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'Sangue Azul' recebe prêmio do júri no Festival do Rio

'Obra' foi eleito por federação, enquanto 'Casa Grande' aclamado por espectadores; crítica e público escolhem melhor do que os jurados

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de outubro de 2014 | 23h41





Atualizado às 19h15 do dia 9/10

RIO - Ainda bem que existe o público. Se não fosse por ele, a melhor ficção do Festival do Rio teria passado batida, ignorada pelo júri oficial e até pela crítica. Além do Redentor de melhor filme para o público, Casa Grande, de Fellipe Barbosa, não ganhou sequer um trofeuzinho de consolação, nem mesmo o de melhor atriz para a extraordinária Clarissa Pinheiro. O júri poderia ter avaliado que o papel dela como doméstica não era de protagonista, mas Clarissa não levou nem o Redentor de coadjuvante. O júri oficial deu seus prêmios de melhor filme e direção para Sangue Azul, de Lírio Ferreira. A crítica - o prêmio Fipresci, da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica - foi para Obra, de Gregorio Graziosi. Belo (e formalista), Obra também ganhou o mais indiscutível dos prêmios da noite - o de melhor fotografia para o deslumbrante preto e branco de André Brandão, que coloca na tela uma São Paulo como nunca se viu antes.

Se suas escolhas de ficção permitem réplica e tréplica, o júri oficial - presidido pelo cineasta Karin Ainouz - acertou no documentário, atribuindo dois Redentor(es), melhor filme e direção, para À Queima-Roupa. O filme de Theresa Jessouroun discute segurança pública, investigando corrupção e violência na polícia do Rio, nos últimos 20 anos. É forte, e isso você poderá constatar já na próxima quinta, quando o filme estrear em São Paulo e Rio. O Redentor de melhor documentário para o público foi para Favela Gay, de Rodrigo Felha, que abre uma janela para abordar a homossexualidade nas comunidades. Filme de personagens - o diretor prefere dizer ‘pessoas’ -, Favela Gay mostra como é a vida da comunidade GLBT nas favelas do Rio. Um dos entrevistados chega a dizer que - nem estereotipado - um gay é igual a outro, mas a grande diferença talvez esteja no entorno social.

Toda escolha é sempre subjetiva, assim como toda crítica encerra uma autocrítica, já dizia Oscar Wilde. Os primeiros prêmios da noite já sinalizaram que alguma trapalhada estava a caminho. O prêmio de montagem foi para A Vida Privada dos Hipopótamos, de Maira Bühler e Matias Mariani, sob a justificativa (do júri) de que as novas tecnologias e plataformas estão abrindo hoje um campo ilimitado de expressão. O filme conta a história de um estrangeiro preso no Brasil. Técnico americano de informática, ele se mudou para a Colômbia ao ler um artigo sobre os hipopótamos da coleção particular de Pablo Escobar (o traficante). Sua atração por uma mulher misteriosa foi que o levou à cadeia. O filme mistura imagens de arquivo do computador de Kirk (é seu nome) com vídeos do YouTube e diálogos de Messenger. Dispersa-se e, por interessante que seja, não consegue sustentar sua narrativa, mas o júri não parece ter levado isso em consideração.

O Redentor de roteiro, por O Fim e os Meios, surpreendeu o próprio Murilo Salles, que não o esperava. “É meu primeiro prêmio de roteiro”, disse o diretor, que admitiu sua dificuldade com as palavras. A verdade é que o roteiro não é o forte de seu filme. Deve ter uns dez consultores, e eles não ajudaram muito. O melhor de Murilo, como sempre, é sua direção de cena forte. O Redentor de melhor atriz foi para Bianca Joy Porte, de Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade, de Daniel Aragão, e o de melhor coadjuvante feminina para Fernanda Rocha, de O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho. O júri acertou mais nas categorias masculinas. O garoto de Ausência, de Chico Teixeira - Matheus Fagundes -, foi o melhor ator e Rômulo Braga, de Sangue Azul, o melhor coadjuvante. Um Redentor de carreira foi atribuído ao veterano Othon Bastos, e ele prestou duas homenagens - ao ‘malandro’ Hugo Carvana, lembrado pela organização do festival, e aos 50 anos de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, que também passaram batidos.

Foi um grande festival, com centenas de filmes e muitas sessões lotadas. A passagem das galas do Odeon, na Cinelândia, para o Lagoon, na Lagoa Rodrigo de Freitas, foi bem aceita, apesar dos percalços decorrentes do caótico trânsito do Rio, uma cidade que parece canteiro de obras (para a Olimpíada de 2016). Lírio Ferreira fez um discurso de agradecimento emocionante, no tom de seu filme, que trata do amor. Sangue Azul tem virtudes (poéticas) e grandes cenas, mas é desequilibrado e certamente não era a melhor ficção em concurso. O prêmio especial para Chico Teixeira (Ausência) foi impecável.

VENCEDORES

Melhor filme - 'Sangue Azul', de Lírio Ferreira

Melhor diretor de ficção - Lírio Ferreira

Melhor documentário - 'À Queima-Roupa', de Theresa Jessouroun

Melhor diretora de documentário - Theresa Jessouroun

Prêmio especial do júri - 'Ausência', de Chico Teixeira

Melhor ator - Matheus Fagundes ('Ausência')

Melhor atriz - Bianca Joy Porte ('Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade', de Daniel Aragão)

Melhor ator coadjuvante - Rômulo Braga ('Sangue Azul')

Melhor atriz coadjuvante - Fernanda Rocha ('O Último Cine Drive-In', de Iberê Carvalho)

Melhor roteiro - 'O Fim e os Meios', de Murilo Salles

Melhor fotografia - André Brandão ('Obra')

Melhor filme do público - 'Casa Grande', de Fellipe Barbosa

Melhor filme da crítica - 'Obra', de Gregorio Graziosi

Prêmio pelo conjunto da obra - Othon Bastos (ator)

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