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'Selma' conta a real história de um outro herói americano

Pela primeira vez, Martin Luther King Jr. está no centro de um filme

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2015 | 03h00

LONDRES - Parece incrível, mas Martin Luther King Jr., um dos principais nomes na defesa dos direitos civis nos EUA, nunca esteve no centro de um filme lançado no cinema. Isso muda com Selma – Uma Luta Pela Igualdade, de Ava DuVernay, que estreia no Brasil na quinta, 5. Um ano depois de a segregação deixar de ser legal no país, Luther King Jr. (David Oyelowo) é uma das lideranças das marchas entre Selma e Montgomery, Alabama, em 1965, que defendiam direitos iguais de votação – artimanhas como o uso de documentos específicos ou de testes de conhecimentos impediam que o número de eleitores negros inscritos fosse alto. A primeira, no dia 7 de março, protestava contra a morte de um ativista negro desarmado, dias antes, e foi reprimida com violência. 

Dois dias mais tarde, houve novos confrontos, e Luther King Jr. achou melhor recuar. No dia 15, o presidente Lyndon B. Johnson, pressionado, apresentou ao Congresso a Lei de Direito de Voto. No dia 17, finalmente, os ativistas conseguiram completar a marcha até Montgomery. Selma era cotado em várias categorias para Oscar, inclusive para a diretora Ava DuVernay, que vem do cinema independente, e o ator David Oyelowo. Concorre em duas: melhor filme e canção original. A falta de outras indicações gerou muitas críticas sobre a falta de diversidade da Academia. DuVernay conversou com o Estado em Londres.

Devo dar parabéns pela indicação para o Oscar ou não?

Claro, eu aceito! Obrigada!

Você ficou desapontada?

Não por mim, porque eu não estava esperando. É matemática. Eu era assessora de imprensa, sei como as campanhas para o Oscar funcionam. É feito por ramo, então os diretores votam nos diretores, os atores votam nos atores... E as pessoas votam em quem conhecem. Sou de fora, conheço só Kathryn Bigelow. Mas fiquei chateada pelo David. Porque ninguém precisa me dizer, eu sei que ele tem uma das melhores performances de 2014. 

Como decidiu fazer o filme?

Eles me pediram. David Oyelowo tinha sido escalado por Lee Daniels para fazer o papel. Quando Lee Daniels saiu do projeto para fazer O Mordomo da Casa Branca, David se tornou um ator sem um diretor. E eu e ele nos conhecíamos porque fizemos um filme juntos alguns anos antes (Middle of Nowhere, de 2012, pelo qual DuVernay ganhou o prêmio de direção em Sundance). David que me conseguiu o trabalho. É uma oportunidade e tanto para uma cineasta, ainda mais uma cineasta negra americana, cujo pai é de Lowndes County, Alabama. Meu pai viu as marchas quando tinha 11 anos de idade. 

Ele viu?

Sim! E minha mãe trabalha em Selma. É muita coincidência que eles tenham convidado uma cineasta cujos pais são daquele lugar! Era para ser. 

Qual era a coisa mais importante que queria retratar de Martin Luther King Jr.?

Que ele era um ser humano. Parece simples, mas o que as pessoas conhecem dele é o discurso ‘Eu tenho um sonho’. Não o veem como um homem, mas como uma estátua, um selo, um feriado, um nome de rua. Tentamos retirá-lo do mármore em que foi encerrado. E deixá-lo viver e respirar e ser um homem normal que fez coisas extraordinárias. 

Por que você acha que um filme sobre o Dr. King nunca foi feito antes?

É estranho. Acho que os direitos para os discursos estão amarrados, há questões técnicas. Mas a verdade é que filmes com protagonistas negros que não são comerciais não estão na lista de prioridades dos estúdios. Nenhum executivo vai dizer: ‘Sabe o quê? Vamos fazer um filme sobre um homem negro importante! Alguém que lutou pela liberdade!’. Não vai acontecer. Eles querem naves espaciais explodindo.

Oprah Winfrey foi importante para o projeto?

Ela foi vital. O filme não teria sido feito sem ela. No momento em que ela entrou, todo o mundo pensou que podia fazer dinheiro, ou podia conseguir atenção para o filme. Ninguém me conhecia. David Oyelowo fez papéis em vários filmes, mas não é um astro, entre aspas mesmo. Então, não havia razão para colocar US$ 20 milhões no projeto até Oprah Winfrey chegar e dizer: ‘Vamos fazer’.

Claro que você não sabia, quando estava fazendo o filme, que ia ter o caso de Michael Brown em Ferguson e depois Eric Garner em Nova York. Qual sua opinião sobre como o passado e o presente se conectam?

Temos uma cena em que Jimmie Lee Jackson, desarmado, é assassinado, e chegamos aos cinemas semanas depois de vários homens negros serem assassinados quando estavam desarmados. É um filme que fala sobre uma cidade pequena de que ninguém nunca ouviu falar que se levanta para protestar e transforma a nação. E ele sai no momento em que uma pequena cidade de quem nunca ouviu falar, Ferguson, se levanta para protestar. O filme está muito alinhado com seu tempo. Foi estranho, mas também uma honra ser um filme que tem algo a dizer sobre este momento, basicamente que não aprendemos com nossa própria história. 

Em pouco tempo, haverá eleições de novo nos Estados Unidos. E ainda há muitos problemas, não?

Sim. A Lei de Direito de Voto que retratamos tem sido desmantelada pouco a pouco pelos republicanos. Nas próximas eleições, nem todo o mundo vai poder votar, a não ser que atenda a certos parâmetros. É perturbador, é uma emergência, e a esperança é que as pessoas sejam alertadas. Como as pessoas não estão prestando atenção, pouco a pouco, seus direitos estão sendo retirados. 

A extrema direita está ganhando força na Europa. Então, a democracia parece precisar de uma recriação. 

Nos Estados Unidos, agora, um filme chamado Sniper Americano, que fala de uma maneira muito específica sobre os muçulmanos, com a qual não concordo, está arrasando nas bilheterias. E você tem um filme sobre o Dr. King, que fala de justiça e dignidade para todos, está indo OK. Um é sobre um herói americano, como ele é chamado, cujo negócio era matar. E o outro herói americano, como também é chamado, tinha como negócio amar. Faz uma pessoa progressista balançar a cabeça. 

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