Jayme Monjardim/ Divulgação
Jayme Monjardim/ Divulgação

Senhora do tempo e do vento

Fernanda Montenegro fala sobre sua volta às telas com filme inspirado em Erico Verissimo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2013 | 23h24

Fernanda Montenegro tinha 20 “e poucos anos” quando leu O Continente, primeira parte do romance cíclico O Tempo e o Vento, do escritor gaúcho Erico Verissimo, no começo dos anos 1950. Foi uma descoberta, e não apenas para ela. “A literatura nordestina já fazia parte do imaginário da gente. Todos aqueles grandes escritores, com seus livros exponenciais – Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, José Américo de Almeida. Estou esquecendo... Quem? Ah, Rachel de Queiroz.” Com Erico, veio a revelação. “Minha geração descobriu o Rio Grande, que era outro mundo, com aquelas histórias bárbaras de fronteira.”

Mal sabia ela que, 60 anos mais tarde, seria a velha Bibiana da adaptação que Jayme Monjardim fez do livro. O Tempo e o Vento estreou sexta no Rio Grande do Sul, pegando carona nas festividades do 20 de setembro, a data da fundação da República Riograndense, que os gaúchos celebram como baluarte da cidadania. No restante do País, o filme estreia na próxima sexta-feira, dia 27. Na coletiva de lançamento, o diretor não deixou por menos. Disse que teria desistido do filme se Fernanda não tivesse aceitado ser a sua Bibiana.

Ela diz que foi “puro cavalheirismo” de Monjardim, para agradar “à sua velha atriz”. Fernanda, de 83 anos, não foi inoculada pelo vírus do politicamente correto, que transformou a velhice na melhor idade. O filme é narrado pela velha Bibiana, que recebe a visita do fantasma do Capitão Rodrigo. Ele vem buscar sua prenda e, na ausência de tempo em que vive, Bibiana permanece jovem na sua lembrança. Ela lhe informa das novidades, e conta a história dos Cambará Terra. Começa nas Missões jesuíticas, atravessa as guerras de formação do Rio Grande. Quando o filme começa, os Cambará estão sitiados em seu casarão, o “sobrado”.

O repórter faz para Fernanda a mesma objeção que apresentou ao cineasta – o filme tem muito amanhecer e pôr do sol, muitas imagens bonitas, demais até. É uma questão de estilo de Monjardim. Fernanda reflete. “O Jayme tomou o caminho de épico. Ele gosta dessa coisa épico-romântica, que forjou a grandeza de Hollywood e ajudou a construir o conceito deles (norte-americanos) de nação. Eu o respeito”, acrescenta.

E não dá para não respeitar. Apesar dos excessos “monjardianos” – a cena de sexo de Cléo Pires e Martín Hernández, milimetricamente enquadrada para mostrar partes dos corpos, com bom-gosto, como o diretor adora –, a essência de Verissimo está na tela. A própria decisão de narrar os feitos dos homens pelo olhar das mulheres é uma coisa que tem respaldo no livro, embora pareça um pouco demais que Bibiana recue 100 anos para inteirar seu capitão das novidades. Seja como for, a criação da atriz é admirável. Ela explica. “Venho de uma família longeva. Meus pais, avós, tios, meus sogros, todo mundo sempre viveu muito. Cresci cercada de velhos, e sempre fui muito observadora. É uma mistura de arte e vida. Tem técnica, sim, mas tem a observação. A respiração dos velhos, os gestos mais lentos, a voz, as silhuetas encurvadas. Vi muito isso para não ter absorvido.”

Ela se assume como velha. “E como não vou assumir? Olha pra mim...” – e o repórter imagina, porque a entrevista está sendo feita por telefone. Depois da morte do marido, o ator Fernando Torres, Fernanda descobriu a terapia da terra. Ela tem uma chácara, adora plantar, colher, enfiar a mão na terra. Diz que é de família. “Meus velhos eram imigrantes. Cresci num Rio de Janeiro que ainda era meio rural. Tínhamos horta, pomar em casa. Comíamos os frutos, as hortaliças que plantávamos.” O repórter observa que com o aumento da expectativa de vida do brasileiro, Fernanda a\inda tem uma longa carreira pela frente, muitos velhos a caminho. Ela brinca. “Vamos indo, sim, mas não convém exagerar.”

