Brent N. Clarke/Invision/AP
Ator Joaquin Phoenix na pré-estreia de 'Coringa', no Festival de Cinema de Nova York. Brent N. Clarke/Invision/AP

Segurança é reforçada em estreia de 'Coringa' nos cinemas dos EUA

O temor de que o filme possa incentivar a violência dominou os debates antes do lançamento

Maria Caspani e Jill Serjeant, Reuters, Nova York/Los Angeles

04 de outubro de 2019 | 08h14

As polícias de algumas cidades dos Estados Unidos ficaram em alerta nesta quinta-feira para a estreia do filme Coringa nas salas de cinema, após semanas de notoriedade em torno do retrato perturbador de uma solitária vítima de bullying levantarem temores de que o filme possa incentivar violência.

Coringa, uma história original sobre o rival do Batman nos quadrinhos, conta com Joaquin Phoenix no papel principal. Críticos de cinema definiram a performance do ator como brilhante, mas aterrorizante, à medida que ele interpreta um pária mentalmente desequilibrado que involuntariamente encontra fama através de um ato de violência.

O personagem da DC Comics é associado a um ataque a tiros em massa em 2012 em uma sala de cinema em Aurora, no Colorado, durante exibição de outro filme do Batman, O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Famílias de algumas das vítimas expressaram preocupação com o novo filme e ele não será exibido nas salas de cinema da cidade.

Policiais com capacetes e rifles de assalto se posicionaram do lado de fora de uma exibição de Coringa no Festival de Cinema de Nova York na noite de quarta-feira, onde espectadores tiveram seus pertences vistoriados, segundo imagens.

As polícias de Nova York, Los Angeles e Chicago afirmaram em comunicados que, embora não tivessem percebido ameaças específicas, enviaram equipes adicionais ou estão monitorando cinemas onde o filme está sendo exibido.

O site Deadline citou uma autoridade da lei de Nova York afirmando que agentes à paisana seriam posicionados dentro de alguns cinemas na cidade. A polícia de Nova York não confirmou a notícia.

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Joaquin Phoenix como Coringa, no filme que estreia nesta quinta: gênio do crime cruel, longe do pateta brincalhão da TV Warner

Joaquin Phoenix, ‘possuído’ pelo Coringa

Longa de Todd Phillips reflete o mundo ao revelar como se cria o supervilão

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Joaquin Phoenix como Coringa, no filme que estreia nesta quinta: gênio do crime cruel, longe do pateta brincalhão da TV Warner

Começou a temporada do Oscar, mas quem espera por uma possível candidatura, e até vitória de Brad Pitt como melhor ator em 2020 por Era Uma Vez... Em Hollywood, de Quentin Tarantino, ou principalmente Ad Astra - Rumo às Estrelas, de James Gray, já pode ir desistindo. Joaquin Phoenix está um arraso e a transformação de Arthur em Coringa, no longa de Todd Phillips, que estreia nesta quinta, 3, é de cortar o fôlego. Tudo bem que a Academia não é muito chegada em premiar astros pop, exceto os pops que ela própria elege e transforma em quetais. Joaquin já vem flertando com o prêmio há tempos, poderia até já ter ganhado, mas o seu palhaço do crime é realmente algo muito especial.

Desde Cesar Romero, nos anos 1960, o Coringa já teve várias representações na tela. Jack Nicholson, Heath Ledger, Jared Leto, as principais. Ledger chegou a ganhar, postumamente, a estatueta de melhor coadjuvante pelo filme de Christopher Nolan sobre o cavaleiro das trevas. Coringa, o filme, não é exatamente um blockbuster, nem uma aventura de super-heróis, mas mostra a construção do vilão, o que George Lucas já fez na segunda trilogia de Star Wars, que, cronologicamente, na estruturação geral da série, virou a primeira. Coringa não tem o Batman, mas tem Bruce Wayne, e o descontrole final, o caos do mundo metaforizado pela orgia destruidora dos palhaços, leva à tragédia fundadora do herói das HQs. É um drama, e fortíssimo, e isso talvez avalize as chances do filme no Oscar, já que a Academia, vale ressaltar, não gosta muito de dar prêmios para blockbusters.

Toda a questão colocada em Coringa é basicamente uma - Joaquin Phoenix é genial no papel, mas até que ponto se trata de um bom ou mesmo grande filme? Para criar seu vilão monstruoso, o diretor Phillips retrata o estado do mundo para chegar a essa ausência de esperança que, de alguma forma, gera o que se pode definir como semente do mal. Talvez sejam conceitos muito genéricos e até fáceis, talvez a economia e a política, e a tragédia dos refugiados e imigrantes necessite de focos mais acurados, mas o que está em jogo é o “outro”. Uma das tragédias desse mundo moderno pode estar na crise da palavra, ou então nessa dificuldade, cada vez maior, que as pessoas enfrentam para se abrir para o outro. 

