"Seabiscuit": lenda americana em filme e livro

É um dos momentos mais belos do cinema dos anos 1960. Em Os Rebeldes, um garoto vive movimentadas aventuras com dois adultos no sul dos EUA nas primeiras décadas do século 20. Viajam de carro, mas nesse momento magnífico ele cavalga no lombo de um corcel e é o homem maduro que revive sua sensação de garoto. É um pouco a época e o tipo de emoção que são revividos em Seabiscuit - Alma de Herói, o filme de Gary Ross que estréia na cidade. Nos EUA, Seabiscuit foi recebido a pedradas pelos críticos e não chegou a explodir, como fenômeno de público. Que importa? Talvez, mais do que ver o filme, você devesse ler o belíssimo livro de Laura Hillebrand em que o diretor Ross se baseou. No Brasil, foi editado pela Companhia das Letras, com outro título, Seabiscuit - Uma Lenda Americana. Laura é jornalista. Escreve sobre turfe. Baseou-se numa história real, que ela começa narrando desta maneira - no inverno de 1937, a América entrava no sétimo ano da mais catastrófica década da sua história. A economia entrara em colapso e milhões e milhões de pessoas haviam perdido o emprego e as economias. A nação que direcionava sua impetuosidade para crença de que o sucesso estava disponível para quem se dispusesse a lutar por ele, desiludiu-se em um período de terrível pobreza. Um povo extremamente determinado foi atingido pelo desespero, pela fatalidade e pelo temor. Foi nesse quadro que três homens se uniram para esculpir a lenda de Seabiscuit. No fim dos anos 1930, a figura mais conhecida nos EUA não era o presidente Franklin D. Roosevelt nem Adolf Hitler, que do outro lado do Atlântico, preparava-se para deflagrar a blitzkrieg, lançando o mundo na 2.ª Guerra Mundial. Essa figura não pertencia nem mesmo à espécie humana. Era um cavalo, Seabiscuit. E não um cavalo qualquer, mas um que tinha uma perna torta e caminhava mancando, como a própria nação que a economia tirara dos trilhos. Pois Seabiscuit tornou-se uma lenda correndo e ganhando mais prêmios do que qualquer cavalo já ganhara antes. Virou um fenômeno, graças à tenacidade de três homens. Um deles era o típico empreendedor, o americano como self made man. Chamava-se Charles Howard e é interpretado por Jeff Bridges, que traz para o personagem a mesma dimensão que imprimiu a Tucker, de Francis Ford Coppola. Outro era um perdedor - o treinador Tom Smith, que os índios chamavam de Espírito Solitário (e é interpretado por Chris Cooper) - e o terceiro, um jóquei ainda jovem e de pouca experiência, que ganha na tela a cara de Tobey Maguire. Da união improvável dessas três pessoas criaram-se as condições para que Seabiscuit virasse o mito das pistas em que se transformou. É emocionante. Dá saudade da voz do narrador de Os Rebeldes, lembrando o menino que foi. Veja Seabiscuit - Alma de Herói. Mas leia Seabiscuit - Uma Lenda Americana. A alma do herói, a lenda americana. A história de Seabiscuit é épica. A orelha do livro não mente, ao dizer que é um pouco a Ilíada, em versão americana.

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