Nanni Moretti
Nanni Moretti

Veja seis grandes atuações de Michel Piccoli no cinema

O ator francês, morto aos 94 anos, deixou marcas que não serão esquecidas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 15h21

Em 1995, para festejar o centenário do cinema, uma grande asrtista, não apenas diretora - Agnès Varda -, desenvolveu um projeto grandioso, mas que, infelizmente, não saiu tão bom como ela gostaria. Les Cent e Une Nuits de Simon Cinéma. O filme teve direito a gala em Cannes, tapete vermelho. Michel Piccoli interpretava o centenário Senhor Cinema. Gilles Jacob, então diretor-geral do festival, recebeu-o na entrada do palais. Eram grandes amigos. Foi Jacob quem anunciou a morte do grande Piccoli. Morreu no dia 12, há quase uma semana, em consequência de um acidente cárdio-vascular.

Descendente de italianos, Piccoli nasceu numa família de músicos – mãe pianista, pai violinista -, em Paris, no dia 27 de dezembro de 1925. A arte estava no horizonte e ele se tornou ator. Não apenas dirigiu para teatro, como dirigiu um teatro, o Babylone. Se não foi realmente sua estreia, a primeira vez que se se fez notar na tela foi num filme de Jean Renoir – French Can-Can, de 1954. Seguiu-se, dois anos depois, um filme de Luis Buñuel – La Mort en Ce Jardin, que passa na TV como A Morte no Jardim. Em 1962, foi o Ulisses moderno de O Desprezo, o mais clássico filme de Jean-Luc Godard, livremente adaptado do romance de Alberto Moravia. Piccoli faz o roteirtista, marido de Brigitte Bardot, do filme dentro do filme, que o lendário Fritz Lang pretende rodar – uma versão de A Odisseia, interpretada por estátuas.

Em 1964, de novo com Buñuel, fez O Diário de Uma Camareira. Não parou mais de filmar. Tornou-se requisitado pelos maiores diretores - fez A Guerra Acabou, com Alain Resnsais; A Bela da Tarde, com Buñuel; Duas Garotas Românticas, com Jascques Démy; A Comilança, com Marco Ferreri. Com Buñuel fez ainda O Estranho Caminho de São Tiago, O Discreto Charme da Burguesia, O Fantasma da Liberdade, Esse Obscuro Objeto do Desejo. Idem com Ferreri: Dillinger È Morto, L'Ultima Donna. Foi um dos atores preferidos do mestre português Manoel de Oliverira – Party, Vou Para Casa, no qual protagonizou a genial cena do sapato desamarrado, Espelho Mágico, Belle Toujours, Encontro Único (o episódio de Chacun son Cinéma). Voltou a Renasis (Vocês Ainda não Viram Nada). E teve belos encontros com Claude Chabrol (Dez Dias Fantáticos), Louis Maslle (Atlantic City e Primasvera em Maio), Jacques Rivette (A Bela Intrigante), Nanni Moretti (Habemus Papam) e Léos Carax (Holy Motors). Mas uma parceria precisa ser destacada, e talvez tenhado sido a maior de todas.

Em 1970, formou uma dupla inesquecível com Romy Schneider, então no suge da beleza e do talento, As Coisas da Vida, de Claude Sautet. O trio voltou em Sublime Renúncia, Mado. E com Sautet ainda fez Vicente, Paulo, Francisco e os Outros. Sautet filmava o homerm comum, mesmo quando submetido a circunstâncias poderosas. Sautet fez os filmes que François Truffaut, a partir de determinado momento de sua carreira, talvez gostasse de ter feito. Michel Piccoli casou-se três vezes. A segunda mulher foi a cantora e atriz, musa do existencialismo, Juliette Gréco. A par de sua extraordinária carreira, foi militante de esquerda, integrando o Movimento pela Paz e sempre firme contra o Front National, de extrema-direita. Em 1981, fez campanha pelo socialista François Mittérrand. Gilles Jacob editou as memórias de Piccoli e assina com ele o livro J'ai Vécu dans Mes Rêves. Piccoli dizia que conseguiu viver muito mais do que que sonhou. Não poderia haver mais perfeito epitáfio para esse grande do cinema que se despede aos 94 anos.

Veja alguns dos filmes que o ator francês Michel Piccoli, morto nessa segunda (18), aos 94 anos, faz grandes atuações

1. O Desprezo

De Jean-Luc Godard, 1963. Faz o roteirista do filme dentro do filme, marido de Brigitte Bardot. Um Ulisses moderno que não tem mais a grandeza do da lenda.

2. A Bela da Tarde

De Luís Buñuel, 1967. É um dos frequentadores do bordel de M. Anaïs, onde Catherine Deneuve, como Sévérine, exerce seu ofício de profissional do sexo

2. As Coisas da Vida

De Claude Sautet, 1970, o primeiro de muitos grandes filmes com o diretor. Romy Schneider, linda. O homem que sofre acidente de carro e vê a vida passar antes de morrer.

3. Sublime Renúncia

De novo Sautet, e Romy, 1971. Policial dedicado, Max tem de prender o amigo que não via há anos e agora trabalha no desmonte de carros roubados.

 

4. A Comilança

De Marco Ferreri, 1973. Os amigos (Mastroianni, Philippe Noiret, Ugo Tognazzi e ele) que se isolam e comem até morrer.

5. A Bela Intrigante

De Jacques Rivette, 1991. O pintor que tenta realizar sua obra-prima, retratando nua a jovem Emmanuelle Béart.

6. Vou para Casa

De Manoel de Oliveira, 2001. Grande ator de teatro sofre abalo quando a família inteira morre num acidente. Se Piccoli tivesse de ser lembrado por uma só cena, seria nesse filme. Ele olha o sapato desamarrado. Amarrar, ou não? Toda a vida se resume a esse dilema shakespeariano. To be or not to be?

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