Nesse sentido, Coringa e Encontros, o longa do francês Cédric Klapisch que também estreia nesta quinta, 3, são como as duas faces da mesma moeda. Um filme solar e outro lunar. “A feel good movie”, como dizem os norte-americanos, para fazer o público se sentir bem, e a viagem ao coração das trevas.

Todd Phillips, que dirige Coringa, ganhou projeção com a série de comédia The Hangover/Se Beber, não Case, que completa dez anos em 2019. Bradley Cooper virou astro, tornou-se diretor, concorreu ao Oscar (com Nasce Uma Estrela) e agora produz o Coringa

Parcialmente inspirado em O Homem Que Ri, de Victor Ri - e na interpretação que Conrad Veidt deu do personagem -, o Coringa é um supervilão de ficção que surgiu nas HQs. Criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, apareceu pela primeira vez em Batman #1, em abril de 1940. Desde o começo surgiu para ser um psicopata sádico e doentio, com aquela gargalhada sinistra, mas o código de censura dos comics e, depois, da TV e do cinema transformou-o num pateta brincalhão. Tim Burton e Christopher Nolan resgataram o gênio criminoso e cruel. Todd Phillips radicalizou. Como produtor e diretor, ele já andou dizendo que cansou da comédia porque o humor, segundo ele, não dá mais conta de criticar a sandice do mundo. Phillips já se perguntou: como a ficção pode competir com a realidade, se Donald Trump é presidente dos Estados Unidos?

Arthur é um palhaço que ganha a vida segurando cartazes e tropeçando nos próprios sapatões nas ruas de Gotham, que tem como base a cidade americana de Nova York nas histórias da DC Comics. Estamos nos anos 1980, a criminalidade avança, uma greve acumula lixo e os ratos proliferam. Nesse quadro, e ao reagir com violência num incidente no metrô, Arthur vai terminar dando vazão à violência reprimida da massa. O filme tem algo de Watchmen, de Zach Snyder, que também está completando dez anos. É crítico ou conivente com esse direitismo desenfreado que avança pelo mundo? No mundo que cultua o vilão, Bruce Wayne ainda é só uma criança. Um herói para o futuro? Possesso - possuído? -, Coringa surge nos anos 1980, com o neoliberalismo. Os recados estão todos dados.

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'Coringa' provoca diversas interpretações e debates antes da estreia

Para alguns, filme passa o pano para os 'incels', os homens, em geral brancos e de classe média, que exigem atenção do mundo e das mulheres

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2019 | 16h00

VENEZA — Um dia depois da sessão de gala do Festival de Veneza – e antes, portanto, do Leão de Ouro –, o diretor norte-americano Todd Phillips se disse aliviado, mas ainda ansioso. “Quando se faz uma produção chamada Coringa, há sempre um nível enorme de expectativa”, afirmou. “Mesmo que tenhamos deixado claro que não era um filme de quadrinhos. De jeito nenhum queríamos enganar as pessoas e levar a pensar que era um longa de ação e que o Batman ia aparecer”, completou. Batman de fato não aparece, mas a família Wayne, sim. “Quisemos brincar com o cânone, por exemplo, apresentando Bruce Wayne ainda criança e seu pai, Thomas.” 

É impossível assistir a Coringa sem fazer um paralelo com os dias de hoje. “É um filme humanista, e acho que precisamos de mais desses. Então, se você assiste e vê como um espelho do que está havendo no mundo, certamente nos Estados Unidos e provavelmente no Brasil, não acho ruim”, disse o diretor, mais conhecido pela franquia de comédias Se Beber, Não Case! 

Phillips se disse empolgado com as diversas interpretações do longa-metragem. “Um amigo, por exemplo, achou que o Coringa era o Trump”, contou. “Quero deixar claro que não estou afirmando isso. Eu e o Joaquin (Phoenix) temos certa dificuldade de falar do que o filme trata. Há muitos modos de ver Coringa. E para mim isso é legal, embora seja frustrante para algumas pessoas. É o que tentamos fazer”, falou, referindo-se a poder abrir diversos temas de discussão. 

E eles são muitos, da pressão pela felicidade constante ao abismo entre ricos e pobres, da invisibilidade de tantos que não se encaixam nos moldes à doença mental sem que haja tratamento adequado, e a busca pela fama e pela adoração. 

Antes mesmo de sair de Veneza, o filme, que tem chances de emplacar algumas indicações para o Oscar, foi debatido. Para alguns, Coringa passa o pano para os “incels”, os homens, em geral brancos e de classe média, que exigem atenção do mundo e das mulheres e, se não conseguem, promovem tiroteios em massa. Se o Coringa virar um herói de pessoas assim, não seria a primeira vez. “É uma terrível má interpretação do filme”, explicou Phillips. “Mas pode acontecer e não há como controlar.” 

