Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Ruy Guerra lembra 'Mueda', filme feito em Moçambique

Cineasta é autor de clássicos como 'Os Cafajestes' e 'Os Fuzis'

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2016 | 16h00

Entre as muitíssimas atrações da mostra África(s) – Cinema e Revolução (no Cine Caixa Belas Artes, até 23/11), houve uma muito especial: o debate entre Ruy Guerra e os cineastas moçambicanos Isabel Noronha e Camilo de Souza, moderada pela professora da USP Rita Chavez. A mesa teve ainda presença de José Luiz Cabaço, Ministro da Informação durante o governo de Samora Machel (1975-1986).

Ruy Guerra nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, em 1931, estudou cinema na França e veio ao Brasil, onde se tornou um dos nomes principais do Cinema Novo, com obras como Os Cafajestes e Os Fuzis. Depois da libertação de Moçambique, em 1975, Ruy foi convidado a voltar a seu país para ajudar na implantação de uma cinematografia nacional. Cinema nacional, ao alcance do povo, era tema caro às revoluções socialistas, como se dera antes na Revolução Cubana. Desse modo, um dos primeiros atos da Frelimo, ao chegar ao poder, foi fundar o Instituto Nacional de Cinema.

Como tudo estava por fazer nas ex-colônias, houve essa maré de ajuda por parte de cineastas mais experientes, como era o caso de Ruy Guerra, mas também de Jean-Louis Godard, que teve uma breve e malsucedida experiência em Moçambique. Do Brasil foi também José Celso Martinez Corrêa, que lá rodou um épico, 25. De Cuba, foi Santiago Álvares e, também da França, Jean Rouch, nomes fundamentais na história do cinema documental.

Já em seu país, e aconselhado por Camilo de Souza, Ruy Guerra filmou Mueda, reencenação de um episódio ocorrido no município deste nome, onde, em 1960, um número indeterminado de moçambicanos foi dizimado pelo exército colonial português. Em Mueda, Memória e Massacre, Ruy Guerra registra uma celebração local, ritual que recorda estes fatos da sangrenta história da libertação daquele país.

Foi considerado o primeiro longa de ficção de Moçambique, o que provoca polêmica pois muitos o consideram um documentário. “Não vejo distinção entre ficção e documentário”, contesta o diretor, “mas a afirmação de que se tratava de um filme de ficção tinha intenção política muito clara para nós: mostrar que, sim, podíamos fazer em Moçambique um filme de ficção, como era feito em outros países.”

A participação de Godard foi problemática. Ruy Guerra lembra de ter sido consultado pelo governo sobre a vida do polêmico cineasta francês: “Disse a eles que sim, seria benéfico que viesse”. Dessa forma, Godard veio, ficando “sob responsabilidade de Ruy”, lembra rindo o moçambicano-brasileiro. Mas o plano que trazia Godard à África acabou não se concretizando. Ousado, queria levar câmeras aos habitantes das províncias e ensiná-los a manejá-las para que registrassem suas imagens e histórias. “A ideia era muito boa, mas, infelizmente, àquela altura, estávamos em guerra com a Rodésia e a África do Sul, a população passava fome e os US$ 400 mil necessários para o projeto de Godard tiveram que ir para outras prioridades”, diz José Luiz Cabaço, então ministro da Informação de Samora Machel. Desse modo, pela força da guerra e da necessidade, a revolução moçambicana privou-se de uma experiência de ponta do guru da nouvelle vague.

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