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‘Ruptura’, série do Apple TV+, discute o valor da vida profissional e a reação ao trauma

Com drama e humor negro, produção aposta em filme noir e ficção científica

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

21 de fevereiro de 2022 | 15h03

Com a pandemia, as fronteiras entre trabalho e vida pessoal, já precárias, ficaram ainda mais indefinidas. Ter de fazer uma reunião por videoconferência enquanto cuida da criança em casa, ou receber mensagens durante o jantar tornaram-se coisas corriqueiras. Ruptura, série criada por Dan Erickson que acaba de estrear no Apple TV+, trata justamente disso, misturando drama com humor negro, filme noir com ficção científica

Na série, a empresa Lumon usa pessoas que passaram voluntariamente pelo processo de “ruptura”: uma incisão no cérebro que separa totalmente a vida pessoal da profissional. Quando Mark Scout (Adam Scott) está fora da companhia, ele não se lembra de nada do que aconteceu lá dentro. E, quando está na Lumon, não se recorda do trauma que viveu com a perda de sua mulher. “Eu jamais participaria de alguma coisa assim”, disse John Turturro, que interpreta Irving B., companheiro de departamento de Mark S., em entrevista por videoconferência com a participação do Estadão. “A liberdade, combinada à responsabilidade, é fundamental na vida. Quando a pessoa não tem voz, ela é diminuída.” 

Obviamente que as coisas são ainda mais complexas. Mark S., Irving B., mais Dylan G. (Zach Cherry) e a novata Helly R. (Britt Lower), não têm a mais vaga ideia do que fazem exatamente. Eles precisam separar números que aparecem aleatoriamente na tela de um computador saído diretamente dos anos 1960, em uma sala vazia. O tempo inteiro, são supervisionados por Seth Milchick (Tramell Tillman) e pela executiva Harmony Cobel (Patricia Arquette), que não passaram pela “ruptura”. Fora da empresa, Cobel é a Sra. Selvig, vizinha de Mark. 

Ben Stiller, que dirige seis dos nove episódios, disse que se inspirou no teatro do absurdo de Ionesco e em Beckett. A produção também se baseou no filme Playtime – Tempo de Diversão (1967), de Jacques Tati. A série aposta em cenários que remetem ao modernismo dos anos 1950 e 1960, mesmo se passando em uma empresa de alta tecnologia, e em enquadramentos incomuns, que refletem os personagens incompletos. 

 “Cada um deles processa a ruptura de maneira diferente. Eles precisam encontrar algo que tenha significado em sua vida quando tudo o que têm é o trabalho”, disse Zach Cherry. “Dylan escolhe ser competitivo e dominador.” Já Irving B. prefere seguir à risca as regras determinadas pelo fundador da companhia, Kier Eagan – há uma crítica ao culto dos empresários-gurus bem clara na série. “Eu conversei com Dan Erickson, e para mim a rigidez do meu personagem tem origem em um mundo de muita disciplina. Mas, claro que ele tem sentimentos, e uma hora isso acaba tomando conta.” Irving B. tem seu momento de rebelião pelo coração, ao se aproximar de Burt G. (Christopher Walken), que é de outro departamento. 

Mas o grande elemento disruptor é Helly R., totalmente indisposta a aceitar as respostas que lhe são dadas. É ela que faz com que o protagonista Mark acorde um pouco para sua realidade e perceba que há coisas estranhas, como não saber para que funciona seu trabalho ou por que seu amigo Petey (Yul Vázquez) foi demitido sumariamente.

Ruptura mantém até o final a dúvida sobre o que se passa. Incrivelmente, é o primeiro crédito de Dan Erickson, que estava trabalhando em um aplicativo de entregas quando conseguiu sua reunião com a Apple.

 

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