Elogiado astro do primeiro filme sobre o arqui-inimigo do Batman, Joaquin Phoenix tentar entender a cabeça de pessoas como Arthur Fleck, o comediante perturbado e fracassado que depois se torna o macabro Coringa. “Não deveríamos fazer isso, compreender gente que não compartilha nossos valores e opiniões?”, questionou o ator que foi muito aplaudido após a exibição de Coringa no Festival de Veneza, além de ser unanimemente elogiado pela crítica.

“Quero que as pessoas tenham uma reação visceral, mas certamente não posso ditar como as pessoas vão assistir a um filme”, revelou o astro que emagreceu 23 quilos para viver o personagem sombrio. Como ele afirmou, as discussões são importantes. E reiterou: “O Coringa é um vilão”. 

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Crítica: Coringa é o louco maquiado que sempre rouba a cena

No início, era um psicopata, verdadeiro gênio do crime; passou por bandido bobo e atrapalhado e nas suas últimas encarnações assumiu faces ambíguas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2019 | 16h00

Personagem fictício criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane na DC Comics, o Coringa, ou The Joker, apareceu pela primeira na revista do Batman # 1, de abril de 1940. Rapidamente, tornou-se um dos vilões preferidos do público. No início, era um psicopata, verdadeiro gênio do crime, que utilizava sua habilidade em engenharia química para produzir misturas letais. Mau, muito mau, e aquele sorriso esculpido no rosto fez dele o pesadelo de muitas crianças.

No fim da década de 1950, por pressão do Comics Code Authority – o código de censura dos quadrinhos –, converteu-se num bandido bobo e atrapalhado, e como tal foi retratado por Cesar Romero na TV e no cinema, e no Batman de Leslie H. Martinson, com Adam West como o herói mascarado.

Aquele era um Homem-Morcego inocente e o diretor incorporava o humor camp da TV e dos quadrinhos, com direito a balões com as expressões características do herói e seus vilões (além do Coringa, também o Charada, o Pinguim e a Mulher-Gato).

Algo muito diferente se passou em 1989, quando Tim Burton fez seu Batman para adultos e que arrebentou na bilheteria. Michael Keaton vestia a armadura, mas o grande personagem era o vilão, Jack Nicholson como o Coringa, embora ambos, na verdade, fossem as duas faces da mesma moeda, dois malucos que perderam todo juízo, têm problemas com as mulheres, os pais e a cidade, e ameaçam destruir o mundo todo.

A grande sacada de Burton, e nisso ele fez história, foi não estabelecer fronteiras muito nítidas. Um louco de máscara e capa, outro maquiado, ou será que se pode confiar, como herói, num sujeito que se pendura em telhados e anda com aquela fantasia, bancando o justiceiro, na calada da noite?

Batman surgiu otimista, virou dark durante a Guerra do Vietnã. Comparativamente, o Coringa de Heath Ledger, no filme de Christopher Nolan – O Cavaleiro das Trevas – que lhe valeu, postumamente, o Oscar de melhor ator coadjuvante, em 2008, é mais insano (de volta às origens?) e o de Jared Leto, em Esquadrão Suicida, de 2016, é mais palhaço sem ser deixar de ser neurótico.

Justamente, o Coringa de Jared. Nove entre dez críticos (onze entre dez?) amam falar mal dele, mas se Jared já não tivesse recebido o Oscar (por Clube de Compras Dallas, de 2014) sua interpretação talvez tivesse sido melhor entendida, e apreciada. É magnífico.

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Genial ou perigoso, só se fala em ‘Coringa’, filme que estreia dia 3 de outubro

Filme estrelado por Joaquin Phoenix estreia mundialmente na quarta-feira, 3 de outubro

Lindsey Bahr, AP

01 de outubro de 2019 | 08h04

Nos 80 anos em que faz parte da cultura popular, o Coringa sempre deu jeito de irritar alguém – seja por seu caráter, seja pelo que ele representa ou até pelas justificativas dos atores sobre o que os levou a fazer papel. Mas desta vez o personagem mexeu com os nervos gerais antes mesmo de estrear nesta quinta, 3 - pré-estreias estão previstas para a quarta, 2.

Os holofotes sobre Coringa (Joker) estão testando limites. O filme sobre o incansável inimigo de Batman vem inspirando artigos a favor e contra. Coringa já está sendo considerado o filme que finalmente dará um Oscar a Joaquin Phoenix, mas também já foi chamado de “perigoso”, “irresponsável” e até “incentivador ao celibato”.

Na semana passada, parentes de vítimas mortas no tiroteio no cinema Aurora em 2012 escreveram ao presidente da Warner Bros. pedindo-lhe que apoie a campanha contra as armas. O estúdio divulgou uma declaração dizendo que o filme não incentivava “nenhum tipo de violência do mundo real”.

