"Samsara" populariza universo budista

Foi um projeto que demorou seisanos para se concretizar, revela, numa entrevista por telefone,de Paris, o diretor indiano Pan Nalin, de Samsara. O filmeestreou hoje na cidade. "Carreguei comigo esse projeto durantemuito tempo. Falo em seis anos a partir da primeira versão doroteiro, mas na verdade acho que é o projeto de uma vidainteira." É a história de um monge tibetano que busca onirvana. Ele se submete a duras provas, mas o desejo carnal oforça a abandonar o monastério. Casa-se e leva uma vidapuramente terrena, mas a insatisfação cresce a ponto de o heróivoltar ao hábito de monge. Essa divisão entre a pureza e o impulso sexual calafundo em Pan Nalin. Nascido na Índia, numa família de hinduístase budistas, ele conta que desde cedo foi educado no preceito deque o sexo faz parte dos mistérios (e dos prazeres da vida)."Abdicar do sexo é abdicar de uma porção decisiva da gente."Conta que tem viajado muito pelo mundo para mostrar Samsara.Encontrou-se com monges em lugares tão distantes que até eleduvida de que esteve lá e muitos lhe agradecerem por colocar natela um anseio que eles percebem ser muito intenso,principalmente nos jovens. "Minha idéia era mesmo discutir aessência do budismo, mas não numa perspectiva tradicional.Queria trazer a oposição entre a carne e o espírito para a épocaatual", resume. Admite que foi difícil convencer os produtores de quepoderia fazer Samsara. Seus curtas e documentários lhegranjearam a estima do público dos festivais, chegaram a fazersucesso na França, mas os investidores hesitavam diante de umprojeto tão complicado e caro para um diretor estreante.Samsara custou US$ 3 milhões. Nalin nunca abriu mão defilmar em cenários naturais, em lugares muitas vezesinacessíveis. Isso assustava os produtores e ele reconhece agoraque a maior luta que ele teve de levar foi pelo capital. O repórter observa que é assim mesmo e que BernardoBertolucci diz que só é diretor de cinema quem consegue odinheiro para fazer os filmes. É a diferença que ele vê entre osque sonham em fazer cinema e os verdadeiros cineastas. Pan Nalinacha graça, mas concorda. "Poderia ter ficado eternamentesonhando com esse filme, mas felizmente descolei o dinheiro pararealizá-lo." Ele revela que não gosta particularmente deKundun, de Martin Scorsese, nem de Sete Anos no Tibete,de Jean-Jacques Annaud. "São filmes visualmente bonitos, masacho que não conseguem expressar a essência das religiõesorientais, que é justamente a simplicidade nascida do extremodespojamento." Seu filme também é muito bonito. "Fiz questão de filmarcom grandes câmeras, em tela larga. Samsara não poderia seracanhado em termos de espaço cênico." Não acha que exista aíqualquer tipo de incoerência em relação às suas críticas aScorsese e Annaud. "Respeito-os, mas acho que com toda aimponência visual que imprimi a Samsara não descuidei daessência. Meu filme narra rigorosamente uma viagem interior naqual a paisagem externa representa um papel importante." Poderia ser um filme de dramaturgia tradicional, comooutros que já tentaram penetrar nos mistérios das religiões efilosofias orientais. Pan Nalin acha necessário que se destaquea dimensão filosófica do budismo. Acredita que o mais altoconhecimento, que permite ao homem desligar-se da roda dosnascimentos e chegar ao nirvana, contempla uma atitude que não ésó mística e religiosa, mas é também e principalmentefilosófica. "Estamos falando de conhecimento", diz. O que faztoda a diferença em Samsara são os 15 ou 20 minutos. Nelesestá a chave para a solução do enigma contido na frase utilizadanos cartazes do filme: "O que se deve fazer para impedir queuma gota d´água seque?" Neles está, principalmente, areviravolta proposta pela mulher do herói, quando ele a abandonapara retomar sua vocação. Pan Nalin reconhece que esse desfecho, que é melhor nãorevelar para não tirar do espectador a graça da descoberta, foiuma coisa que se desenvolveu em sua mente a partir da reação dasmulheres de sua família às narrativas sobre como Sidarta Gautama o Buda, teria criado o budismo. Essa perspectiva da mulherconfere modernidade a Samsara e foi, em grande parte,responsável pelas reações favoráveis ao filme, quando passou noFestival de Cannes do ano passado. "Sempre acreditei no meuprojeto, mas confesso que senti um alívio com a reação daplatéia de Cannes. É até uma questão de responsabilidade.Convenci os investidores de que teria condições de fazerSamsara. Um filme é sempre uma coisa imponderável, que nãose pode prever como sairá. Acho que saiu bem, não?", elepergunta. O repórter responde que sim e Pan Nalin acrescenta:"Sinceramente, nunca pensei que um filme meu, com esse tema, umdia fosse estrear no Brasil. O cinema, realmente, pode fazerparte do mundo globalizado, mas é nossa arma contra aglobalização. Posso levar o testemunho da minha cultura para omundo, outros podem fazer o mesmo, e isso é muito importante." Serviço - Samsara (Samsara). Drama. Direção dePan Nalin. Índia/2001. Duração: 138 minutos. 14 anos.

Agencia Estado,

31 de janeiro de 2003 | 15h49

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