Roteiro de "Cruz e Sousa" sai em edição tetralíngüe

É uma iniciativa inédita no País e talvez no mundo - Sylvio Back lança quinta-feira em São Paulo e na segunda-feira, no Rio, a edição tetralíngüe do roteiro de Cruz e Sousa, seu belo filme sobre o poeta catarinense. O filme volta na sexta-feira ao cartaz no Cine Arte Lilian Lemmertz. Já houve muitos livros de roteiros, mas não como esse. O texto de Back sai em português e nas versões em inglês, espanhol e francês. Cruz e Sousa, o poeta do desterro, vira The Banished Poet, El Poeta Proscrito e Le Pote Banni. No texto do filme estão embutidos os poemas do gênio do simbolismo brasileiro. Esses poemas ganham versões exemplares, haja vista o texto que o requintado lançamento da 7Letras estampa na contracapa."Vozes veladas, veludosas vozes/ Volúpias dos violões, vozes veladas/ Vagam nos velhos vórtices velozes/ Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas." As versões imortais ganham novas versões. Em inglês: "Those velvet voices, voices that are veiled/ Garrulous guitars with velvet voices/ Roaming through the vortx-whirl of exhaled/ Wind: living, haughty, volcanic voices." Em espanhol? "Voces veladas, vaporosas vozes/ Volupias de violines,veladas/ Vagan en viejos vórtices veloces/ De los vientos, vanas, vulcanizadas." Em francês: "Voix de velours voilées, voix veloutées/ Voluptés de violons, les voix voilées/ Vaguent sur le vortex en velocité/ Venustés, vivantes vaines, vulcanisées."Na orelha do livro, Back explica que o projeto de publicar esse roteiro tetralíngüe é fruto de uma preocupação que começou a atormentá-lo já na fase da escrita. "Pensei que na hora de subtitular ou dublar o filme para algum festival internacional e na sua posterior circulação externa, a técnica usual de literalmente verter os diálogos iria desmobilizar tanto o beat afro-brasileiro de Cruz e Sousa como a própria sofisticação e o colorido verbal dos seus poemas e prosa poética." Partindo dessa preocupação, ele amadureceu a idéia de entregar a poetas que tivessem familiaridade com o universo de Cruz e Sousa a tarefa de traduzir os versos que fazem as vezes de diálogos. Sua justificativa - "Ninguém melhor do que um poeta para traduzir poesia."Foi assim que foram surgindo e se definindo os colaboradores dessa tarefa essencial - o poeta, professor, editor e tradutor americano Steven F. White para a versão em inglês, o brasileiro Walter Carlos Costa, que estudou na Universidade Católica de Leuven, na Bélgica, com tese de mestrado sobre Guimarães Rosa, para o espanhol, e Leonor Scliar-Cabral e a tradutora brasileira Marie-Hélne Catherine Torres, que atualmente faz doutorado em tradução literária na Bélgica, para o francês.Numa entrevista feita por e-mail, Back diz que esse é o décimo roteiro de sua filmografia que está sendo editado em livro. E acrescenta que, sempre que possível, tenta associar seu cinema com a memória literária dele. "Um filme começa no papel, a escritura do argumento e do roteiro, converte-se depois em celulóide e deve retornar ao papel, para a fruição de uma espécie de leitor/espectador." Considera isso fascinante - ´ler´ um filme antes de filmado ou antes de a gente assisti-lo.Foi por meio do poeta carioca Paulo Henrique Britto, "um cruzesousiano de primeira água", que chegou ao americano White, da Saint Lawrence University, de Nova York. Nas pesquisas para o roteiro, ficou sabendo das versões de Marie-Helne e de Costa, ambos de Florianópolis. Todos aceitaram o desafio e trabalharam um ano inteiro. "E agora, graças ao patrocínio da Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina) e da Editora 7Letras, do Rio, pois não havia previsão orçamentária dentro da produção do filme, o roteiro tetralíngüe de Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro virou um livro de quase 300 páginas, um projeto inédito no cinema brasileiro e na nossa literatura", escreve.O que mais lhe agrada nesse roteiro publicado, e isso Back tem ouvido dos próprios leitores, é que não se parece com um roteiro. "As pessoas o têm lido como se fora um livro de poesias, o que bate com o tônus do filme, que é transformar a obra de Cruz e Sousa em personagem principal, deixando sua vida e morte como panos de fundo." E ele completa - "A versão tetralíngüe, com toda certeza, é um ´passaporte´ lingüístico internacional, digamos assim, que serve não só para catapultar a poesia de Cruz e Sousa do gueto da ´última flor do Lácio´, como diria Bilac, mas definitivamente a insere no panteão dos maiores poetas de seu tempo e fora dele."Se alguma secreta ambição possui o filme, diz Back, é essa de tornar o poeta reconhecido e reverenciado, livrando-o do estigma da perseguição e da injustiça que conheceu em vida e ao longo de todo o século 20. "Imodestamente, estou certo de que estamos chegando lá; Cruz e Sousa nunca foi tão comentado e lido na mídia brasileira." Back não teme afirmar que seu filme pegou o público em geral e a comunidade afro-brasileira, em particular de surpresa. "Os que esperavam uma hagiografia ou um cinema de lágrimas defrontaram-se com um anticlímax." E dessa maneira ele diz que o filme, como o próprio Cruz e Sousa, foi alvo de um surdo e absurdo desprezo, eufemismo que usa para definir um preconceito tão forte quanto o que vitimou o poeta.As críticas atingem até a comissão de seleção do Festival de Havana, ora em desenvolvimento. Back diz que seu filme foi recusado sem ter sido visto. "Logo Cuba, onde os negros escravos vieram das mesmas regiões da África que os trazidos para o Brasil - tanto que Havana parece Salvador falando espanhol." O que considera injustiça não o paralisa - Cruz e Sousa não apenas sai em vídeo, em 2001, como será amplamente veiculado em escolas e universidades pela distribuidora Riofilme. E, possivelmente no dia 13 de maio, Back espera que seja nesse dia, vai passar no Canal Brasil, que acaba de adquirir os direitos.Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro, The Banished Poet, El Poeta Proscrito, Le Pote Banni. Roteiro de Sylvio Back Editora 7 Letras - Autógrafos quinta-feira no Cine Arte Lilian Lemmertz, às 21 horas. Às 22 horas, haverá projeção do filme

Agencia Estado,

13 de dezembro de 2000 | 18h15

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