O filme teve uma estreia triunfal no Festival de Cinema de Veneza e ganhou o prêmio máximo. E, embora as críticas fossem  na maioria positivas, ele foi também submetido a um duro escrutínio, deixando os realizadores na defensiva.

O diretor e corroteirista Todd Phillips não foge da discussão. “Se preciso, falarei do filme o dia inteiro”, disse ele. Todd apenas gostaria que as pessoas vissem o filme antes de tirar conclusões. “É péssimo quando alguém critica argumentando que ‘não preciso assistir para saber o que é’. Fico atônito ao ver como a extrema esquerda se aproxima da extrema direita quando convém a ela.” A reação negativa antecipada é ainda mais desconcertante para Phillips porque ele esperava e espera que o filme possibilite discussões sobre armas, violência e tratamento dado a pessoas com distúrbios mentais. “É um filme engraçado? Qual é seu impacto sobre a violência no mundo real?”, pergunta o diretor.

O filme mostra como um perturbado homem de meia-idade chamado Arthur Fleck vai aos poucos se tornando o vilão Coringa. Fleck é um palhaço profissional decadente que vive com a mãe em um decrépito apartamento em Gotham e se reporta ocasionalmente a um assistente social. Distribui um cartão às pessoas explicando que suas explosões de riso, incontidas e dolorosas, são consequência de um problema médico. Sua única alegria é assistir à noite ao talk show de Murray Franklin (Robert De Niro).

“Ele é triste e espalha tristeza”, disse Philips. “E sabe o que acontece nos filmes em que o mundo é sem simpatia e sem amor? Você tem o vilão que merece.”

Em Coringa, o ator tem de ir a lugares difíceis e o filme tem complicações adicionais por seu realismo, embora se passe num mundo ficcional. Para fazer Arthur e o Coringa, Phoenix pesquisou pessoas que ele se recusa a mencionar. Também teve de perder 24 quilos numa dieta extremamente baixa em calorias, sob supervisão de um médico. Com o emagrecimento, ele temia que fosse ficar irritadiço, vulnerável, sempre faminto. Em vez disso, a perda de peso levou a uma “fluidez” que ele não previra.

O cenário também é de certo modo fluido e Phoenix disse que ele e Phillips constantemente descobriam novas características no Coringa e em Arthur. “Parecia haver infinitas maneiras de interpretar cada cena e no fim tudo fazia sentido. Em algumas vezes, eu choro, noutras faço piada, noutras me enfureço, mas tudo se completa”, disse ele.

A experiência foi “excitante e surpreendente”, mas fazer Arthur/Coringa também se revelou “complicado e desconfortável” para o ator de 44 anos. Quanto à possibilidade de o público eventualmente usar o personagem como inspiração ou desculpa para seus atos, Phoenix acredita que o ônus cabe a cada um. “O público tem que a descobrir a diferença entre certo e  errado. Não creio que seja responsabilidade do diretor dar lições de moral. Quem não compreender essa diferença poderá se julgar direito de fazer o que bem entender”,  disse Phoenix.

Ele e Phillips frisam que Coringa não é um filme para crianças, nem para todos. “Não espero que todo mundo goste”, disse Phillips. “Se um filme agrada a todos, geralmente é porque não agradou a ninguém.” / Tradução de Roberto Muniz.

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'Coringa' estreia dia 3 de outubro com Joaquin Phoenix entre a dor e a loucura

Ator consegue rivalizar com outros grandes nomes que interpretaram o vilão, de Jack Nicholson a Heath Ledger

Mariane Morisawa, especial para O Estado, e Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2019 | 07h00

VENEZA - A seleção de Coringa, de Todd Phillips, para a competição do 76.º Festival de Veneza era um indício de que não se tratava de um filme baseado no universo dos quadrinhos como tantos outros que vêm inundando as salas de cinema. E, de fato, o longa prescinde de grandes cenas de ação e efeitos especiais épicos para se inspirar mais nos dramas de Martin Scorsese dos anos 1970 e 1980. Mas foi com certa surpresa que o Leão de Ouro foi recebido.

Com estreia prevista para 3 de outubro no Brasil, Coringa abriu a venda antecipada de ingressos na quinta, 19. No Festival de Veneza, a presidente do júri, Lucrecia Martel, que está bem longe de fazer cinema comercial, elogiou os riscos que a produção correu e a reflexão que faz dos anti-heróis como vítimas do sistema. Mas Coringa não seria o que é, um filme com capacidade de sacudir Hollywood na direção de mais ousadia, sem a interpretação de Joaquin Phoenix, que não se baseou em nenhuma das versões anteriores – de Cesar Romero, Jack Nicholson ou Heath Ledger e muito menos a de Jared Leto. 

