Seminário encerra o 1.º Festival Latino-Americano

De acordo com a organização do 1.º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo cerca de 16 mil pessoas freqüentaram as cinco salas do evento - as três montadas no Memorial da América Latina e mais o Cinesesc e a Cinemateca.Melhor ainda: quem circulou pelo festival durante a semana pôde observar que, ao contrário do que se esperava de evento do gênero, o festival não se transformou em parque temático dos anos 60, ponto de encontro de velhos dinossauros comunistas, amigos pessoais de Che e Fidel. Como para desfazer este estereótipo, o Memorial da América Latina tornou-se durante sete dias um centro efervescente de vida, cheio de jovens, estudantes em sua maioria, interessados em ver e debater o cinema latino-americano. Esses rapazes e moças conviveram alegre e democraticamente com os velhos dinossauros, que marcaram presença também, e têm direito à vida e expressão.Ao contrário do que supõe a média da mídia (se permitem o jogo de palavras), a juventude não se compõe, em sua totalidade, de seres alienados, americanófilos militantes, que não querem saber de nada da cultura do seu país ou da dos países vizinhos. Interessam-se pela diversidade quando diversidade lhes é oferecida, o que raramente acontece.Os jovens eram também grande maioria na platéia que encerrou o seminário proposto pelo festival, e se chamou, sintomaticamente, A Desinvenção da Fronteira. O termo ?desinvenção?, esclareceu o coordenador do debate, o jornalista Pedro Butcher, foi proposto por José Carlos Avellar, crítico influente, autor de uma obra importante como A Ponte Clandestina, um cotejo de textos e manifestos que balizaram o cinema latino-americano nos anos 1960.?Desinventar? a fronteira significa repensar as noções de ?nacional? e ?identidade?, cavalos de batalha dos anos 60 que, segundo Butcher, deveriam ser relativizadas no mundo global porque, justamente, as fronteiras parecem hoje meio borradas. As definições do que é nacional e o que é estrangeiro, do que é nosso ou do outro, complicaram-se. Participaram da mesa os cineastas argentinos Marcelo Piñeyro e Pablo Trapero, o cubano Juan Carlos Cremata Malberti e o brasileiro Marcelo Gomes.Fronteiras firmesCada um deles deu um depoimento interessante sobre essas questões. Piñeyro (de Cavalos Selvagens e Tango Feroz) lembrou que os anos 90 se caracterizaram pelo desmonte dos cinemas nacionais em toda a América Latina, o que o fez buscar co-produções internacionais. Seu filme mais recente, El Metodo, conta com apenas 10% de capital argentino; 90% são recursos italianos e espanhóis. Alguns dos seus filmes argentinos têm mais público na Europa que em sua terra natal.Trapero (de Mundo Grua e Família Rodante) lembra que sua geração não escreve textos ou manifestos que proponham uma poética dominante, e nem quer escrevê-los, pois seriam empecilho ao que de melhor ela dispõe - a diversidade de propostas. Essa diversidade é buscada em co-produções, mas, lembra Trapero, a origem da produção faz parte da escritura do filme.Cremata (Nada e Viva Cuba), vem de um país onde o cinema é todo oficial, e diz que procura fazer filmes alternativos, que também se viabilizem no exterior. Marcelo Gomes lembrou que seu Cinema, Aspirinas e Urubus, grande sucesso em festivais, foi vendido para dez países, apenas um dos quais latino.Conclusão (parcial), a partir das falas concretas dos cineastas: as fronteiras, apesar da ideologia global do mundo único, continuam mais firmes do que nunca. A idéia de que gente e produtos culturais circulam livremente por um mundo homogêneo parece pura ingenuidade quando confrontada com a realidade. Filmes podem pegar dinheiro em qualquer parte, mas circulam de maneira restrita em um circuito dominado. As co-produções não são neutras: exprimem-se no resultado estético do filme.Apesar das limitações, o cinema latino-americano, tão ausente no Brasil nos anos recentes, começa a chegar aqui com maior freqüência. O Cine Sul já faz esse intercâmbio regularmente; o Cine Ceará tornou-se ibero-americano, Gramado abriu-se de forma mais consistente aos hispânicos e agora surge o festival paulista. Os festivais abrem-se aos latinos, mas o mercado exibidor continua um bunker inexpugnável. Essa fronteira parece intransponível.

Agencia Estado,

17 de julho de 2006 | 12h53

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