Sony Pictures
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Sebastian Lelio filma amor entre mulheres e reafirma seu talento em 'Desobediência'

Longa chega às telonas nesta quinta-feira

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 06h00

Como seu compatriota Pablo Larrain, o chileno Sebastián Lelio vem levando uma carreira internacional no cinema de língua inglesa, ancorado no prestígio que lhe valeram dois filmes - Glória e Uma Mulher Fantástica. Pelo segundo, recebeu o Oscar de filme estrangeiro . Depois, dirigiu Desobediência, que estreia nesta quinta, 21, e tem, em fase de pós-produção, outro Glória. Será um remake? O Glória inglês tem Julianne Moore - no papel de Paulina Garcia? -, Caren Pistorius e Michael Cera.

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Desobediência é um bom título para definir o tipo de personagem que atrai o autor chileno. Sejam mulheres cis ou trans, suas personagens rebelam-se contra o mundo hostil. Glória, sentindo-se utilizada, inferniza a vida do amante e Daniela Vega, a mulher fantástica, luta para enterrar o companheiro. O mundo não costuma ser solidário com os rebeldes. É preciso resistir.

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As personagens de Lelio resistem. Rachel Weiz eRachel McAdams são suas novas guerrilheiras (desarmadas?). O filme começa com uma cena belíssima - um rabino numa sinagoga estabelece as diferenças de três categorias criadas por Deus. Os anjos, os animais e os humanos. Só os últimos têm a capacidade de pensar, e desobedecer. Rachel Weiz volta para casa, para o enterro do pai (o rabino). Reencontra sua antiga paixão, que a levou a ser rejeitada pela comunidade, agora casada com rabino jovem que poderá substituir seu pai. Forma-se o triângulo. As duas Rachel têm uma tórrida cena de sexo.

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Numa sessão especial do filme em São Paulo, muitos casais de idosos levantaram-se e abandonaram o cinema. É curioso, mas, em Uma Mulher Fantástica, também havia sexo, e pesado - as cenas de boate -, mas era outro público, mais tolerante. Em definitivo, Desobediência reafirma o grande talento de Lelio e entra para ser um dos mais belos filmes do ano. O desfecho é muito maduro, com um misto de renúncia e superação. E o ator que faz o rabino jovem, Alessandro Nivola, é muito bom. O filme começa e termina com discursos, ou pregações em sinagogas. O sexo é uma ferramenta para uma investigação mais profunda das dores humanas.

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É o que também ocorre em outros famosos filmes sobre lesbianismo - Carol, de Todd Haynes, com Cate Blanchett e Rooney; Ligadas pelo Desejo, com Jennifer Tilly e Gina Gershon, no qual talvez se encontrem as chaves para as cirurgias de mudança dos irmãos, agora irmãs Wachoski; e Pariah, de Dee Rees, sobre uma jovem negra de periferia que descobre que ser lésbica só vai fortalecer a discriminação que sofre.

ANÁLISE

Mulheres apaixonadas vistas por uma câmera sem preconceitos

Pablo Larrain, um talento autor de cinemas chileno, precedeu Sebastian Lelio no cinemas de língua inglesa. Com Jackie, interpretado por Natalie Portman, Larraín fez um filme muito inteligente e elegante para decifrar a personalidade da mulher do ex-presidente John Kennedy que enfrentou a burocracia da Casa Branca - do poder emgeral - para esculpir o mito do marido.

Uma mulher filme, rebelde. Sebastián Lelio filma agora duas mulheres rebeldes, as duas Rachel. A Weiz - sua personagem chama-se Ronit - volta para casa para enterrar o pai rabino que a rejeitou por sua homossexualidade. Sua relação com esse pai paradoxal, porque compassivo- como prova sua fala inicial na sinagoga -, domina todo o filme, mesmo que seu reencontro com a McAdams, Esti, reacenda a paixão. Esti está casada com o rabino jovem, Dovid, interpretado por Alessandro Nivola, que poderá substituir o pai de Ronit na congregação. As duas não resistem. Pegam-se na rua, e são vistas, o que gera protestos na comunidade. A desobediência prossegue e culmina numa ardente cena de sexo entre as mulheres.

Formado o triângulo, a questão é como ele se desfará? Ronit é uma estranha nesse mundo, voltará para casa, em Nova York? Esti irá com ela ou permanecerá com Alessandro Nivola? São questões importantes, relativas ao desenvolvimento da história - que termina muito forte, você vai ver -, mas o essencial do filme diz respeito a outra questão não menos importante. A representação do feminino LGBTQ+. Assim como deu representatividade à sua trans, em Uma Mulher Fantástica, Lelio tem a mesma sintonia com seu tempo ao abordar mulheres (Glória) ou mulheres lésbicas (Desobediência).

Lelio foi a escolha de Rachel Weiz para dirigir a adaptação do livro de Naomi Alderman. Consta que a Weiz se comprometeu tanto no processo que estava ao lado do diretor na sala de edição, especialmente na cena de sexo, para evitar que predominasse um olhar masculino,. de alguma forma discriminador. Não apenas a cena é intensa e belíssima, como possui um significado muito forte no desenvolvimento dramático da historia. É um film e muito bem escrito, dirigido e interpretado - por todo o elenco -, mas, embora a Weiz, como Ronoit, seja a protagonista, a McAdams, como Esti, leva a láurea.

Está magnífica, como nunca se viu, uma performance de Oscar. E o filme todo é sincero e autêntico, representando muito bem, sem nenhum preconceito, o desejo e as escolhas dessas mulheres. Sebastian Lelio acertou o tom de novo, reafoirmando-se como o grande diretor que é. Desobediência, com toda certeza, irá para os melhores do ano, um filmaço que fará história por sua representação do feminino.

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