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Sacha Baron Cohen põe os Estados Unidos no espelho

Democracia não é o lema do longa-metragem 'O Ditador', cuja incorreção tem algo de Bush Jr.

27 de agosto de 2012 | 09h31

Crítica: Luiz Carlos Merten

Avaliação: Regular

Na entrevista que deu ao Estado sobre O Ditador, Sacha Baron Cohen disse que o General Aladeen surgiu no seu imaginário antes da chamada ‘primavera árabe’, mas que ele seguiu adiante com o projeto até como forma de ajudar o público norte-americano - e ocidental - a entender os motivos das revoltas populares que levaram a um redesenho na geopolítica do norte da África e do Oriente Médio. Aladeen é o típico ditador, e não apenas do mundo árabe. Autoritário, sexista, ele transforma a barba num signo de identidade. Quando ela é raspada por terroristas, o ditador, como o rei, está nu.

Na trama de O Ditador, Aladeen vai participar de um evento da ONU nos EUA. Seu tio aproveita para dar um golpe em Wadiya - é o nome do país fictício - e Aladeen, destituído de poder, arranja emprego numa organização, comandada por uma mulher, que presta serviços humanitários. Ou seja, é o homem errado no lugar totalmente errado (para ele).

Em sua curta carreira, Sacha Baron Cohen virou sinônimo de humor politicamente incorreto, embora tenha tido a chance de fazer um papel sério num filme de prestígio (e não uma comédia) - A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese. Ele continua se lixando para a correção - na organização, há uma refugiada salvadorenha que perdeu as mãos. Ele a chama de ‘Capitã Gancho’. A grande diferença em relação às comédias anteriores de Sacha é que Borat e Bruno adotavam o formato de falsos documentários. Lembram-se? O primeiro acompanhava as desventuras de um repórter do Cazaquistão na América, o outro investigava o mundo da moda. Em O Ditador, a narrativa, não documentária, fica mais linear. O filme fica mais coeso, mas não necessariamente mais divertido.

É possível continuar rindo com Sacha - ele é hilário, principalmente quando o personagem se põe mais ‘sério’. Aladeen, um pouco pelo uniforme, parece um clone do deposto Muamar Kadafi. Sua trajetória é única. Ungido por Alá, ele tem no peito as numerosas medalhas que ganhou participando de Olimpíadas em seu país. E é também o mais premiado diretor da história do cinema africano. Na cama, é um imbatível atleta sexual. Tudo isso é potencialmente divertido, mas a piada, dizia Guimarães Rosa, é como o fósforo. Deflagrada(o), perde a utilidade. As piadas de O Ditador, de alguma forma, são menos engraçadas que as de Borat e Bruno.

Como os filmes anteriores, este também é dirigido por Larry Charles, que o próprio Sacha define como sua alma gêmea, seu alter ego. A dupla investe em outra novidade, além da estrutura narrativa, e ela está no fato de que há aqui um envolvimento romântico do protagonista - um simulacro de comédia romântica (com a personagem de Anna Faris). Ainda na entrevista que deu ao Estado, Sacha disse que conseguia ser incorreto - com judeus, negros e deficientes -, porque a única coisa que Hollywood preza mais que respeito é dinheiro. Enquanto seus filmes derem dinheiro, ele terá toda liberdade dentro dos estúdios. Quem ainda resiste é a Academia. No último Oscar, Sacha foi impedido de assistir à cerimônia de entrega do prêmio vestido como Aladeen. A Academia julgou o marketing do filme ‘intolerável’.

O romance talvez seja agora um signo de que o próprio Sacha está baixando a guarda - será? Pois ele continua provocador. A melhor cena do filme é aquela em que o protagonista faz seu discurso pró-ditadura, contra a democracia. Muita coisa que ele diz confronta o público com conceitos e atitudes do ex-presidente George W. Bush. Sacha pode estar falando de um ditador árabe, como falava de um repórter russo em Borat. Em ambos os casos, o estrangeiro confronta a América consigo mesma. Reflete o país no espelho. Ben Kingsley, que faz o tio usurpador, comparou, com algum exagero, Sacha a Charles Chaplin, em O Grande Ditador. Exageros (e insuficiências) à parte, o mérito de O Ditador está em trazer de volta para o cinema norte-americano esse gênero que se diria em extinção, a sátira política.

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