo Mortensen, que já havia trabalhado com o diretor em Marcas da Violência (2005). Como o outro filme assinado pelo roteirista Knight, Coisas Belas e Sujas, este é um drama sobre questionamentos morais, tráfico de pessoas e as misérias humanas que emergem da sordidez. Em Senhores do Crime, o tema central é o comércio sexual que ganhou contornos globais, em especial envolvendo moças da antiga União Soviética. Através do diário da morta, Anna e seu tio ficam sabendo mais do que deveriam. Ele prefere que ela esqueça tudo e finja que nada aconteceu. Mas a parteira está obcecada com as circunstâncias do nascimento daquele bebê e não desiste. Nesta jornada de Anna, Nikolai é tanto o anjo da guarda, quanto o exterminador. Como fazia em Marcas da Violência, Mortensen opera em duplo sentido. Pouco se sabe ao certo quem ele é ou como trabalha. Suas tatuagens - o sinal de status dentro da organização - podem dar uma pista, mas, no fundo, ele pode ser uma pessoa tão obcecada quanto Anna. Senhores do Crime resulta de uma combinação peculiar: o humanismo do roteiro de Knight com a meticulosidade da direção de Cronenberg, que nunca traz uma nota de consolo. O resultado causa estranheza e, num primeiro momento, o filme pode parecer frio. Com o passar do tempo, aspectos sombrios e também sublimes da natureza humana ficam mais nítidos.

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