“Sou pouco conectado à indústria do entretenimento”, disse o ator em entrevista exclusiva ao Estado, em Veneza. E jurou não ter ideia da quantidade de fãs que a história tinha. “Começaram a me perguntar da pressão dois dias antes do início das filmagens, e eu disse: ‘Não me digam isso agora!’”, contou. “Era tarde demais, mas no começo eu estava na ignorância completa. Ainda bem.” 

Phoenix ama uma reação forte aos filmes que faz. “Seja qual for”, contou. “A indiferença é que me incomoda.” Às vésperas de completar 45 anos, o ator afirmou categoricamente que não pode, no entanto, levar em conta a opinião de ninguém ao fazer um papel. “Nem a do diretor. Para mim, trata-se de uma exploração e uma experiência pessoais. Faço só para mim.” 

Mas quem é este Coringa? Arthur Fleck é um comediante frustrado que trabalha como homem-placa, vestido de palhaço. Mora com a mãe, que insistia que seu destino era ser feliz e fazer os outros rirem, e depende de remédios para seus problemas de saúde mental – ele tem uma condição que faz com que ria descontroladamente. Sendo pobre e esquisito, Arthur é invisível para a sociedade. Quando alguém o enxerga, é em geral para humilhá-lo. Só que, um dia, ele se vê com o poder nas mãos. 

Este Coringa não tem o jeito brincalhão de Romero, nem é transformado em vilão depois de cair num tanque de substâncias químicas como no caso de Nicholson. Não tem um desejo de ver o circo pegar fogo como o Coringa de Ledger, nem sabe-se lá o que Jared Leto estava fazendo. Arthur às vezes inspira pena. “Gosto que o filme peça ao espectador que pelo menos tenha empatia por alguém que é o vilão e que faz coisas horrendas. Às vezes, rotulamos uma pessoa como má, como se fôssemos incapazes dos mesmos atos.” 

Leia a seguir outros trechos da entrevista:

Você falou de divisão, e as sociedades mundiais parecem muito divididas. Acha que falta vontade de ouvir opiniões contrárias às nossas? 

Sim, claro. Não há muito debate saudável. Eu me lembro dos programas de notícia de antigamente. Hoje, eles são uma competição de quem grita mais alto. Há questões difíceis que precisamos discutir. Mas, se ficarmos gritando uns com os outros, não vai ter solução. Ficamos viciados nisso, dá mais audiência, mas isso está saindo caro. 

Mas mesmo no caso de pessoas que são detestáveis ou simplesmente fazem coisas horríveis?  

É um desafio. O Coringa é uma pessoa complexa. Mas há momentos em que se pode simpatizar com ele, ou pelo menos ter alguma empatia. Mas não se engane: ele é um vilão. Eu o interpretei como um vilão. O Coringa é a própria definição do narcisismo, que é a expectativa de que seus sentimentos devem ser validados pelos outros e que todos precisam prestar atenção porque ele é a pessoa mais importante do mundo. Agora, ele não é político. Só quer adoração. O narcisismo é muito perigoso. 

Hoje que você tem uma vida muito privilegiada consegue manter-se atento à dor dos outros? 

Não quero parecer estar me vangloriando, mas sempre fui muito sensível. Quando leio um jornal, não estou só absorvendo informação, mas vivenciando a vida de alguém e isso me afeta profundamente. Acho que é de mim, nasci assim.

Psicopata

Personagem fictício criado por Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane na DC Comics, o Coringa, ou The Joker, apareceu pela primeira na revista do Batman # 1, de abril de 1940. Rapidamente, tornou-se um dos vilões preferidos do público. No início, era um psicopata, verdadeiro gênio do crime, que utilizava sua habilidade em engenharia química para produzir misturas letais. Mau, muito mau, e aquele sorriso esculpido no rosto fez dele o pesadelo de muitas crianças. No fim da década de 1950, por pressão do Comics Code Authority – o código de censura dos quadrinhos –, converteu-se num bandido bobo e atrapalhado, e como tal foi retratado por Cesar Romero na TV e no cinema, e no Batman de Leslie H. Martinson, com Adam West como o herói mascarado.

Aquele era um Homem-Morcego inocente e o diretor incorporava o humor camp da TV e dos quadrinhos, com direito a balões com as expressões características do herói e seus vilões (além do Coringa, também o Charada, o Pinguim e a Mulher-Gato). Algo muito diferente se passou em 1989, quando Tim Burton fez seu Batman para adultos e que arrebentou na bilheteria. Michael Keaton vestia a armadura, mas o grande personagem era o vilão, Jack Nicholson como o Coringa, embora ambos, na verdade, fossem as duas faces da mesma moeda, dois malucos que perderam todo juízo, têm problemas com as mulheres, os pais e a cidade, e ameaçam destruir o mundo todo. A grande sacada de Burton, e nisso ele fez história, foi não estabelecer fronteiras muito nítidas. Um louco de máscara e capa, outro maquiado, ou será que se pode confiar, como herói, num sujeito que se pendura em telhados e anda com aquela fantasia, bancando o justiceiro, na calada da noite?

