Saga familiar abre Cine Ceará

Em alto estilo, Cine São Luiz lotado, Florinda Bolkan abriu a 10.ª edição do Cine Ceará com sua estréia no longa-metragem, chamado de Eu Não Conhecia Tururu. Tudo perfeito, não fosse um grupo de professores em greve ter resolvido fazer seu protesto diante do venerando cinema da cidade. Diante e lá dentro mesmo, pois alguns deles ocuparam as primeiras filas e desenrolaram uma faixa de protesto sobre o movimento. Uma das manifestantes, dizendo-se em greve de fome, tomou o microfone da bela Ingra Liberato, que comandava o espetáculo em parceria com Matheus Nachtergaele, e pediu que a educação cearense recebesse, por parte do governo, as mesmas atenções que recebia a cultura em geral, e o cinema, em particular.Ato político concluído, o espetáculo prosseguiu, com a diretora Florinda Bolkan apresentando a equipe do seu filme, elenco incluído, com exceção da protagonista, Maria Zilda Bethlem, com quem está brigada desde o início das filmagens.No final, Eu Não Conhecia Tururu foi muito aplaudido o que não chega a surpreender - Florinda, no Ceará, não é uma pessoa física, é uma instituição, um patrimônio, um monumento tombado, nietzscheanamente acima do bem e do mal. O que não impediu que alguns dos seu agora colegas, cineastas, pichassem o filme, pelas costas, obviamente. Pela frente, todo mundo gostou e o elogio correu unânime. Em entrevista, a atriz, e doravante diretora, confessou-se sinceramente (e agradavelmente) surpresa com a boa recepção. "O público aqui está acostumado a uma coisa muito mais rígida, presa ao mundo real, da política",comenta. "Eu quis mostrar um Ceará light, alegre, de onde saí há muito tempo e para o qual agora tenho muita alegria de voltar."De fato, essa história de quatro irmãs que se reencontram alcança, pelo menos em alguns momentos, esseregistro leve, e nostálgico, pretendido pela diretora. Uma nostalgia, porém, temperada por certa modernidade e abertura no plano dos costumes. A própria Florinda interpreta Eleonora, uma escritora homossexual que vive na Europa e deseja escrever um livro sobre sua família. Rose (Maria Zilda) é artista plástica e sofre com os homens, Isabel (Ingra Liberato) mora nos Estados Unidos e não se dá bem com o marido. Carmem (Susana Gonçalves) é uma doidivanas que tenta um casamento estável pela quarta vez.Não há propriamente uma trama, no sentido convencional do termo. O ponto enigmático real é postergado e aparece tarde demais para produzir efeitos. Seria o seguinte: Florinda/Eleonora quer escrever sobre a família e acaba descobrindo que a mãe tem um segredo em seu passado. Quando isso surge, é en passant, e logo deixado de lado, sem maiores conseqüências. Sem trama e sem mistério, o filme precisa contentar-se com um vago clima feminino para fluir. Esse clima é feito de intimidade, e de alguma cumplicidade - o que, para algumas mulheres que estavam no cinema, bastariam para conferir ao filme autenticidade autoral.Seja. Mas Tururu... não deixa de passar uma impressão de superficialidade. Almoça-se, janta-se, dança-se demais. Há passeios e paisagens em abundância, mas nem por isso sente-se o efeito de cartão-postal de tantas produções brasileiras recentes. O problema é outro e parece dizer respeito a uma opção pelo caldo ralo e pelo apaziguamento como norma geral. Todos os personagens têm seus conflitos, mas eles não são aprofundados. O filme os atravessa, como uma formiguinha atravessa um pires, com água pelas canelas, para lembrar uma frase de Nélson Rodrigues. Apesar das limitações de texto e contexto, Tururu... é um filme agradável de se ver. Mas não se sabe se impressionará platéias de outras latitudes.Mas, enfim, é até um milagre que tenha saído digno, dado o clima reinante na filmagem. Segundo Florinda, a atriz principal, Maria Zilda Bethlem, dois dias antes de começarem os trabalhos, exigiu que seu nome viesse à frente dos outros (do de Florinda, inclusive). "Quis que a filmagem começasse exatamente às 9h32 da manhã, porque assim seus guias espirituais haviam determinado", conta. Atriz e diretora não se falavam. Se a cineasta Florinda Bolkan tinha de corrigir alguma cena protagonizada pela atriz Maria Zilda, o fazia por intermédio do diretor-assistente, Amílcar Claro. E, assim por diante. Por isso terminada a fase de captação das imagens, Florinda "pediu" que Maria Zilda se afastasse do projeto. "Fiz a pós-produção sem ela, porque preferia deixar tudo de lado, preferia a morte, a continuar aquele inferno que vivemos durante a filmagem", conta.

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