Scorsese volta ao universo do crime com <i>Os Infiltrados</i>

Anda sendo dito por aí que, depois das experiências com filmes "históricos" com Gangues de Nova York e O Aviador, Scorsese teve o bom senso de voltar à sua área de ação preferencial, os conflitos interiores da criminalidade, de filmes como Os Bons Companheiros e Cassino. É possível. Mas é possível também, aliás muito provável, que o "tema" de Scorsese tenha continuado o mesmo ao longo de projetos tão diferentes - uma análise da violência primordial que está inscrita no coração da América. Em Os Infiltrados, Scorsese trabalha com uma história dupla: Collin Sullivan (Matt Damon) é um informante do chefão da Máfia de Boston, Costello (Jack Nicholson), infiltrado na polícia. De outro lado, Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) vê-se em situação inversa. Forja-se um crime que justificaria a sua expulsão da polícia e, logo em seguida, ele se vê integrado à gangue. Na verdade, é um informante da polícia, plantado junto a Costello. Os Infiltrados é, portanto, uma história de lealdades e traições. De agentes duplos que têm de fingir ser o contrário do que são. Mas que, fingindo, descobrem que os dois extremos curiosamente se tocam, e em mais de um ponto. A estratégia de Scorsese não é dizer que não existem fronteiras entre a lei e o crime, posição tão niilista quanto simplificadora. Mas é discutir onde estão os limites entre um domínio e outro e por que motivo eles parecem se interpenetrar mais de uma vez. Por outro lado, existe um substrato que costuma borrar e confundir essas fronteiras móveis - a violência que aparece na base de formação da sociedade americana, talvez mais do que em outras. Esse tema, que aparecia com tanta clareza em Gangues de Nova York (e talvez uma das fraquezas deste filme estaria em explicitá-lo tanto), é lido aqui nas ações cotidianas dos seus personagens. A certa altura, alguém diz: "Neste país parece que todos se odeiam" e com esta frase define-se o espírito da coisa. Scorsese não precisa fazer sociologia, ou mesmo buscar explicações muito profundas para entender que, quando se elege a competição como motor principal da vida em sociedade, a violência surge como decorrência natural. Aceitando-se um termo da equação será preciso aceitar outro. Isso sabemos. O grande cinema, como o de Scorsese, tem o dom de dramatizar a constatação óbvia. Torná-la narrativamente convincente e emocionalmente impactante. "

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