"Santitos" chega à TV paga e ao VT

Na TV paga e nos cinemas, a produção mexicana fornece as descobertas mais interessantes da semana. Na sexta-feira, estréia Amores Brutos, de Alejandro González-Iñarritu, vencedor dos prêmios da crítica em Cannes, no ano passado, e na Mostra Internacional de Cinema São Paulo, também no ano passado, além de ter sido indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Será preciso voltar longamente a esse filme rico, complexo - e polêmico, tanto por suas inovações de linguagem quanto pela perturbadora visão da violência urbana. E há Santitos, de outro Alejandro, o Springall, com roteiro de María Amparo Escandón. Passa às 20 horas desta quarta-feira, no Cinemax da HBO Brasil e também está chegando às locadoras, em vídeo da Europa.Foi o vencedor do prêmio de melhor filme latino-americano no Festival de Sundance, em 1999. Dois filmes brasileiros receberam o mesmo troféu - um antes, O Sertão das Memórias, de José Araújo, e outro depois, Amores Possíveis de Sandra Werneck. Esses dois filmes dos dois Alejandros apontam para uma nova idade de ouro da cinematografia mexicana. É exagero, claro, mas o cinema latino é tão raro nas telas e nas televisões do País, sempre ocupadas pela produção de Hollywood, que vale destacar o que de novo (ou bom) vem da terra de Zapata.Santitos não revela só um diretor talentoso, Springall. Também celebra uma atriz maravilhosa, Dolores Heredia. Ela faz a protagonista, Esperanza. Você vai ver que ela não leva esse nome por acaso. No começo, Esperanza é uma mulher desesperada porque sua filha, seu tesouro, morreu. Ela recebe uma mensagem do santo das causas perdidas. São Judas Tadeu lhe aparece (no forno do fogão!) dizendo que a menina está viva e Esperanza deverá fazer tudo para encontrá-la. Convencida de que a menina foi seqüestrada para ser prostituída, Esperanza começa uma jornada iniciática que a leva a prostituir-se e a desenvolver sua sexualidade, tudo sob o signo de uma forte religiosidade.É o que faz o fascínio, o colorido de Santitos, essa mistura de sexo e religião que Springall e sua roteirista, María Amparo, usam para mergulhar no imaginário do povo mexicano. María Amparo desvincula Santitos do realismo mágico. Prefere falar numa realidade mágica. É assim que, depois do desespero mais intenso, Esperanza, fazendo jus ao nome, descobre o amor com um lutador e, sem abandonar a filha, parte para reconstruir sua vida. Boa parte das reflexões desse filme simpático e encantador se passam um tanto à margem da trama principal. São observações sobre o caráter, a religiosidade, a sensualidade do povo mexicano. Um dos melhores momentos é quando Esperanza telefona, do bordel, para o seu padre confessor. Esse sentimento do sagrado no profano chega ao paroxismo barroco e isso é o México.Foi em 1898, três anos após a primeira sessão realizada em Paris, que o cinema chegou ao México. Nestes 103 anos, o cinema mexicano apresenta a descontinuidade própria das cinematografias periféricas. A proximidade dos EUA não ajudou muito, pelo contrário. Durante a 2.ª Guerra, Hollywood investiu na produção mexicana de mais baixa qualidade. O cinema nacional impôs-se no próprio mercado, mas, finda a guerra, com a plena retomada de sua produção, Hollywood reivindicou para si esse mercado.Dois visitantes marcam a história do cinema mexicano. Sergei M. Eisenstein, nos anos 30, e Luis Buñuel, nos 40 e 50. Eisenstein quis fazer "Que Viva Méjico!; desenvolveu uma concepção da imagem, associada ao tema da morte, que prosseguiu na fotografia de Gabriel Figueroa e nos filmes de Emilio El Indio Fernández. Buñuel trabalhou no registro do melodrama, servindo-se do gênero para seus objetivos autorais. É impossível pensar no cinema mexicano sem evocar essas figuras emblemáticas e também Cantinflas, Maria Félix, Dolores del Rio, Arturo de Córdova e outros mitos que, pelas vias do humor ou do cinema de lágrimas, mantiveram vivo o cinema mexicano que hoje (re)vive com Arturo Ripstein e os dois Alejandros.

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