REUTERS/Sarah Meyssonnier
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Sean Penn prefere fazer filmes para streaming que para o cinema

Ator revela descontentamento com Hollywood, mas estreia longa com a filha

Jake Coyle, AP

19 de agosto de 2021 | 15h00

Sean Penn está mais ou menos cansado de filmes. Ele continua fazendo, aqui e ali. Mas, na maior parte do tempo, está vendo compromissos que assumiu anos antes. E depois? Ele não tem tanta certeza de que voltará a atuar ou a dirigir.

Penn, rebelde ator e às vezes realizador, de 61 anos, está feliz em vários aspectos, fora de sintonia com os ventos que predominam em Hollywood. Streaming de filmes? Franquia de filmes? A chamada “cultura do cancelamento"? Todas estas coisas despertam, em graus variados, a sua ira. Ao mesmo tempo, Penn agora dedica mais o seu tempo às iniciativas de ajuda aos haitianos e a convencer as pessoas a se vacinarem do que a fazer filmes.

Tudo isto torna Flag Day, um novo filme que Penn dirigiu e coestrelou, uma raridade para um ator outrora voraz que, na década passada, coestrelou somente alguns filmes (O gênio e o Louco, Caça aos gângsteres). No drama de pai e filha, ainda sem previsão de estreia no Brasil, Penn é um pai notoriamente extravagante, mas frequentemente ausente e às vezes preso à filha Jennifer (a própria filha de Penn, Dylan Penn).

“Hoje, estou me sentindo um cara incrivelmente de sorte com este filme, que vai ter uma frente teatral", ele disse em uma entrevista no mês passado. “Eu, enquanto público, posso estar em algumas das coisas que estão somente em streaming. Mas como profissional, absolutamente não. Para atuar em alguma coisa, você precisa encará-la com calma. Mas como diretor, o que disse foi: 'Não é a garota pela qual me apaixonei'”.

E Penn cada vez mais fala como alguém para quem o romance dos filmes sumiu. Ele sente falta dos filmes de Hollywood que não são apenas “coloridos e barulhentos, os filmes Cirque du Soleil”, ele diz. Falando dos filmes da Marvel, lamenta: “Quanto espaço tomaram e quanto tempo exigiram nas carreiras de tanta gente talentosa”. Dizendo que hoje ele não teria a permissão de fazer o papel do ícone gay Harvey Milk (o “Milk” de 2008), Penn disse recentemente que daqui a pouco somente princesas dinamarquesas estarão interpretando Hamlet.

E a carreira de diretor de Penn considerada em geral profissionalmente boa (como Acerto Final, de 1995, e A Promessa, de 2001, ambos com Jack Nicholson; e Na Natureza Selvagem, de 2007) ultimamente tem sido mais desigual. O seu último filme, A última fronteira, de 2016, com Charlize Theron, fracassou e foi muito vaiado em sua estreia no Festival de Cinema de Cannes. No entanto, no mês passado, Penn voltou a Cannes para a estreia de Flag Day.

“Tive sensações muito contrastantes a respeito. É tipo: seja o que for”, diz Penn. “O negócio é o seguinte: Tenho confiança em que sei muito - mais - a respeito de interpretação do que praticamente a maioria destes críticos. E estou muito confiante na atuação, que é o que mais me interessa”.

Penn aponta para o lugar onde Dylan está sentada no bar de um hotel na Croisette, em Cannes. Dylan, 30, é a estrela de Flag Day. Ela trabalhou um pouco no cinema, mas este é facilmente o papel mais importante que ela já teve. No filme, adaptado do livro de memórias de Jennifer Vogel de 2005, Flim-Flam Man: The True Story of My Father’s Counterfeit Life, ela é uma aspirante a jornalista cujo pai raramente é confiável.

A confiança de Penn não está equivocada. Em Flag Day, Dylan é natural, equilibrada e cativante. Parece uma veterana, já, o que se poderia esperar da ilha de Penn e Robin Wright. E os críticos? Alguns foram bastante lisonjeiros. A revista Variety disse que o filme “revela que Dylan Penn será uma grande atriz”. No momento em que Penn se retira da cinematografia, a filha entra em cena - mesmo se ela não tenha buscado imediatamente os holofotes.

“Crescer cercada de atores, e estar no set era realmente algo que não me interessava absolutamente”, ela disse. “Sempre pensei, e continuo pensando que a minha paixão é estar atrás da câmera. Mas assim que expressei a vontade de fazer esse tipo de coisa, ambos os meus pais disseram separadamente: Você nunca será uma boa diretora se não souber o que é estar no lugar do ator”.

Ela admite que seu pai talvez esteja "passando de certo modo o bastão". Hopper Jack Penn, seu irmão mais novo, também co-estrela em Flag Day. (O restante do elenco inclui Josh Brolin e Reina King. As músicas originais cantadas por Cat Power, Eddie Vedder e Gen Hansard contribuem para a trilha sonora.) “Sempre pensei que, se ela quisesse fazer isto, eu a encorajaria”, diz Penn.

Para Dylan, a relação pai e filha em Flag Day - Jennifer tenta ajudar a estabilizar o pai trapaceiro, mas também herda alguns hábitos mais destrutivos e vigaristas dele - é um semi-reflexo do seu vínculo recíproco. “Ela sempre batalhou para ter esta relação realmente honesta, transparente com o pai que ela nunca recebeu em troca", Dylan diz: “Tentei fazer isto com meu pai e o recebi em troca”.

Penn rodou recentemente a série Watergate de Sam Esmail para a Starz, com Julia Roberts. Ele defende que a vacinação deveria ser obrigatória para todos os que estão no set. Durante a pandemia, a Community Organized Relief Effort (Iniciativa de Ajuda Organizada à Comunidade, em tradução livre), de Penn, que ele criou depois do terremoto de 2010 para ajudar os haitianos, montou locais para realizar testes e postos de vacinação, ajudando a aplicar milhões de doses.

Talvez estas experiências tenham tornado Penn mais avesso a tudo o que é artificial. “A minha tolerância pelo artificial é cada vez menor”, diz Penn. Mas trabalhar com Dylan veio naturalmente. Falando de sua presença atenta até encantadora, ele diz que ela é “extremamente positiva".

“Às vezes, fico até chocado, e penso: ‘Uh, Oh, ela está realmente ouvindo. Será que ela está compreendendo o tempo todo?” diz Penn.

Penn começou mais jovem - ele estrelava Fast Times at Ridgemont High, na época em que tinha 21 anos. Desde o começo se sentiu confiante em papéis que eram como ele - “jovem e muito tímido”, como ele descreve. Manter-me natural à medida que crescia, diz Penn, tem sido a minha jornada desde então”.

“Como você se sente natural, livre tanto em algo em que você vai para o papel quanto em alguma coisa em que você traz o papel para você? Em vários graus de sucesso e fracasso, é o que tem sido a estrada – encontrar aquele inquestionável original”, diz Penn. “É o que vejo em Dylan, igualmente inquestionável”. / Tradução de Anna Capovilla

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