São Paulo terá ciclo de Claude Chabrol

São apenas seis filmes, pouco mais de 10% de uma filmografia que inclui mais de 50 títulos. Mas, se eles não são os melhores, são representativos do estilo e das preocupações de Claude Chabrol. A mostra que começa hoje no Cine Recriarte Bijou inclui o primeiro longa do autor, Le Beau Serge, que no Brasil se chamou Nas Garras do Vício, mas a concentração está em obras mais recentes, como Tira-Gosto>, Madame Bovary, Mulheres Diabólicas, Ciúme - O Inferno do Amor Possessivo e Negócios à Parte. Neles se percebe o ódio de Chabrol à burguesia e a atração pela... comida. Sim, a comida, pois Chabrol, no fundo, é glutão como Alfred Hitchcock, um de seus ídolos, mesmo que seus numerosos policiais talvez sejam mais simenonianos do que hitchckianos. Nosso homem é devoto de são Georges Simenon, a quem adaptou diversas vezes. Seguindo a ordem cronológica, é bom começar falando por Nas Garras do Vício, que exibe uma curiosa simetria com Os Primos, o segunda longa do diretor. Um é o reverso do outro e ambos colocaram sangue novo no cinema francês do fim dos anos 50. Críticos e historiadores preferem dizer "um novo tom". Chabrol, vale lembrar, foi um dos líderes - com Jean-Luc Godard e François Truffaut - do movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960, a chamada nouvelle vague. A nova onda expandiu-se de Paris e, ganhando o mundo, ajudou a mudar a cara do cinema naquela década. No Brasil, a nouvelle vague mais o neo-realismo produziram o Cinema Novo, que foi além, brandindo uma bandeira revolucionária que os jovens franceses, mais preocupados com o próprio umbigo, não consideravam prioritária - a menos que fosse uma revolução de linguagem. Só depois Godard partiu para o radicalismo político (e chegou a abandonar temporariamente o cinema para fazer filmes militantes). Houve antes Roger Vadim (...E Deus Criou a Mulher, que lançou o mito BB, Brigitte Bardot) e Louis Malle (Ascensor para o Cadafalso), mas o marco zero da nouvelle vague é Nas Garras do Vício. Um jovem da cidade vai para o campo e reencontra um amigo, o belo Sérgio do título original, transformado em bêbado contumaz. Em Os Primos, é o rapaz do interior que vai para a cidade grande e encontra o primo corrompido. Em ambos, a descrição do meio social é acurada e evita-se todo maniqueísmo. Nas Garras do Vício ganhou o Prêmio Jean Vigo, o mais importante da França para novos diretores. E lançou ou ajudou a estabelecer atores que fariam parte da história da nouvelle vague: Jean-Claude Brialy, Bernardette Laffont e Gérad Blain. Este último virou diretor, quase desconhecido fora da França, mas respeitado em seu país (Cahiers du Cinéma dedicou-lhe um emocionado necrológio). Talvez o filme mais decepcionante do ciclo (e da maturidade criadora de Chabrol) seja Madame Bovary, onde ele é respeitoso demais com o texto de Gustave Flaubert. A Bovarinha de Manoel de Oliveira (Vale Abraão) é muito melhor e isso apesar da beleza visual e da qualidade da interpretação, com a chabroliana Isabelle Huppert instalada no papel-título. Apesar do excesso de respeito, é fácil compreender o que atraiu Chabrol no projeto. Foi, com certeza, o retrato da burguesia provinciana, que faz com que os maridos traídos, nos filmes de Chabrol, sejam na maioria das vezes verdadeiros monstros. Por falar em monstros, o François Cluzet de Ciúme - O Inferno do Amor Possessivo vira um. No filme ele é casado com Emmanuelle Béart, uma deusa. Não precisa nem de um Iago que lhe sopre ao ouvido para desenvolver um ciúme patológico que o leva a suspeitar da fidelidade da mulher (como Otelo suspeita de Desdêmona em Shakespeare). Com seu ciúme doentio, Cluzet atira Emmanuelle nos braços de outros homens. Chabrol filma como se quisesse entrar na cabeça de Cluzet, investigando a insegurança que estimula suas alucinações. Em Mulheres Diabólicas, os monstros parecem ser dois, as domésticas Isabelle Huppert e Sandrine Bonnaire, que promovem um banho de sangue na casa em que trabalham. Mas afinal, os monstros são elas, a manipuladora e a analfabeta ressentida, ou a própria família burguesa, filmada em todos os seus vícios? Sobram Tira-Gosto e Negócios à Parte. O primeiro, com Jean Poiret como o inspetor Lavardin, tem o sugestivo título original de Poulet au Vinaigre. Um jantar de aniversário numa cidadezinha leva a um crime. Os suspeitos são esteios da comunidade. Negócios à Parte, de novo com Isabelle Huppert e agora com Michel Serrault, coloca um casal de pequenos ladrões, uma mulher e um velho que vivem como pai e filha, às voltas com desvio de dinheiro numa rede internacional de bancos. Não é 10, mas ostenta a fina ironia do diretor. O próprio Chabrol já disse que, mesmo nos projetos de encomenda, seus filmes mais comerciais, filmou não importa o quê, mas sempre do seu jeito. É um diretor ferozmente crítico e esse é o elemento que dá unidade à sua obra variada.Festival Claude Chabrol. Hoje, às 15 horas, e quarta, às 18 horas, Madame Bovary; hoje, às 17h30, e terça, às 18 horas, Mulheres Diabólicas; domingo, às 14 horas, e quinta, às 18 horas, Nas Garras do Vício; domingo e quinta, às 16 horas, quarta, às 20h30, Negócios à Parte; terça, às 16 horas, e quinta, às 20 horas, Tira-Gosto; terça, às 20 horas, e quarta, às 16 horas, Ciúme - O Inferno do Amor Possessivo. R$ 6,00. Cine Zip.Net Recriarte Bijou. Praça Roosevelt, 172, tel. 257-2264. Até 5/7.

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