Batman surgiu otimista, virou dark durante a Guerra do Vietnã. Comparativamente, o Coringa de Heath Ledger, no filme de Christopher Nolan – O Cavaleiro das Trevas – que lhe valeu, postumamente, o Oscar de melhor ator coadjuvante, em 2008, é mais insano (de volta às origens?) e o de Jared Leto, em Esquadrão Suicida, de 2016, é mais palhaço sem deixar de ser neurótico. Justamente, o Coringa de Jared. Nove entre 10 críticos (11 entre 10?) amam falar mal dele, mas se Jared já não tivesse recebido o Oscar (por Clube de Compras Dallas, de 2014) sua interpretação talvez tivesse sido mais bem entendida, e apreciada. É magnífico. 

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'Coringa' joga fora o manual dos filmes de quadrinhos

Filme de Todd Phillips exibido no Festival de Veneza traz Joaquin Phoenix em estado de graça num estudo de personagem e história de origem do vilão da DC

Mariane Morisawa, Especial para O Estado de S. Paulo

31 de agosto de 2019 | 12h18

VENEZA – Coringa não é um filme de super-herói como os outros – e não apenas por tratar de um vilão da DC. O longa-metragem de Todd Phillips prescinde das cenas de ação espetaculares, das lutas sem fim, das explosões e dos prédios derrubados, com milhares de vítimas civis invisíveis. Para quem tinha alguma dúvida, faz todo o sentido o filme estar na competição do 76.º Festival de Veneza, onde foi exibido na manhã deste sábado, 31, tratando de temas relevantes como identidade, empatia, saúde mental e do abismo entre quem tem muito e quem não tem nada. Indicações ao Oscar também não devem faltar. 

A história evita a repetição das várias aparições cinematográficas recentes do personagem, de Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) a Jared Leto em Esquadrão Suicida (2016), contando a transformação gradual de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix, candidatíssimo à Coppa Volpi de melhor ator e ao Oscar na categoria) em Coringa. É um estudo de personagem e um drama realista na linha de clássicos dos anos 1970 e 1980 como Serpico, Taxi Driver e Rede de Intrigas, o que pode abrir uma nova via para os filmes baseados em quadrinhos da DC e da Marvel.

“Não entendo nada de competição com a Marvel”, disse Phillips na coletiva após a exibição. “Mas, quando concebemos a ideia, queríamos uma abordagem diferente. Não sei se vai ser uma inspiração para outros, até porque os filmes de quadrinhos parecem estar indo bem. Foi duro de convencer a DC e o estúdio a fazer. Mas agradeço à Warner por ter feito uma aposta tão ousada.”

Coringa, que estreia no Brasil em 3 de outubro, se passa, justamente, na Gotham, ou seja, Nova York, dos aos 1980, quando a cidade enfrentava problemas de violência, pobreza e lixo nas ruas, além de cortes nos programas sociais. Arthur divulga uma loja vestido de palhaço, quando um grupo de garotos lhe toma a placa e dá uma surra. Não vai ser a primeira vez que ele será visto no chão. Arthur sofre de problemas de saúde mental, entre eles uma condição que o faz rir descontroladamente – especialmente quando, na verdade, quer chorar. Mas é carinhoso com a mãe, Penny (Frances Conroy), que vive no passado esperando o reconhecimento de um poderoso na cidade. 

O maior sonho de Arthur é ser comediante de stand-up e fazer os outros rirem, de preferência participando do programa de Murray Franklin (Robert De Niro). “Minha mãe sempre me diz para sorrir e fazer uma cara feliz”, ele diz. A violência existe, mas é pontual e causa impacto quando acontece. “Meu desejo é que fosse tudo em fogo brando”, disse o diretor. "John Wick tem muito mais violência. Como tentamos fazer de maneira realista, quando ela ocorre, é um soco no estômago.” 

Phoenix afirmou ter evitado encaixar o personagem numa personalidade específica. “Não queria defini-lo. Muitas vezes explorei suas motivações e terminei recuando. Queria que ele tivesse mistérios.” Mesmo depois de assistir, Coringa é um personagem inclassificável. Mas, para o ator, cuja imagem pública é de um homem angustiado, a atração de Arthur era sua luz. “Sua luta para encontrar a felicidade, a conexão, o calor humano, o amor.” Para Phillips, este Coringa não quer ver o mundo arder. “Ele está procurando sua identidade e quer ser adulado, trazer alegria ao mundo. Vira líder por engano.” 

