Sai nova cópia de ?Ascensor"

Com o Ascensor para o Cadafalso baseado em romance de Noël Calef, Louis Malle estréia no cinema com um tema bem conhecido - o dos crimes que quase dão certo. A história é muito elaborada e o roteiro, engenhoso, trai sua origem literária. Maurice Ronet e Jeanne Moreau são Julien Tavernier e Florence Carala. Ela é casada com um milionário, Simon Carala, que construiu sua fortuna traficando armas, explorando a guerra. Ele é empregado de Simon. A situação é comum: o casal de amantes quer livrar-se do marido e ficar com a grana. Tavernier mata Simon e faz com que o crime pareça suicídio. Tudo aparentemente dá certo, mas ao voltar para apagar o único vestígio do crime, fica preso num elevador do prédio.Fotografia - Há dois planos paralelos no filme. Num deles, Tavernier tenta livrar-se de sua prisão e escapar do lugar do crime. Noutro, externo, Florence é vista pela noite parisiense, à procura do amante que desapareceu sem deixar traços. Um dos encantos dessa tragédia amorosa é que Florence e Julien nunca se encontram - a não ser numa fotografia, que revela ao fim a ligação entre eles para a polícia. Mas há mais uma complicação adicional na montagem do imbróglio. Um casal de jovens namorados furta o carro que Tavernier abandonou às pressas para voltar ao local do crime. Os dois namorados saem a esmo por Paris, depois deixam a cidade e se instalam num motel, onde, por sua vez, cometem um assassinato duplo, do qual Tavernier parece ser o culpado.São, portanto, dois crimes superpostos e o roteiro é bastante hábil em construir uma situação em que o álibi para um invalida o álibi para o outro. Se você for olhar a história com muito rigor verá que parece meio inverossímil, o que costuma ser fatal para filmes desse tipo. Malle, no entanto, se salva de outras maneiras. Digamos assim, a filmagem, um preto-e-branco envolvente, criador daquela sensação dos grandes noirs americanos, no caso realçada pela trilha sonora de sonho, assinada, e executada, por ninguém menos que Miles Davis.Ronet (ator também de O Sol por Testemunha, de René Clément) trabalha de forma correta. Jeanne Moreau faz a diferença. Neste filme comercial, ela introduz a profundidade da psicologia da sua personagem, Florence, a mulher ambiciosa, casada com um ferrabrás das cavernas, aspirando a uma sobrevida sexual com o amante mais jovem, talvez fugidio, provavelmente interesseiro. É imagem de uma certa fragilidade feminina, expressa com aquele rosto construído parece que de propósito para uma boa crise existencial, narradora com uma voz nascida para dirigir-se diretamente à câmera e confessar suas angústias, dúvidas e tristezas. Grande Jeanne, com seu rosto expressivo, seu olhar melancólico, a voz profunda.Elegante - Ascensor para o Cadafalso é de 1957. Claro, tudo nele denuncia uma época passada. Nem tanto pelo figurino dos personagens, o modelo dos automóveis, o corte do cabelo. É mais uma maneira de filmar, elegante, rápida (afinal, o crime urbano, o vazio das cidades já estava na ordem do dia cinematográfica desde os anos 30 ou 40), mas respeitosa do tempo dos personagens.É um filme abertamente comercial, que se oferece como divertimento de nível ao mesmo tempo em que comenta um drama social. Abrange do vazio da classe alta à expectativa alienada da classe baixa - por exemplo, o casal de namorados que furta o carro de Tavernier e entra numa viagem sem volta. A garota é uma florista doidivanas que mora numa chambre de bonne, um pífio quarto de empregada num canto nada romântico de Paris. Ele, um pequeno marginal. São jovens, muito jovens, e já estão perdidos para a vida. Lembram aquele tipo de casal inconseqüente, típico de alguns filmes norte-americanos, que caminham de crime em crime sem se dar conta de onde estão se metendo. Mas, enfim, Ascensor para o Cadafalso é o que se poderia chamar em sua época de entretenimento de qualidade. Quer dizer, um filme de vocação comercial, mas que não tinha medo de trabalhar com inteligência e fazer algum comentário social. Não havia receio de ser sutil e elegante nem de envolver o espectador em uma trama complicada que talvez lhe exigisse um pouco de esforço para acompanhar. O filme de Louis Malle, em cartaz desde a semana passada, em nova cópia, é testemunha de uma época em que cinema de diversão não precisava de maneira nenhuma ser sinônimo de lixo. Muito pelo contrário.Serviço - Ascensor para o Cadafalso (Ascenseur por l´Échafaud). Suspense. Direção de Louis Malle. Fr/57. Duração: 90 minutos. Top Cine 2, horário normal a partir das 16 horas. 14 anos

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