Scorsese lança "Viaggio in Italia" nos EUA

Acaba de chegar aos Estados Unidos o novo trabalho de Martin Scorsese, o documentário Il Mio Viaggio in Italia, em que o diretor de Cassino e A Última Tentação de Cristo promove uma aula sobre o cinemaitaliano. A produção de US$ 2 milhões havia sido apresentada no Festival Internacional de Cinema de Cannes, em maio, e faz parte da programação do New York Film Festival, devendo entrar emcartaz no país em breve. Ao fazer uma radiografia de 30 dos filmes que mais influenciaram sua carreira, o cineasta também restaurou uma séria de cópias raras das fitas para os arquivosda Universidade da Califórnia em Los Angeles.Nascido em Long Island em 1942, Scorsese foi criado na vizinhança de Little Italy, no Sul de Manhattan, onde famílias que vinham da mesma cidade italiana faziam questão de instalarem-se nos mesmos edifícios. Il Mio Viaggio in Italia conta detalhes sobre a vida do diretor na região das ruas Elizabeth, Mulberry eMott - e a influência do cinema italiano na vida dos imigrantes fugidos da guerra. Para os fãs de Scorsese, imagens caseiras da família na década de 50 são um presente, enquanto para os fanáticos por cinema, o documentário oferece a chance de umolhar detalhado sobre diversas obras-primas produzidas entre 1914 e 1963.Como um dos maiores especialistas em cinema e com a experiência de ter dirigido o documentário A Personal Journey With Martin Scorsese Through American Movies, de 1995, o cineasta é umprofessor e tanto. Ele não só conta a história da carreira de nomes como Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni e Federico Fellini, como destaca as inovações estéticas e de narrativa defilmes como Ladrões de Bicicleta, A Doce Vida, Fabiola e Noites de Cabíria. O projeto foi feito entre os trabalhos do diretor nos filmes Kundun, Vivendo no Limite e Gangues de Nova York, graças à contribuição de Giorgio Armani, que diz ser um dos maiores fãs do neo-realismo italiano. Scorsese não queria apenas realizar um projeto em vídeo, para a televisão, para "oferecerao público a chance de ver trechos dos trabalhos em uma sala de cinema". O filme ressalta o fato - pouco surpreendente - de que a paixão de Scorsese pelo cinema começou cedo. "Meu pai comprou uma televisão em 1948, depois de economizar um pouco, e lembro-me dever filmes de Roberto Rossellinni e Vittorio De Sica na sexta-feira à noite em um dos canais locais de Nova York", disse o cineasta na entrevista coletiva realizada após a exibição do filme para a imprensa no New York Film Festival. A forma como os pais de Scorsese, que nasceram nos Estados Unidos, reagiam às produções italianas marcou o diretor para sempre. "Meus pais adoravam cinema americano, mas as emoções eos valores dos filmes italianos lidavam com a verdade humana", diz ele.O processo de escolha das produções que acabaram na versão final (com quatro horas de duração) foi influenciado pelas primeiras memórias que Scorsese tinha de cada filme. "Mas desde 1989,quando comecei a viajar muito pelo mundo por conta da preservação de filmes, o documentário acabou tomando forma, por conta dos meus sentimentos a respeito desses filmes emdiferentes fases da minha vida", diz ele. "O documentário é um resultado do meu gosto, por exemplo, La Strada é provavelmentemelhor do que Il Vitelone, mas eu gosto mais do último."A importância de Il Mio Viaggio in Italia também está na forma como o documentário foi realizado. De acordo com a produtora Barbara DeFina, parceira de Scorsese há vários anos,boa parte do orçamento foi gasto na adaptação dos rolos de filmes - encontrados em diferentes formatos e bitolas - e na restauração das cópias. "Outro problema foi a legalização douso de cada produção, já que os filmes italianos pertecem a diversas pequenas empresas", diz ela. O esforço deve compensar: na semana passada, a Miramax comprou os direitos de exibiçãopara os cinemas americanos. Scorsese diz que tem planos de fazer um outro filme sobre o trabalho de diretores italianos. "Adoraria rever o trabalho dePasolini, Otaviani, Bertolucci, Rossi. Há muitos documentários italianos bons sobre o cinema de lá, mas se eu der minha visão pessoal, você pode concordar ou não, mas pelo menos é uma visãoque vem de um ângulo específico." Em dezembro, o público americano ganha outra visão de Scorsese sobre a vida dos ítalo-americanos, com o filme Gangues de NovaYork. O filme estrelado por Leonardo DiCaprio e Cameron Diaz é ambientado na Nova York da virada do século, mas foi todo rodado nos estúdios Cinecittá, de Federico Fellini.

Agencia Estado,

10 de outubro de 2001 | 12h58

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