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Joaquin Phoenix Warner

‘Coringa’ é vivido em toda a sua maldade por Joaquin Phoenix

Recriado por vários atores, personagem clássico dos quadrinhos e do cinema volta às telonas em filme dirigido por Todd Phillips e com participação de Robert De Niro

Mariane Morisawa , Especial para O Estado de S. Paulo

Atualizado

Joaquin Phoenix Warner

VENEZA — A seleção de Coringa, de Todd Phillips, para a competição do 76.º Festival de Veneza era um indício de que não se tratava de um filme baseado no universo dos quadrinhos como tantos outros que vêm inundando as salas de cinema. E, de fato, o longa prescinde de grandes cenas de ação e efeitos especiais épicos para se inspirar mais nos dramas de Martin Scorsese dos anos 1970 e 1980. Mas foi com certa surpresa que o Leão de Ouro foi recebido. 

Com estreia prevista para 3 de outubro no Brasil, Coringa abriu a venda antecipada de ingressos na quinta, 19.

No Festival de Veneza, a presidente do júri, Lucrecia Martel, elogiou os riscos que a produção correu e a reflexão que faz dos anti-heróis como vítimas do sistema. Mas Coringa não seria o que é, um filme com capacidade de sacudir Hollywood na direção de mais ousadia, sem a interpretação de Joaquin Phoenix, que não se baseou em nenhuma das versões anteriores – de Cesar Romero, Jack Nicholson ou Heath Ledger e muito menos a de Jared Leto. 

“Sou pouco conectado à indústria do entretenimento”, disse o ator em entrevista exclusiva ao Estado, em Veneza. E jurou não ter ideia da quantidade de fãs que a história tinha. “Começaram a me perguntar da pressão dois dias antes do início das filmagens, e eu disse: ‘Não me digam isso agora!’”, contou. “Era tarde demais, mas no começo eu estava na ignorância completa. Ainda bem.” 

Phoenix ama uma reação forte aos filmes que faz. “Seja qual for”, contou. “A indiferença é que me incomoda.” Mas em relação à preparação de seus personagens, garantiu que não leva em conta a opinião de ninguém. “É uma exploração e uma experiência pessoais. Faço só para mim.” 

Mas quem é este Coringa? Arthur Fleck é um comediante frustrado que trabalha como homem-placa, vestido de palhaço. Mora com a mãe, que insistia que seu destino era ser feliz e fazer os outros rirem, e depende de remédios para seus problemas de saúde mental – ele tem uma condição que faz com que ria descontroladamente. Sendo pobre e esquisito, Arthur é invisível para a sociedade. Quando alguém o enxerga, é em geral para humilhá-lo. Só que, um dia, ele se vê com o poder nas mãos. 

Este Coringa não tem o jeito brincalhão de Romero, nem é transformado em vilão depois de cair num tanque de substâncias químicas como no caso de Nicholson. Não tem um desejo de ver o circo pegar fogo como o Coringa de Ledger, nem sabe-se lá o que Jared Leto estava fazendo. Arthur às vezes inspira pena. “Gosto que o filme peça ao espectador que pelo menos tenha empatia por alguém que é o vilão e que faz coisas horrendas. Às vezes, rotulamos uma pessoa como má, como se fôssemos incapazes dos mesmos atos.” 

Leia a seguir outros trechos da entrevista:

Você falou de divisão, e as sociedades mundiais parecem muito divididas. Acha que falta vontade de ouvir opiniões contrárias às nossas? 

Sim, claro. Não há muito debate saudável. Eu me lembro dos programas de notícia de antigamente. Hoje, eles são uma competição de quem grita mais alto. Há questões difíceis que precisamos discutir. Mas, se ficarmos gritando uns com os outros, não vai ter solução. Ficamos viciados nisso, dá mais audiência, mas isso está saindo caro. 

Mas mesmo no caso de pessoas que são detestáveis ou simplesmente fazem coisas horríveis?  

É um desafio. O Coringa é uma pessoa complexa. Mas há momentos em que se pode simpatizar com ele, ou pelo menos ter alguma empatia. Mas não se engane: ele é um vilão. Eu o interpretei como um vilão. O Coringa é a própria definição do narcisismo, que é a expectativa de que seus sentimentos devem ser validados pelos outros e que todos precisam prestar atenção porque ele é a pessoa mais importante do mundo. Agora, ele não é político. Só quer adoração. O narcisismo é muito perigoso. 

Como consegue manter-se atento às dores dos outros? 

Não quero parecer estar me vangloriando, mas sempre fui muito sensível. Quando leio um jornal, não estou só absorvendo informação, mas vivenciando a vida de alguém e isso me afeta profundamente. Acho que é de mim, nasci assim.

