'São Silvestre' é uma ópera do asfalto feita de beleza e júbilo

Corrida e cidade unem-se em imagem poética que encontra a sensibilidade do espectador

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2013 | 03h00

O novo filme de Lina Chamie já é campeão. Como diziam os antigos locutores de futebol, entra no apagar das luzes de 2013 na condição de um dos melhores lançamentos do ano. Qual o segredo? Filmar a mais popular prova pedestre do Brasil à maneira de um épico. Numa época em que se fala muito em cinema sensorial, São Silvestre pratica essa modalidade de maneira simples. Sem muito alarde.

 

 

O filme (documentário? ficção?) tem um personagem. Um corredor “interpretado” por Fernando Alves Pinto, que de fato participou da prova. Acompanhamos esse personagem ao longo do percurso, em suas várias etapas. Mas dificilmente se poderia dizer que tudo é centrado nele. Não. Ele é um ponto de amarração, digamos assim. Os personagens principais são a corrida e a cidade na qual ela acontece, uma São Paulo, na ocasião, chuvosa. Como se sabe, a São Silvestre era tradicionalmente disputada à noite. A partida da prova era calculada de modo que por volta da meia-noite o vencedor estivesse cruzando a linha de chegada. Assim, o fim da São Silvestre coincidia com o início do novo ano. Era emocionante. Toda essa simbologia do fim da prova/início do ano novo se perdeu com a imposição da tevê para que a São Silvestre acontecesse durante o dia e assim não interferisse na grade de programação da emissora dominante. A magia perdeu-se. Mas o que é a magia diante da conveniência empresarial?

Ora, um dos grandes méritos (não o único) do filme de Lina Chamie é resgatar esse antigo brilho da São Silvestre, mesmo quando disputada durante o dia. A prova, tal como ela a vê e nos mostra, é uma construção operística em dois níveis sensoriais – a visão e o som. A respiração ofegante dos corredores, ou de um corredor em particular, é como um mantra a nos seguir. O comentário musical propriamente dito é brilhante e parte de peças da música clássica. Lina põe de forma magistral a trilha sonora a seu serviço (nesse ponto convém lembrar que a música e não o cinema foi a primeira vocação da diretora). Não é música redundante, a reforçar o que a imagem já diz. Pelo contrário: imagem e música se fundem na busca de um efeito poético que transforma a São Silvestre numa ópera do asfalto.

Porque a todo instante entra em cena esse outro personagem – a cidade de São Paulo, cujos encantos, digamos assim, não são evidentes, como bem sabemos. Não há praias e nem belezas naturais. A arquitetura é brutal. E, no entanto, uma estranha beleza se insinua e brota, mesmo de uma monstruosidade urbana do porte do Minhocão, que ainda por cima, além de feio, leva o nome oficial de um ditador. Há outras passagens das quais fica mais fácil extrair poesia. Por exemplo, quando se passa diante do Pacaembu, um dos estádios mais charmosos do mundo. Nesse momento, ouve-se a locução de uma partida de futebol, na qual é narrado um gol do Santos. Nenhum mistério: a paulistana Lina Chamie é santista de coração e diretora de 100 Anos de Futebol Arte, o filme oficial do clube da Baixada nas comemorações do seu centenário.

Esse comentário cruzado da corrida com a cidade, numa construção cuja argamassa é feita de sons e de música, é o exemplo mais bem acabado do cinema sensorial contemporâneo. O filme não existe como um discurso “sobre” a corrida ou “sobre” a cidade. Eles se integram numa imagem poética que vai ao encontro direto da sensibilidade do espectador. Tudo o que se disser de São Silvestre será a posteriori. No momento em que o vemos, a nossa única impressão é a de uma estranha e prolongada sensação de beleza. E de júbilo.

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