Sean Connery produz "Encontrando Forrester"

Em Encontrando Forrester, o diretor faz um filme de tema semelhante ao anterior, Gênio Indomável, e se sai melhor, com Sean Connery e Rob Brown em belas atuaçõesGus Van Sant quis desafiar o óbvio: fez dois filmes de tema parecido e muita gente limitou-se a comparar os dois. Bem, Gênio Indomável é pior que Encontrando Forrester, embora o segundo certamente não terá o sucesso de público do primeiro. Ambos utilizam uma fórmula batida, a do jovem brilhante e talentoso, em luta contra um meio hostil, mas que tem a sorte de encontrar um tutor mais velho igualmente brilhante e talentoso, que o ajuda a superar os obstáculos eventuais. Se Gênio não abandona a fórmula, Forrester tem lá suas ousadias e muitas vezes até um jeitão de filme independente do esquema tradicional hollywoodiano, a partir da seqüência do rapper enquanto surgem os créditos. A fotografia é escura, nada dos chapados claros associados às produções Disney, o apartamento onde ocorre boa parte da ação é convenientemente bagunçado e seus cantos somem na sombra. A trilha sonora, com muito Miles Davis - tocando até música de Hermeto Paschoal -, também não faz concessões, até Over the Rainbow no final não é apresentado em versão standard.O gênio indomável de Encontrando Forrester é um jovem negro do Bronx chamado Jamal (Rob Brown), que esconde seu talento literário da família e dos amigos. Sua mochila transborda de caderninhos em que escreve, escreve, escreve. Certo dia, os amigos do basquete desafiam Jamal: ele deve entrar no apartamento de um velho excêntrico que os espiona na quadra.O "Janela", como o apelidam, é William Forrester (Sean Connery), um escritor famoso que ganhou o prêmio Pulitzer por seu primeiro e único romance na década de 50 e depois, à maneira de J.D. Salinger e Thomas Pynchon, tornou-se um recluso.Connery, o mestre - O relacionamento dos dois é o núcleo do filme. De cara, é confortável ver o personagem do tutor ser vivido por Sean Connery e não por Robin Williams. O escritor veterano reconhece o talento do jovem, edita alguns dos seus textos, incentiva-o. Ao mesmo tempo, Jamal é escolhido para ir estudar numa escola particular que também está de olho nas suas habilidades no basquete. Claro que a fórmula tem suas razões e obriga: cada um tem algo a ensinar para o outro. Quando um professor pedante (brilhante e maneiristicamente interpretado por F. Murray Abraham) acusa Jamal de plágio, tudo parece desmoronar, mas não há razões para recear pelo final feliz, mas com um travo amargo de rigor. Van Sant tem alguns momentos de brilho na direção, conseguindo com imagens apenas mostrar a solidão do jovem negro no metrô e na sala de aula. Os atores estão num dia de festa. O jovem Rob Brown, com seus olhos muito expressivos, tem uma atuação contida, mas brilhante. Connery, que também é produtor do filme e alma do projeto, refina o que fez em papéis semelhantes como os do pai de Indiana Jones (no segundo filme da série) e o sansei de Sol Nascente. Seu sotaque escocês é tão forte quanto o uísque que toma - e da mesma procedência. Dá dignidade ao personagem até andando de bicicleta. O tema geral de Encontrando Forrester é o do dom individual que, valorizado, derruba qualquer obstáculo. Aqui, temperado pelo amor à literatura e pelos toques indies da realização, o filme consegue evitar a pieguice e superar quase sempre a camisa-de-força do roteiro-fórmula e de algumas eventuais psicologices bobocas.

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