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'Rua do Medo' e 'American Horror Stories' provam que atmosfera importa mais do que mitologias

A trilogia da Netflix está pavimentada de boas intenções; já a série antológica de Ryan Murphy e Brad Falchuk foi a franquia de horror correta durante uma década mantendo uma linha que conecta cada nova temporada às predecessoras

Inkoo Kang, The Washington Post

23 de julho de 2021 | 15h00

Para os espectadores que assistiram à trilogia Rua do Medo, o fato mais surpreendente no caso dos filmes da Netflix é que inicialmente eles deveriam ser lançados nos cinemas. Claro que houve algumas insinuações, como as de que o elenco de estrelas famosas em papéis coadjuvantes (como Gillian Jacobs e Maya Hawke) ou o orçamento extravagante para a música, que contribuiu para definir a atmosfera das eras Clinton e Carter dos dois primeiros filmes.



Mas Rua do Medo, mais inspirada do que adaptada das séries de livros de horror de R.L. Stine, parece fundamentalmente um filme de TV. O mistério serializado sobre as origens no século 17 da lendária maldição de bruxas na cidade de Shadyside não conecta os episódios, mas é o elo central da trilogia.

Como crítico de TV e cinéfilo, fã da capacidade aparentemente ilimitada da expressão criativa desse meio, não acho um insulto comparar um filme (ou uma série deles) à televisão. Não existe uma razão inerente de um filme ser necessariamente melhor do que um programa de TV, ou vice-versa. Provavelmente, você consegue lembrar de cinco séries que preferiria assistir na TV, como por exemplo, Um Lugar Silencioso Parte 2, como poderia pensar também em cinco filmes que não são tão bons quanto o pior episódio da série Halt and Catch Fire

Não se trata necessariamente de um julgamento de valor notar que, especialmente na era atual do IP e pressões para reconhecimento de marca, franquias de filmes como as da Marvel Cinematic Universe têm dependido de convenções de narrativas tradicionalmente associadas à TV, tais como momentos de máximo suspense e personagens recorrentes de modo a prender a atenção do público.

O gênero horror tem uma história ainda mais longa. Só em 2019 houve a expansão dos universos cinematográficos de Chucky, O Iluminado, Invocação do Mal e It, de Stephen King.

Leigh Janiak, que dirigiu e colaborou no roteiro dos três episódios de Rua do Medo, dando à trilogia uma consistência visual e narrativa com frequência perdidas nas sequências dos episódios de horror, recentemente disse ao site Indiewire que seus filmes também podem servir como ponto de partida para muitas outras história subsequentes, ou seja, sequências. “Você tem o preceito básico da nossa mitologia em torno do fato de que o demônio vive em Shadyside”, disse ela, “de modo que há espaço para qualquer outra coisa mais”.

 


Esse é o problema de Rua do Medo, que passa tanto tempo determinando seu universo cinematográfico potencial que há pouca coisa a recomendar a respeito dos filmes individuais.

A primeira parte, Rua do Medo Parte 1: 1994, acompanha Deena (Kiana Madeira) e seu irmãozinho Josh (Benjamin Flores Jr.) que passa o tempo em chats online discutindo os periódicos assassinatos em massa em Shadyside. Deena, de início, está mais preocupada com a sua separação de Sam (Olivia Scott Welch), sua ex-namorada que recentemente se juntou a um grupo de animadoras de torcida em Sunnyvale, o bairro mais branco e seguro da cidade. Quando a  Shadyside é surpreendida por um outro massacre, desta vez num centro de compras, naturalmente - Deena, Sam, seus amigos (Julia Rehwald e Fred Hechinger) e Josh tentam entender como e porque eles estão sendo perseguidos pelo assassino morto-vivo do centro comercial junto com outros seriais killers que arruinaram a história da sua cidade.

O quebra-cabeça continua em Rua do Medo Parte 2: 1978, um filme aterrorizador ambientado num acampamento de verão em flashbacks narrados pela garota final de Jacobs (a heroína que sobrevive a um filme de horror) e acha a solução na última parte da trilogia, Rua do Medo Parte 3: 1966, que reúne muitos dos jovens atores dos dois primeiros filmes numa história sobre uma colônia de puritanos paranoicos que colocam a culpa de suas recentes dificuldades na magia negra.

