'Sem Escalas' é a usurpação da identidade como tema

Liam Neeson e o diretor Jaume Collet-Serra refazem 'desconhecido'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 de março de 2014 | 22h30

Segunda-feira de carnaval no Shopping Bourbon. O que se pode fazer numa São Paulo deserta? Encher os cinemas. Como não havia mais lugar para a sessão de Sem Escalas, o repórter buscou outro cinema. O próprio PlayArte Marabá, no Centrão, estava quase lotado. Um sucesso. Críticos deviam ser proibidos de ver um filme como o de Jaume Collet-Serra com Liam Nesson. Brincadeirinha – mas é que eles gostam, ou pelo menos se divertem, e depois buscam justificativas para não gostar. Como insinuar que o filme não segura sua premissa inicial, que seria mais crítica.

Sem Escalas traz para o pós-11 de Setembro a série Aeroporto, que tanto sucesso fez nos anos 1970. Aviões não deixam de se assemelhar a hotéis, acolhendo passageiros (ou hóspedes) por um período de tempo. A divisão em classes – primeira, executiva, econômica – realça o caráter de microcosmo social. Isso é o óbvio. Tanto é verdade que Arthur Hailey, o autor do best seller Aeroporto, também escreveu Hotel de Luxo, que foi filmado (e bem) por Richard Quine, em 1967.

Quem revê hoje o primeiro Aeroporto ri da facilidade com que a velhinha entra como clandestina a bordo, ou como o homem que quer deixar um seguro vultoso para a mulher também passa com a bomba. Há uma bomba em Sem Escalas – num mundo paranoico de segurança, como foi possível? Quem a carrega é um xerife do ar, um desses sujeitos cuja função, depois de 2001, é vigiar internamente os voos, para impedir sequestros. Liam Neeson é um dos xerifes do ar em Sem Escalas (há outro).

De cara, é pintado como um homem em crise. Bebe demais, fuma no banheiro do avião, o que é crime federal. Para um xerife do ar, Neil Marks (seu nome) é instável demais. Morre de medo e se segura todo na poltrona, mas avisa à passageira do lado (Julianne Moore) que é só na decolagem. O avião mal decolou e Marks recebe mensagens na linha privada de seu smartphone. Alguém, a bordo, exige US$ 150 milhões numa determinada conta. Em caso contrário, um passageiro será morto a cada 20 minutos. A conta revela-se pertencer a... Marks, e logo, em terra, ele está sendo acusado de sequestro. A Força Aérea destaca dois jatos militares para seguir o voo – e, se necessário, abater o avião.

Jaume Collet-Serra é espanhol e completa 40 anos dia 23. Decidido a ser cineasta, emigrou para os EUA. Estudou montagem, virou editor. A estreia provocou certo frisson, com o terror de A Órfã, sobre aquela mulher, com distúrbio de crescimento, que se passa por criança para matar. Veio depois Desconhecido, com Liam Neeson, e agora Sem Escalas, de novo com Neeson. Para interessados na teoria de autor, parecem o mesmo filme. Um médico desmemoriado cuja vida é usurpada, o xerife do ar cuja vida também está sendo usurpada. Todo o plano para incriminar Marks se resume a uma trama de patriotismo e vingança, que Collet-Serra usa para tratar de identidade e paranoia, como em Desconhecido. O roteiro segue o encadeamento de causa e efeito (para personagens e situações). É eficiente, mas não brilhante. Liam Neeson convence como herói que não é super-homem. Precisa de ajuda. Com ela vem o que promete ser um recomeço – o amor?

SEM ESCALAS

Título Original: Non-Stop

Direção: Jaume Collet-Serra

Gênero: Ação (EUA/ 2014; 106 min)

Classificação: 14 anos

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