Sai em DVD "Loucuras de Verão", de George Lucas

Ele entrou para a história como o homem que colocou o western no espaço. E não é só porque Guerra nas Estrelas, de 1977, tem, logo no começo, o que é uma citação explícita do clássico Rastros de Ódio, de John Ford, dos anos 50. O herói volta para casa e encontra só ruínas fumegantes, como ocorria com John Wayne, o lendário Ethan Edwards, da obra-prima fordiana. A partir daí, George Lucas faz de Guerra nas Estrelas o que não deixa de ser um western intergaláctico, cheio de ação e movimento. O público adorou. Iniciou-se assim um fenômeno. Muito já se escreveu sobre a trilogia formada por Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi, e também sobre Guerra nas Estrelas, Episódio I - A Ameaça Fantasma, que retomou a série, tanto tempo depois. Lucas produz atualmente o episódio 2 da nova série. Prepare-se para ler e ouvir muita coisa sobre esse filme, marcado para estrear em 2002, ao longo do ano. Tanto se fala nesse Lucas visionário, que colocou o marketing e os efeitos especiais na berlinda de Hollywood, erigindo um império e mudando a face do cinema - pelo menos o industrial -, que as pessoas até esquecem que o produtor da série com Indiana Jones, o mega-empresário do cinema dirigiu, no começo dos anos 70, um pequeno filme que virou cult. Seu título: American Graffiti. No Brasil, ficou sendo Loucuras de Verão. É uma produção da Universal que está sendo lançada em DVD, no País, pela Columbia. O disco digital vem carregado de extras, incluindo making of, entrevista com o o diretor e os atores, trailer de cinema e testes de cenas. Para colecionadores é imperdível. Loucuras de Verão é de 1973, numa época em que, passada a fase radical da contracultura, o cinema americano tentava reatar, em chave nostálgica, com as próprias tradições americanas. Mas não é um filme careta ou chapa-branca, feito para vender o que ainda restava do sonho americano. E nem poderia ser diferente, porque naquela época, a América, devorada pela Guerra do Vietnã, não tinha mais tempo (nem disposição) para sonhar. Foi nesse quadro que surgiu a história dos amigos numa pequena cidade americana. O ano é 1962, eles são graduandos e a maioria ainda está preocupada em perder a virgindade - o que faz de Loucuras de Verão um dos precursores de uma série de pornochanchadas americanas que, desde então, inundaram as telas de todo o mundo. O filme gerou uma série de suprodutos cinematográficos. Não pode ser acusado por isso. Nem o fato deve diminuir as virtudes que ostenta. Lucas, como produtor e diretor, é um entertainer. Sua obra como produtor é mais importante, até porque ele dirigiu pouquíssimos filmes - THX 1138, Loucuras de Verão, Guerra nas Estrelas, Episódio 1. Não é um grande diretor e Episódio 1 provou-o mais uma vez, embora todo mundo já soubesse disso. Loucuras de Verão é seu melhor filme como diretor, embora não tenha se transformado num fenômeno como a série Guerra nas Estrelas. É divertido, emocionante e ostenta um elenco para ninguém botar defeito. Richard Dreyfuss virou astro por sua participação nesse filme, que o catapultou ao primeiro plano de Hollywood, posição confirmada, a seguir, por Tubarão e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ambos de Steven Spielberg, antes que ele iniciasse a viagem na bebida e nas drogas que tanto prejudicou sua carreira. Mas o filme impulsionou outras carreiras. Paul Le Matt, Ronny Howard e Charles Martin Smith completam o núcleo básico dos amigos, aparecendo Cindy Williams e Candy Clark como algumas de suas garotas. Ronny passou a assinar-se depois somente Ron Howard e, como tal, virou diretor, assinando grandes sucessos de público, senão de crítica, com o "Apollo 13". Entre os demais atores, numa participação ainda pequena, aparece Harrison Ford, que depois virou superstar interpretando Guerra nas Estrelas e, a seguir, a série com Indiana Jones, que Lucas produziu e Spielberg dirigiu. Na época, eles eram todos jovens talentosos e ainda estavam lutando para impor sua presença numa Hollywood em processo de transformação. Os anos dourados haviam ficado para trás, os grandes diretores estavam todos morrendo, o cinema de estúdio estava mudando. É significativo que Loucuras de Verão tenha sido produzido por Francis Ford Coppola, que dá seu depoimento sobre a produção na fita. Coppola foi o primeiro desses jovens a triunfar em Hollywood. Em 1972, um ano antes de Loucuras de Verão, o primeiro filme da série O Poderoso Chefão bateu recordes de público e arrebatou os críticos. Com a autoridade que aquele supersucesso lhe propiciou, ele bancou o filme de Lucas, seu parceiro em O Caminho do Arco-Íris e Caminhos Mal Traçados, quando Francis Ford ainda não era o grande Coppola. Tudo isso é história e ajudou a alimentar o culto em torno de Loucuras de Verão. Mas há a magia do próprio filme, da sua história, do seu elenco. Os rachas de carros, a trilha de rock. O melhor de tudo vem no fim, quando um letreiro conta o que ocorreu com aqueles rapazes e moças. Alguns deles foram convocados para lutar no Vietnã e até morreram no Sudeste Asiático. Desfecho melancólico para um filme que podia ser nostálgico de um passado que parecia bom, mas não deixa de ter os pés no chão, numa época (os 70) em que a América perdia a inocência e percebia que seu antigo sonho virara pesadelo. Loucuras de Verão - EUA, 1973. Direção de George Lucas. Lançamento Columbia. Colorido

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