Veja aqui o trailer oficial do novo Coringa:

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Leão de Ouro para 'Coringa' pavimenta caminho para o Oscar

Brasil ganhou dois prêmios no Festival Veneza, para o documentário de Bárbara Paz e “A Linha”, vídeo em realidade virtual

Mariane Morisawa, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h44

No ano passado, Roma saiu de Veneza com o Leão de Ouro para uma campanha do Oscar que terminou com três estatuetas, inclusive direção. Em 2017, A Forma da Água levou o Leão de Ouro e depois quatro Oscar, inclusive filme e direção. Em 2019, a história deve se repetir, com a vitória de Coringa, de Todd Phillips, que não é o típico “filme de Oscar”, por ser uma produção que se passa no universo dos quadrinhos da DC, e por isso mesmo tem muito a ganhar com o troféu principal num dos principais festivais de cinema do mundo – que também não costumam premiar esse tipo de produção. “Me parece incrível que uma indústria cujo principal foco é o negócio tenha corrido tamanho risco com ‘Coringa’”, disse a presidente do júri Lucrecia Martel. “Fazer para esse público um filme que é uma reflexão sobre os anti-heróis, mostrando que talvez o inimigo não seja o homem, mas o sistema, me parece bom para os Estados Unidos e para o mundo todo. Além disso, havia cenas muito arrojadas e uma atuação espetacular”, completou Martel, referindo-se a Joaquin Phoenix.

O júri também comentou a concessão do Grande Prêmio do Júri, segundo troféu mais importante, para J’Accuse, de Roman Polanski. No início do festival, Martel tinha declarado que não separava o homem do artista e que ficava dividida por ter de avaliar o filme do cineasta polonês, condenado nos anos 1970 por sexo ilegal com menor e fugitivo da justiça americana. O diretor italiano Paolo Virzì declarou que podia garantir pessoalmente que as conversas tinham girado totalmente em torno da qualidade do filme. “Não houve debates sobre polêmicas”, disse. Lucrecia Matel também opinou. “Quando alguém fala do filme, não está deixando de falar do autor, que é um ser humano. A pior coisa que poderíamos fazer com um ser humano é separá-lo de sua obra, porque teríamos de castigar todos. O senhor Polanski representa um caso entre centenas, inclusive pessoas sentadas nesta sala. Não separar o homem da obra não é um benefício para o homem. Polanski mostrou em seu filme uma visão do mundo interessante para todos nós. Se você pensa que, ao não falarmos sobre o autor, somos mais justos com a obra, asseguro que está equivocado.” 

O Leão de Prata de direção foi para o sueco Roy Andersson, por About Endlessness, que reproduz cenas tocantes e patéticas do cotidiano e da história com um misto de drama e comédia, em cenários construídos individualmente. 

Os dois atores premiados com a Coppa Volpi – Ariane Ascaride por Gloria Mundi de Robert Guédiguian, e Luca Marinelli por Martin Eden, dirigido por Pietro Marcello – mencionaram os refugiados que morrem aos milhares no Mediterrâneo em seus discursos de agradecimento. 

Nascido em Taiwan e criado em Hong Kong, Yonfan levou o prêmio de roteiro por No. 7 Cherry Lane, uma animação adulta sobre uma mulher de meia idade que vive um romance com um homem mais jovem. “Demorei sete anos para fazer este filme, estou com 72. Para fazer um filme, preciso ter algo a dizer. Não sei se tenho algo a dizer agora. Mas falei muito sobre Hong Kong nesta semana, mesmo que muita gente tenha me dito para evitar. Eu senti que tinha de dizer, mesmo que não fossem coisas apropriadas”, disse o cineasta, que elogiou a liberdade que sempre teve em Hong Kong e pediu que ela continuasse. 

O italiano La Mafia Non è Più Quella di una Volta, de Franco Maresco, ganhou o prêmio especial do júri, enquanto o australiano Toby Wallace, de Babyteeth, dirigido por Shannon Murphy, ficou com o Marcello Mastroianni para melhor ator ou atriz jovem. 

 

Prêmios para o Brasil

Em relação a Berlim e a Cannes, a participação brasileira em Veneza foi mais modesta, mas não menos significativa. Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, estreia na direção da atriz Bárbara Paz sobre o cineasta Hector Babenco, levou o troféu de melhor documentário na seção Veneza Clássicos. “Hector costumava dizer que filmar é viver um dia mais. Foi o cinema que o manteve vivo. Hector, eu te amo para sempre”, disse Paz, muito emocionada. “Este prêmio é muito importante para meu país. Digamos não à censura. Vida longa à cultura brasileira!”, completou. 

A Linha, de Ricardo Laganaro, saiu com o prêmio de melhor experiência para conteúdo interativo em realidade virtual. “Sou o segundo brasileiro aqui hoje, não é demais?”, disse o diretor. “O nosso filme é sobre amor, memórias e o medo da mudança. A tecnologia faz com que tenhamos medo. Mas eu acho que a tecnologia pode ajudar, porque nós contamos histórias e ouvimos outros seres humanos.”   

 

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