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'Se Deus Vier que Venha Armado' revela, ao som do rap, grito latente que parte da periferia

Filme revela a convivência da violência com a ternura

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2015 | 03h00

Se Deus Vier que Venha Armado é um título tirado de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e que acabou virando frase de um rap. A história evoca mesmo um ambiente em que o diabo anda à solta e no qual, mesmo o Criador, se nele se aventurasse, deveria se precaver e cuidar da defesa pessoal. Em resumo: a trama armada pelo diretor Luis Dantas e sua corroteirista Beatriz Gonçalves se passa durante os confrontos entre o PCC e a Polícia Militar de São Paulo, em 2012. O bicho pegava e, aos atentados do crime organizado, a PM respondia a esmo e com truculência. Muitos inocentes morreram nessa guerra que deixou a cidade em pânico.

Os personagens que dão vida a essa história de violência e morte são, em primeiro lugar, o detento Damião (Vinicius de Oliveira, de Central do Brasil), que sai da prisão por um fim de semana para o Dia das Mães. No período de liberdade, ele se reencontra com um irmão evangélico, Josué (Clayton Mariano), um amigo de infância, Palito (Ariclenes Barroso) e conhece Cléo (Sara Antunes), candidata a atriz que também orienta uma espécie de oficina de dramaturgia para jovens de periferia.

A tática de Dantas, diretor estreante mas muito experiente em outras áreas, é alternar cenas desses jovens com as da polícia. E, na mesma viatura policial, temos outra dualidade – de um lado, o sargento truculento vivido por Giuliano Lopes, e, de outro, o novato Jeferson (Leonardo Santiago), que cumpre suas primeiras missões e sente repulsa pela maneira vingativa como uma delas, em particular, é conduzida pelo superior.

Há que se dizer, também, que Damião saiu da cadeia com a missão de entregar uma determinada encomenda do PCC a capangas do litoral. E que, entre ele, Palito e Cléo, desenvolve-se um problemático triângulo amoroso. Armada a narrativa, Dantas a desenvolve em estilo seco, e bastante naturalista na maneira como os personagens se relacionam e falam. Há uma trilha sonora que, plácida, às vezes parece se chocar com o que está em cena. Mas, em outras sequências, é o rap que domina e então temos uma música que fala exatamente daquilo que o filme conta, esse grito latente (e às vezes manifesto) que parte da periferia do sistema em direção ao seu centro.

A narrativa anda em geral em linha reta, mas às vezes retroage, em especial a uma cena imaginária, do passado longínquo de Damião. Algo que se relaciona com a mãe perdida (não deixa de ser irônico que ele saia numa condicional para o Dia das Mães). No entanto, embora retilínea, a linha narrativa reserva espaços vazios que devem ser preenchidos pelo espectador. Não entrega tudo de bandeja. E o bruto realismo é quebrado, volta e meia, por um tom poético bastante contundente.

 

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