Satã foi o primeiro travesti malandro

Quem se atrevia a sair pelas ruas da Lapa carioca, nos anos 30, era logo alertado: "Cuidado que o Madame Satã pode te pegar". O aviso era um exagero. Satã nunca engoliu criancinhas e sua ficha policial não o classificava como serial killer. O que assombrou uma geração de boêmios, no entanto, foi sua capacidade única de praticar transgressões de comportamentos dos mais paradoxais. Satã foi o primeiro travesti malandro de que se tem notícia. Vestiu-se de mulher pela primeira vez, em 1938, para desfilar no bloco carnavalesco Caçador de Veados, de onde surgiu seu apelido. Só não admitia ser chamado de bicha. "Ele voava em cima até de delegados quando isso acontecia", lembra o amigo Sérgio Jaguaribe, o Jaguar. Na Lapa, Satã conviveu com Noel Rosa, Ismael Silva e Heitor dos Prazeres. Na colônia penal de Ilha Grande, assistiu à cena em que o assassino Feliciano enterrou uma faca no coração de Gregório Fortunato, o lendário guarda-costas de Getúlio Vargas. "Gregório morreu em meus braços", contava Satã. Mais tarde, depois de sair de Ilha Grande, tornou-se amigo de Norma Benguell e de Jaguar, que o encontrou agonizando em um hospital de Angra dos Reis. "Quando cheguei ele estava com 47 quilos, metade de seu peso normal. Naquele tempo, em 76, não se falava ainda disso, mas tenho certeza de que ele morreu foi de Aids", diz o chargista sobre a versão oficial, de que o amigo teria morrido de câncer no pulmão. Malandragem no sangue Satã seria mais um assassino desconhecido a morrer como indigente se não tivesse nascido com a malandragem no sangue. Cada encrenca em que se metia ganhava versões saborosas, dignas de virar lendas. A morte do compositor Geraldo Pereira tornou-se uma delas. Apesar de haver ao menos outras três versões que contradizem a contada por Satã, o malandro morreu afirmando que matara o desafeto com apenas um soco. "Ele entrou no bar e pegou meu copo de chope. Eu disse: `esse copo aí e meu´. Peguei o copo e levei para a minha mesa. Ele levantou chamando pra briga. Aí eu perdi a paciência, dei um soco nele, ele caiu com a cabeça no meio fio e morreu." Em 74, a lenda chegou ao cinema na pele de Milton Gonçalves, que interpretou em A Rainha Diaba (de Antonio Carlos Fontoura) o personagem criado por Plínio Marcos, baseado nas histórias relatadas por Satã. Filho de uma família pernambucana de 17 irmãos, Satã falava pouco de sua infância. Sabe-se que em seus primeiros anos de vida foi trocado por uma égua. Quem o conheceu jura que ele não tinha ressentimentos com o passado. "Ele ia até minha alfaiataria e ficávamos conversando. Eu sabia que ele era um brigão, mas só falávamos de mulheres, que é e sempre foi meu assunto preferido", lembra o sambista Walter Alfaiate. Para Jaguar, ficou a imagem do Robin Hood. "Ele foi o meu herói."

Agencia Estado,

03 de fevereiro de 2001 | 14h09

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