Saiba como foi a seleção para a seção Panorama

Quando selecionou o documentário Travelling with Che, de Gianni Minà, que não é outra coisa senão o making of de Diários de Motocicleta, Wieland Speck, o diretor da seção Panorama, estava convencido de que o filme de Walter Salles sobre o jovem Ernesto Che Guevara estaria na competição deste ano. Quando o filme ficou fora, ele pensou em tirar o de Minà, mas achou que seria injusto. Travelling with Che tem identidade e vida próprias e, além do mais, me parece positivo. Deixa o espectador com vontade de ver o filme de Salles." Como diretor do Panorama, Speck foi o responsável pela seleção dos três filmes brasileiros que integram o programa deste ano - o documentário Fala Tu, de Guilherme Correa e Natanael Lecléry; as ficções Contra Todos, de Roberto Moreira, e O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein. Mas ele não esconde sua decepção pelo fato de Diários de Motocicleta ter ficado fora da seleção. Explica o que houve: "Walter está fazendo seu novo filme no Canadá e só poderia vir no sábado; os produtores não podiam liberá-lo nenhum outro dia e nós também não podíamos exibir o filme dele no sábado. Assim, não não houve acordo. Acho que o fato não me desapontaria tanto se não fosse relacionado com o Che, que lutou tanto contra o poder capitalista. Pode-se dizer que o sonho revolucionário do Che foi derrotado pela segunda vez pelo poder econômico." Speck tem viajado regularmente ao Brasil, desde 1997-98, para selecionar filmes para o Panorama. Esteve no País em outubro passado. Viu em torno de 23 filmes; selecionou esses três. "O Panorama tem um perfil muito específico, a meio caminho entre as pressões comerciais da competição e o experimentalismo radical do fórum. E privilegiamos os filmes políticos porque essa é uma característica de Berlim. Nós, berlinenses, somos politizados porque vivemos numa cidade que foi muito marcada pelas grandes disputas ideológicas do século 20." Muito antes de ser diretor do Panorama, Speck, que tem 52 anos, desde cedo acostumou-se a ver os filmes do Cinema Novo. Considera Glauber Rocha uma referência histórica importante, como Rainer Werner Fassbinder para os alemães. Busca, nos quatro cantos do mundo, filmes que representem as graves questões com as quais se defronta a humanidade. "Os filmes do Rio tratam da violência, mas têm a beleza da paisagem e o humor carioca, que atenua um pouco essa violência. Você precisa ser atingido por uma bala para acreditar nela. A violência de São Paulo é mais assustadora, o choque entre o cosmopolitismo do poder econômico e a exclusão social da periferia. Acha que um filme como Contra Todos expressa isso e ainda tem o drama familiar que lhe confere uma dimensão universal. Ele adorou Fala Tu, que define como um documentário brilhante e inteligente, e fugiu um pouco ao perfil do Panorama para selecionar O Outro Lado da Rua, que lhe parece muito humano, muito intenso. Speck descansa alguns dias, mas logo retornará ao trabalho. Vai a Cannes, a Veneza e depois, em outubro, recomeça as viagens pelo mundo, em busca de novos filmes. "Gostaria muito que o Brasil marcasse sempre presença na seção. O cinema brasileiro nos enriquece e perturba com sua diversidade e vitalidade." Veja galeria de fotos da Berlinale

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