Divulgação
Divulgação

Seleção de 'Pequeno Segredo' para o Oscar se deu em clima de forte polarização política

Decisão da comissão do MinC tem a ver com isso tudo, queira ou não

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2016 | 19h47

Não adianta fingir que tudo se passou num mundo ideal e prevaleceram critérios estéticos ou oportunistas (qual é o melhor para os “velhinhos da Academia”?). Neste Brasil imperfeito, a escolha do representante para o Oscar se deu num quadro de forte polarização política. A decisão da comissão do MinC tem a ver com isso tudo, queira ou não.

Em maio, em Cannes, ao promover um protesto contra o impeachment de Dilma em pleno tapete vermelho, Kleber Mendonça Filho e sua equipe escolheram um lado. Outras parcelas da sociedade brasileira optaram pelo lado oposto. É assim mesmo, o pensamento binário rege o País até que possamos voltar a conversar. Por enquanto, Aquarius é o filme “contra o golpe”. Adotado, portanto, por quem pensa da mesma maneira. E, claro, execrado por quem tem opinião contrária. 

Até aí seria tudo normal, se é que podemos falar em “normalidade” nos tempos que vivemos. Bizarro foi o som ao redor dessa comissão. Um jurado expressou no Facebook sua desaprovação ao protesto em Cannes. Em solidariedade a Kleber, ou por discordar da maneira como a comissão foi formada, três diretores tiraram seus filmes da disputa: Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta?), Gabriel Mascaro (Boi Neon) e Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta). Dois jurados também se retiraram da votação, o cineasta Guilherme Fiúza e a atriz Ingra Lyberato. Ocuparam suas vagas o cineasta Bruno Barreto e a atriz e diretora Carla Camurati. Houve, ao mesmo tempo, o caso da censura a Aquarius para menores de 18 anos, disparate que parecia retaliação de um governo irritado e pouco seguro de sua legitimidade. Depois, a censura caiu para 16 anos.

Por fim, Aquarius estreou com ótima acolhida de público e crítica. Já anda perto dos 200 mil espectadores. Um sucesso para produção do seu tipo. Fala do Brasil, dos problemas do nosso país, do tipo de progresso predatório que adotamos. E o faz em linguagem inovadora, original, que nem por isso se torna hermética. Talvez vendo Pequeno Segredo fiquemos convencidos da sabedoria da comissão do MinC e reconheçamos que este sim era o filme do ano. Talvez ele conquiste corações e mentes, faça muito público, vá ao Oscar e dê ao Brasil a tão sonhada estatueta dourada, sem a qual seríamos vira-latas para todo o sempre. Pode ser. Enquanto isso, aguardemos. Com o pé atrás. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.