Janiak e seus colegas roteiristas dessa história, Phil Graziadei, Zak Olkewicz e Kate Trefry, seguem duas tendências do terror contemporâneo: a subversão do conservadorismo social há muito tempo associado aos assassinos em série tradicionais (a garota má que faz sexo morre, o personagem negro é o primeiro a morrer) e dotar os terrores na tela de alegoria sociológica (uma metáfora que não é absolutamente nova) que, no entanto, provocou um interesse renovado depois do megassucesso Corra!, de Jordan Peele.

O caminho para Rua do Medo certamente está pavimentado de boas intenções. A série foi recebida com elogios pelo fato de se centralizar num romance lésbico e que a personagem principal, lésbica e não branca ser motivada pelos seus esforços para reverter a possessão da ex-namorada.

As três partes da trilogia são muito gentis com seus personagens negros e há uma atenção especial ao difícil relacionamento entre mulheres jovens, incluindo a polêmica irmandade em 1978.



Mas como muito dessa trilogia é dedicado a cenas expondo as bases da história de Shadyside, existe muita coisa que é admirável na teoria e monótono na tela. O romance de Deena e Sam, por exemplo, é marcado por repulsa e atração entre duas personagens cuja relação nunca ganha os contornos, o que faz você se preocupar com sua sobrevivência. Há uma similar falta de vivência nas eternas conversas em Shadyside sobre a vida no lado errado dos trilhos, que parece não ter nenhuma relação com sua existência cotidiana. 

E, apesar de os adolescentes dos filmes de horror raramente terem alguma semelhança com os adolescentes da vida real, a primeira reação de muitos deles ao se depararem com o corpo de um morto é telefonar para a mãe - os personagens são tão desprovidos de qualquer história interpessoal entre eles que Deena não fica perplexa com a revelação de que sua melhor amiga está interessada no seu irmãozinho. (A possessão demoníaca parece muito mais plausível).

Há ainda menos caracterização dos seriais killers, que supostamente estariam a serviço de uma bruxa. As pessoas da cidade tratam os rumores de uma maldição como se fosse um conto de fadas - apenas crianças ou malucos levariam isso a sério - mas não existe outra explicação para o motivo pelo qual moradores comuns sem nenhuma história de violência, de repente, se tornam assassinos em massa. Essa teoria acaba sendo errônea, mas não dá aos assassinos com facas em Rua do Medo mais profundidade ou dimensão.

Naturalmente, Rua do Medo, uma máquina oferecendo a nostalgia dos anos 1990, com as arminhas d'água, o perfume CK One e o neon reluzente substituído pela luz negra. Janiak citou O Grito e Halloween como influências, mas as cenas finais da trilogia, que nos levam de volta para 1994, parecem mais uma repetição do filme Esqueceram de Mim, com os assassinos insanos assumindo o lugar de Joe Pesci e Daniel Stern. Esses dois podiam não ter cérebro, mas, pelo menos, tinham alguma personalidade.

 


Talvez Rua do Medo pareça tão relativamente sem vida porque já houve franquias de horror que tinham conotação queer e feminina, com atores de primeira linha e um brio visual infalível, nos últimos 10 anos. American Horror Story sempre foram uma mistura heterogênea de desempenhos notáveis, espírito violento, um mau gosto intencional e histórias questionáveis, mas a série antológica de Ryan Murphy e Brad Falchuk foi a franquia de horror correta durante uma década mantendo uma linha que conecta cada nova temporada às predecessoras. 

E agora Murphy e Falchuk criaram uma versão da sua própria série, chamada American Horror Stories, lançada na semana passada no canal FX e no Hulu. A série, que trará novas histórias a cada episódio (e não em cada temporada), teve um início promissor, com Rubber(wo)Man, seus dois primeiros episódios. Ambientada em Murder House, os episódios, claramente com um orçamento menor, mas divertidos, canalizam os elementos mais suculentos dessa temporada, uma paródia do narcisismo de Los Angeles com uma relação de amor e ódio com a velha Hollywood e um romance de adolescentes deliberadamente infeliz impulsionando as maldades sangrentas.

Tradução de Terezinha Martino 

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