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'Selma' lembra a luta de Luther King pelo direito de voto dos negros no Alabama

Longa foi indicado em duas categorias do Oscar

O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2015 | 19h40

Com um pouco de má vontade seria possível dizer que Selma é um filme menor escondido atrás de um grande tema. Com mais benevolência, pode ser visto apenas como obra aquém do assunto abordado. Este não poderia ser maior, e nem mais oportuno. A luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos, liderada por ninguém menos que Martin Luther King. Sua atualidade, por paradoxo, reaparece quando os Estados Unidos têm o primeiro presidente negro de sua história, em seu segundo mandato, mas ao mesmo tempo a polícia mata cidadãos negros no país. 

Com esse potencial incandescente, Selma foi alvo de polêmica nos Estados Unidos. Em especial, porque subvalorizado no Oscar, ficando apenas com duas indicações - a de melhor filme e de canção original. Sua diretora, Ava DuVernay, não está indicada em sua categoria. A ausência entre os indicados do ator britânico David Oyelowo, que no filme interpreta Luther King, contribuiu para a polêmica. Como se o Oscar deste ano estivesse prestando pouca atenção à questão racial, passados tantos anos ainda tão presente no país, apesar de Obama. 

Outros aspectos foram postos em discussão, como o papel desempenhado pelo então presidente, Lyndon Johnson (Tom Wilkinson), no episódio. Para os defensores da memória de Johnson, sua presença é minimizada, enquanto, para detratores, ele se sai bem até demais. 

 

Enfim, Selma contém em si todas as controvérsias costumeiras nas visitas do cinema à História, aquela com agá maiúsculo. No caso, a diretora Ava DuVernay concentra-se nas marchas de 1965 no Alabama, memoráveis na trajetória de Luther King e na efetivação dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. O filme abre um arco entre dois momentos - o reconhecimento do dr. King como grande líder do movimento negro, o que lhe vale o Prêmio Nobel da Paz, ao discurso em Montgomery, capital do Alabama, um dos seus grandes momentos, talvez o maior. 

Esse momento da história americana contém todos os ingredientes para uma fervorosa peça dramática. De um lado, King e seus aliados toureando pessoas do movimento negro dispostas a soluções mais rápidas e radicais. De outro, um governador racista, George Wallace (Tim Roth), uma população branca hostil, a Ku Klux Klan, e um presidente pressionado pelos vários lados em disputa. 

É pena que desse ambiente efervescente de luta política saia um filme um tanto frouxo, apesar da boa atuação da maior parte do elenco. O tom é solene e Ava DuVernay não faz muita questão de matizar personagens de modo a humanizá-las. Parte para definições rápidas, com traços ligeiros que tendem à superficialidade, para não falar em caricatura mesmo. 

O drama também parece indeciso entre as duas esferas que o compõe - a trajetória pública e a vida pessoal do dr. King. Esta é vigiada pelo FBI, então sob a guarda do tristemente famoso Edgard Hoover, que tenta encontrar uma brecha na vida familiar do líder de modo a fragilizá-lo. Nessa indecisão entre vida privada e pública o que fica fragilizado é o filme. 

Selma tem bons momentos, como as cenas de conflitos entre polícia e manifestantes, bem realistas. Assim como são boas como as dúvidas e hesitações em um homem que se sente imbuído de uma missão. A causa de King é justa e atual. Não se fica indiferente a ela, apesar de todos os problemas do filme. Mas é só.

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