Saem em vídeo os melhores de 1999 e 2000

Qual o melhor filme feito em 1999, em todo o mundo? Gente da Sicília, de Jean-Marie Straub e Danile Huillet. Qual o melhor de 2000? Amor à Flor da Pele, de Wong Kar-wai. Você não encontra esses filmes no Oscar. Vai encontrá-los na videoteca da Cult Filmes, que já iniciou as pré-vendas. Logo estarão nas locadoras. Por mais que o futuro seja digital e o DVD, por sua alta qualidade de imagem e som e também pelos extras que a maioria dos discos oferece, deva constituir-se, com o tempo, na forma dominante da exibição doméstica, isso não significa que o vídeo será substituído com a facilidade com o que o vinil cedeu espaço ao CD. Ainda existem atrativos poderosos para se investir no vídeo. Que melhor exemplo que a videoteca de empresas como a Cult, que se dedicam à divulgação do produto artístico?Você pode não gostar deste ou daquele, mas não há um só título no catálogo da Cult que não ofereça alternativa ao ramerrão da produção hollywoodiana. E os bons filmes são muitos. Poucos tão bons quanto Gente da Sicília ou Amor à Flor da Pele. O cineasta de Hong Kong Wong Kar-wai muitas vezes foi criticado por aquilo que muitos críticos definem como "o maneirismo" de seus filmes. Pode ser que tenham razão, quanto a certos títulos, mas até eles reconhecem que o maneirismo de Kar-wai coloca-se ao tema de Amor à Flor da Pele.É um dos mais belos filmes românticos já feitos. Riquíssimo em densidades e sutilezas. Um homem e uma mulher compartilham quartos vizinhos numa pensão. São interpretados pela deslumbrante Maggie Cheung e por Tony Leung, que ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes, no ano passado. A mulher dele e o marido dela nunca aparecem. Os dois sentem-se atraídos, mas não concretizam o adultério. Pelos diálogos - uma hábil teia de coincidências -, o espectador percebe que os respectivos cônjuges, esses sim, tiveram um caso. Uma ´love story´ pudica? Um delicado estudo sobre o desejo humano. Kar-wai chega à essência de seus personagens construindo elipses. O refinado artificialismo de Amor à Flor da Pele é um passaporte para a verdade do cinema.Maggie Cheung contou que a rodagem do filme se estendeu por longos 15 meses. No roteiro que foi filmado, os personagens dela e de Leung concretizam o adultério e têm um filho, o menino que aparece no fim. Não é assim no filme que ao espectador é dado a ver. Kar-wai desconstruiu seu filme na sala de montagem. Criou em elaborado jogo de elipses. Tudo no filme é falso e, no entanto, é terrivelmente verdadeiro. Maggie Cheung caminhando ao som, daquela música - em escadas, ruas ou corredores -, compõe uma das lindas epifanias visuais do cinema. O que ocorre entre Leung e ela toca o sublime. Pequenos gestos de aproximação e afastamento, olhares. O espectador compartilha com Leung seu desejo por Maggie e, com isso, Amor à Flor da Pele faz dele um voyeur. O fascínio de Gente da Sicília é de outra natureza. Straub e sua companheira, na arte e na vida, Danile Huillet acreditam num cinema mais experimental, enquanto linguagem e política. Não criam a simetria audiovisual encantatória de Kar-wai, com seu recurso à voz aveludada de Nat King Cole (Aquellos Ojos Verdes e Te Quiero Dijiste). Nem por isso Gente da Sicília deixa de exercer seu peculiar fascínio sobre espectadores interessados na fabulação política armada pela dupla de diretores. Straub e Danile basearam-se no romance Conversazione in Sicilia, de Elio Vittorini, que teve problemas na Itália, durante o fascismo. Não fizeram uma adaptação convencional e o livro, a bem da verdade, não se prestava a isso.Um homem volta à Sicília e dialoga com a mãe, em busca de suas raízes. Straub e Danile utilizam quatro das conversas do livro. O que mãe e filho dizem ajuda a iluminar e entender o imaginário da bárbara terra siciliana, berço da Máfia e cenários das obras-primas de Luchino Visconti (La Terra Trema) e Francesco Rosi (O Bandido Giuliano).Amor à Flor da Pele (In the Mood for Love).Colorido, Hong Kong, 2000. Gente da Sicília (Sicilia!). P&B, Itália, 1999. Vídeos da Cult, pré-vendas pelo fone (11) 4195-8456.

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