Sala Cinemateca exibe "Iracema" no domingo

Hoje, às 17 horas, a Sala Cinemateca exibe um dos mais importantes filmes brasileiros dos anos 70 - Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Depois da projeção, haverá debate com Bodanzky, o psicanalista Roberto Gambini, os antropólogos Mauro Leonel e Carmem Junqueira, e o deputado Aloízio Mercadante. Informações podem ser obtidas pelo telefone 5084-2177. A Cinemateca fica no Largo Senador Raul Cardoso, 207. Será interessante reavaliar Iracema à luz de hoje, ou seja, quando se vive o segundo surto de modernização do País. Se esta palavra - modernização - deve ou não ser colocada entre aspas, será provavelmente um dos temas do debate. Na verdade, o comentário a respeito é o próprio cerne do filme. Iracema é filho do "milagre econômico", aquela fase em que, como as próprias autoridades diziam, a economia ia bem e o povo, mal. Signos maiores daquela época de fé no triunfo tecnológico: as grandes obras, como a rodovia Transamazônica e a ponte Rio-Niterói. Más línguas, na época, diziam que a Transamazônica era uma estrada que iria ligar o nada a coisa nenhuma. E que seria engolida pela floresta, como de fato foi.Os diretores, claro, não estavam nem um pouco preocupados com a viabilidade tecnológica dessas obras, talvez nem mesmo com a pretensão autoritária que as inspirava, mas sobre os efeitos que elas produziam sobre as pessoas. Por isso, o filme, embora às vezes tenha ares de documentário, pareça tão rico em implicações simbólicas. O título - Iracema - evoca a personagem idealizada de José de Alencar, além de ser um anagrama de América. Tais sutilezas devem ter ficado em segundo plano diante do escândalo causado pela história da indiazinha que se prostitui à beira da estrada. O contraponto à adolescente vivida por Edna de Cássia é o caminhoneiro criado por Paulo César Pereio. Inocência versus cinismo; a mera tentativa de sobreviver contra a vontade de vencer a qualquer custo. Tudo isso era bem perceptível. Tanto que o filme, de 1974, ficou proibido pela censura até 1981.Os dois personagens centrais, o caminhoneiro calejado e a adolescente singela, são bem ancorados na realidade. Mas esse par também funciona como metáfora do continente, pelo menos da maneira como os criadores do filme o compreendiam então: explorado e extremamente frágil diante de uma relação desigual com as forças econômicas internacionais. Bem, essa era uma preocupação típica dos anos 60 e 70, quando a descolonização, econômica e cultural, fora eleita preocupação central de quem criava e pensava.Inúmeras obras foram projetadas sobre essa mesma matriz ideológica, mas o que se pode dizer de Iracema é que foge de clichês e esquemas. Portanto, resiste à passagem do tempo, como poderá constatar o espectador que for à Cinemateca. Se Iracema resiste ao desgaste - em função mesmo de sua qualidade artística -, certamente terá algo a dizer ao público de hoje, sujeito talvez a uma segunda onda do mesmo tipo de milagre.

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