Sai em DVD O Passageiro - Profissão Repórter, de Antonioni

Quando Michelangelo Antonioni recebeu seu Oscar especial da Academia de Hollywood, Jack Nicholson subiu ao palco para conduzir a merecida homenagem ao grande cineasta. Nicholson lembrou que Antonioni, o homem que erigira, no cinema, o silêncio à condição de uma das mais belas artes, estava agora condenado às incomunicabilidade pela doença que lhe paralisou a fala. Foi um momento emocionante, quando o mudo e trôpego Antonioni foi aplaudido de pé. Nicholson havia trabalhado com ele em O Passageiro - Profissão Repórter, de 1975, que sai agora em DVD.Fracasso de público e, parcialmente, de crítica na época do lançamento, O Passageiro cresceu com o tempo. Os críticos terminaram dando razão ao autor, que sempre considerou esse filme como sua obra mais bem-acabada nos planos estilístico e político. Nicholson faz o repórter em crise que usurpa a identidade de um homem que morreu para fugir ao inferno em que se transformou sua vida. O cara é um misterioso traficante de armas para revolucionários norte-africanos, o que leva a narrativa de Barcelona para o deserto. O plot político não impede o autor de falar, como sempre, da angústia existencial.A política, segundo Antonioni. Apesar do seu esforço para entender o que estava se passando no mundo, em plena ressaca dos revolucionários anos 1960, ele não encontrou muitos interessados em compartilhar sua discussão sobre a dupla alienação de seu repórter, a existencial e a política. Os críticos se interessaram mais pela estética do que pela moral. A fama do filme veio de uma ousadia narrativa. No desfecho, a câmera se afasta da cama em que um homem acaba de morrer, passa pelas grades da janela e toma sua distância do cenário do drama. Sempre houve críticos e espectadores interessados em saber como Antonioni resolvera o problema técnico de passar por aquelas grades com sua câmera. O mistério fica esclarecido nos extras que enriquecem o DVD.Antonioni iniciou sua carreira como diretor em 1943, com o documentário Gente del Pò. Poderia ter-se tornado um neo-realista, integrando a escola que floresceu no cinema italiano após a 2.ª Grande Guerra e legou ao mundo clássicos como Roma, Cidade Aberta, de Roberto Rossellini, e Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica. Mas quando Antonioni chegou ao longa de ficção, em 1950, o neo-realismo já estava mudando e Crimes d´Alma se inscreve na vertente daquilo que se chama de neo-realismo interior. Os problemas existenciais e psicológicos superpõem-se aos sociais. Antonioni virou um mestre da tendência, mas teve de esperar até o começo dos anos 1960 para realizar sua célebre trilogia da solidão e da incomunicabilidade, formada por A Aventura, A Noite e O Eclipse.Tudo isso é história e você dispõe dos DVDs de todos esses filmes para conferir a importância do cinema introspectivo de Antonioni, a sua liberdade narrativa veiculada por meio de absoluto rigor técnico. Na segunda metade daquela década, Antonioni, querendo fugir ao que ameaçava virar a camisa-de-força de seu estilo, foi fazer filmes na Inglaterra, na China e nos EUA. Depois Daquele Beijo (Blow-Up) valeu-lhe a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1967. O documentário China, de 1974, foi considerado uma adesão tardia ao maoísmo. Situa-se entre Zabriskie Point, a aventura americana de Antonioni, de 1969, que entrou para o índice das obras proibidas pelo regime militar no Brasil (um pouco pela ousadia na abordagem do sexo, outro tanto pela provocação contida na explosão do refrigerador, como símbolo do sonho de consumo, no desfecho), e O Passageiro - Profissão Repórter. Independentemente de preferência por este ou aquele momento em particular, a obra de Antonioni compõe um bloco de rara coerência que faz dele um dos grandes artistas do cinema. O Passageiro - Profissão Repórter (The Passenger). DVD da Sony. Nas lojas. R$ 33,90

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