Seriado. Seu ritmo é de guria. Quando conversou com o repórter, na quarta pela manhã, Fernanda contou que, no dia anterior apresentara a peça de Domingos Oliveira, Viver sem Tempos Mortos, na Penha e que a repetiria no Méier, na quinta. Simultaneamente, realizava ensaios de figurino e maquiagem para o filme que vai fazer com o diretor. “Apesar do título, Infância, faço mais uma velha”, ri. Domingos começa a filmar no fim de semana que vem. Serão duas semanas, no ritmo puxado do autor, e logo Fernanda emenda outra viagem ao Rio Grande para as externas de Doce de Mãe. A Globo gostou tanto do especial de fim de ano da Casa de Cinema de Porto Alegre – a história de Picucha – que a idosa ganha série. Outra grande família, mas com características próprias. Mamãe que não pode viver sozinha, os filhos cada qual com seus problemas. Picucha não é exatamente um doce de mãe – sabe ser ácida –, mas faz um doce ao qual ninguém resiste.

A atriz está adorando a perspectiva do seriado. Sua filha, Fernanda Torres, já faz um seriado de sucesso na Globo, Tapas e Beijos. “Já tem três anos e todo mundo adora. Fernanda é uma grande comediante e forma uma dupla muito dinâmica com a Andrea (Beltrão).” O repórter diz, com todo respeito, que além do timing de comediante perfeita, Fernanda está é muito gostosa na série. Fernanda diverte-se. “Ah, meu filho, com respeito ou sem, ela está, sim, gostosa.” E para quando o filme com Lima Duarte? “Pois é, ainda vai ter esse. Alain Fresnot vai dirigir e a história já foi gestada, mas acho que o filme, só para o ano que vem.” E a Simone? Nos últimos anos, Fernanda tem levado seu monólogo sobre Simone de Beauvoir a todo o Brasil. “Fiz 21 CEUs aí em São Paulo. É um espetáculo de ideias, o que em princípio destoa dessa onda de comédias, mas em toda parte encontrei sempre um público interessado. Quando se faz as coisas com carinho e respeito, as mais diferentes plateias respondem com o mesmo afeto.”

Fernanda tinha 16 anos no fim da 2.ª Guerra. “Minha geração descobriu o horror do nazismo, dos campos de concentração. Aquilo foi tão horrível que despertou na gente o sentimento de que guerras, nunca mais. Mas foi só um desejo. Logo, Simone desencadeou aquele debate sobre a condição da mulher, o segundo sexo. Ela foi decisiva para as mulheres da minhas geração.” É um texto (o do monólogo) que Fernanda tem na ponta da língua. O espetáculo é simples, despojado. “Só preciso de um banco e de luz. Por isso estou sempre na estrada. Me chamam e lá vou eu com a minha Simone.”

Mas a entrevista não termina sem uma referência a Saramandaia. No remake da novela famosa, Fernanda criou uma personagem que não havia no original de Dias Gomes. Ela viveu um romance proibido com Tarcísio Meira. No final da participação dos dois, os amantes, enfim reunidos, abraçaram-se, beijaram-se e viraram árvore.

Foi magnífico. “Às vezes, a gente prepara, busca alguma coisa e ela não vem. Ali tudo se conjuminou – atores, cenografia, texto. Ninguém poderia prever que fosse sair tão bom, mas saiu. São esses momentos mágicos que tornam essa profissão de ator tão especial. Quem não procura dar o melhor de si? Todo mundo, mas existem as variáveis, o imponderável. Quando tudo se une, a gente se surpreende. E, na minha idade, com meu aprendizado de arte e vida, nada melhor do que ainda ser surpreendida.”

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