Saga dos motoboys ganha o cinema

Há cerca de 250 mil motoboys ziguezagueando pelo trânsito de São Paulo. Em média, morrem 3 deles por dia. Essa epopéia urbana pouco seduziu o mundo artístico até hoje, mas parece que a situação mudou. O cinema mirou sua lente no retrovisor de uma motoca. Ao mesmo tempo em que estréia hoje, no ciclo Cinesul 2003 - Festival de Cinema e Vídeo Latino, o documentário Na Garupa de Deus, de Rogério Corrêa, está sendo produzido outro filme, Motoboys, de Caito Ortiz."Levantei rapidinho, nenhum arranhão/ Parecia milagre, mas tem explicação/ Eu tô com Deus, sou herói/ Sem carteira assinada/ Profissão motoboy." O rap do grupo Fator Surpresa pontua o filme de Rogério Corrêa, Na Garupa de Deus, que é bastante simpático à causa do motoboy, apelidado (por eles e pelos outros) de "cachorro louco", um lúmpen da modernidade que vive no fio da navalha o tempo todo. O diretor vasculha São Paulo e encontra exemplos de toda sorte da saga motoqueira."Nossa vida é duas roda (sic), fera! 24 hora, 17 hora, é duas roda!", diz o guia de câmera do documentário, enquanto dirige sua motocicleta pelo meio do que os motoboys chamam de "corredor da morte", os vãos entre os carros numa avenida grande como a Paulista ou a Santo Amaro. É questão de segundos. "Se o cara abrir a porta do carro ou atravessar a pista, bau bau!!"Rogério Corrêa diz que um dos fascínios da motocicleta é a "a adrenalina do vento no rosto e as manobras arriscadas", entre outras coisas. "A maioria deles está naquela idade que a pessoa acha que é imortal", diz. Ele conta que resolveu abordar o tema há seis anos, quando o número de motoboys começou a aumentar vertiginosamente. "Percebi que era fruto ao mesmo tempo de desemprego formal e da loucura que é o trânsito na cidade, construída para os carros em primeiro lugar. Nada mais contemporâneo em São Paulo do que os motoboys. É uma cidade que tritura carne humana para crescer e eles são a bola da vez.""Um idiota em cada carro" - O documentário de Caito Ortiz busca também a raiz da questão. O documentário segue cinco motoboys em São Paulo e ouve também motoristas. Em um depoimento, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha critica o urbanismo voltado inteiramente para o automóvel, e para a sociedade que centra seu olhar no volante de um automóvel, "um idiota em cada carro". Caito Ortiz também faz algumas revelações surpreendentes, como o fato de que um acidente de moto pode paralisar uma via expressa. "Outra coisa interessante é que os números de mortos no trânsito não são separados em carro e moto. Os fabricantes de motocicletas tentam esconder ao máximo o dado de que motos matam dez vezes mais do que carros."Cinesul 2003 - Festival de Cinema e Vídeo Latino. Exibição de Na Garupa de Deus, hoje, às 15 h, na Sala de Vídeo. Grátis. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. Até domingo.

Agencia Estado,

27 de junho de 2003 | 12h40

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