Rosemberg Cariry lança dois filmes em 2002

O cineasta Rosemberg Cariry chegará aos cinemas brasileiros, em 2002, em dose dupla. Primeiro, lançará o documentário Juazeiro: A Nova Jerusalém. Depois, em junho, promoverá, no 12.º CineCeará, a pré-estréia de Nas Escadarias do Palácio, seu quinto longa-metragem. O novo filme foi rodado ao longo de seis semanas, em Fortaleza e cidades do interior cearense (Maranguape, Tauá, Parambu, Crateús e Quixadá), com recursos captados com instituições francesas (Almecin/ Programa América Latina-Europa de Cinema e a Federação Européia de Redes de Cooperação Científica e Coordenação Tecnológica) e empresas brasileiras (Coelce, Grupo Edson Queiroz, Telemar, Docas do Ceará). Nas Escadarias do Palácio pretende revelar os mistérios da lenda de Lua Cambará (interpretada por Dira Paes) tomando-a "como metáfora da condição feminina". Por isso, diz o cineasta, "o filme expõe o machismo sertanejo e coloca em relevo a fragilidade e a obscuridade das paixões humanas". A obra de Rosemberg Cariry alimenta-se do sertão, de sua gente e de sua produção simbólica. Foi assim no documentário que marcou sua estréia (O Caldeirão de Santa Cruz do Deserto/87) e nos filmes que se seguiram (A Saga do Guerreiro Alumioso/92, Corisco & Dadá/98 e Juazeiro, A Nova Jerusalém/2001). "Minha intenção é desvendar o sertão e revelá-lo em sua universalidade e dramaticidade trágica. Entendo que os mitos e as lendas falam uma linguagem estranha e não racional, mas quando seus símbolos são corretamente traduzidos eles nos conduzem a revelações de verdades essenciais." Na lenda da jovem Lua Cambará "é possível identificar, logo de início, a vertente mítica fundamental: a Lua". Dira Paes comanda, ao lado de Chico Diaz (os dois protagonizaram Corisco & Dadá, segundo longa ficcional de Cariry), elenco que traz a atriz francesa Muriel Racine (Catherine), o romancista paraibano J.W. Solha (de A Canga) como Pedro Cambará e a atriz potiguar Tony Silva (Cabinda). Nelson Xavier e a mulher Via Negromonte aparecem como convidados especiais e interpretam Sidônio & Esmeralda, um casal de ciganos. A fotografia de Nas Escadarias do Palácio traz a assinatura do craque Antônio Luiz Mendes, autor das belíssimas imagens (em preto-e-branco) de O Sertão das Memórias (José Araújo/97). Cariry conta que escolheu Antônio Luiz por entender que "ele tem larga vivência do cinema cearense e é um profundo conhecedor da cultura e da história do povo nordestino". Juntos, os dois elaboraram, para o filme, "projeto estético que se orienta por uso minimalista dos cenários", buscando "inspiração na pintura japonesa Zen (vazios e essencialidades)". A fotografia de interiores alimentou-se de "concepções pictóricas de La Tour". "Nossa opção privilegiou câmeras paradas e movimentos suaves", informa Cariry. Para introduzir Lua Cambará, um personagem condenado, em seu novo filme, Rosemberg Cariry lançou mão de "visão fantasmagórica que aparece com a Lua Nova". Segundo o realizador cearense, "a divindade lunar, arquétipo primordial e universal, é identificada com o princípio cósmico feminino. A Lua é a deusa mãe, senhora das luzes e das trevas, da vida e da morte, da fertilidade e da destruição. Para muitas tribos de cultura primárias ela é vista como a ´primeira mulher´, a causadora do pecado original e da expulsão do paraíso". Para o cineasta e também roteirista do filme, outro aspecto importante a ser destacado é a correspondência do ritmo menstrual da mulher com o ciclo da Lua. "É comum a muitos povos a crença de que a Lua menstrua em seu quarto minguante e que, nessa fase, tem influência sobre toda a natureza. A ´lua vermelha´ é sempre uma ameaça e um símbolo de condenação. É universal a lenda da procissão de espectros errantes, visíveis na fase obscura do astro lunar." Ao escrever o roteiro de Nas Escadarias do Palácio, Cariry pesquisou a presença mítica da Lua em várias culturas e concluiu que "ela é como a rainha dos fantasmas". Exemplifica: "Na Grécia antiga, a Lua aparece como Hécate, a deusa escura, que assombra os viajantes e conduz pela noite uma terrível caravana de fantasmas indagadores." A visão fantasmagórica de Lua Cambará, a protagonista de Nas Escadarias do Palácio, "corresponde à versão sertaneja das procissões dos mortos da Europa medieval". A ela "se mesclam aspectos das religiosidades ameríndia e afro-brasileira, com heranças supersticiosas e mórbidas do catolicismo ibérico", conclui o realizador cearense.

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