Rosemberg Cariry filma lenda cearense

Rosemberg Cariry, o cineasta cearense que abriu o festival com Juazeiro, a Nova Jerusalém, começa a rodar novo longa-metragem em agosto. Trata-se de uma obra de ficção, Nas Escadarias do Palácio, que terá Dira Paes, Chico Diaz e Nelson Xavier no elenco. Será o quinto longa-metragem de Cariry e inspira-se na lenda de Lua Cambará, que, aliás, era o título original do projeto. Mudado por causa da canção medieval francesa Aux Marches du Palais. A alusão é um sinal do cineasta para a aproximação da mitologia sertaneja com a medieval européia, com a religiosidade ibérica fundindo-se à ameríndia e aos cultos afro-brasileiros.Diz a lenda de Lua Cambará, de tradição oral no folclore cearense, que ela foi uma mulher forte, autoritária, e que perdeu sua alma exatamente por desconhecer suas origens. Ela é fruto da violência sexual de um coronel contra uma escrava. Depois da morte da mãe, é recebida na casa do pai que entretanto não a batiza porque ela tem sangue negro. A menina cresce nessa sociedade machista e racista. Seu modelo é o pai, um homem violento e poderoso. Ela incorpora seus valores e tenta renegar a origem materna. Terá destino trágico.A história não vai ganhar versão cinematográfica por acaso. Rosemberg é um cineasta preocupado com a identidade cultural do povo brasileiro. "A tragédia de Lua Cambará é a tragédia do Brasil, país que não se reconhece como mestiço e dono de uma cultura original", diz. "Lua tem vergonha da mãe e quer ser como o pai, branco, europeu e autoritário; termina como uma alma penada." Uma metáfora para o País, segundo um ponto de vista, digamos, mais nacionalista. Atraso total, segundo certo cosmopolismo de fachada.Segundo o cineasta, o orçamento previsto para Nas Escadarias do Palácio era de R$ 1,5 milhão. Só conseguiu captar RS 700 mil - vai realizar o filme com esse budget reduzido. "Não dá mais para esperar", diz. Ao contrário de Juazeiro, a Nova Jerusalém, que foi registrado em diversos formatos e suportes, a lenda trágica de Lua Cambará será inteiramente rodado na bitola mais comercializável de 35 milímetros. A estréia está prevista para novembro de 2001, na França. Para Rosemberg, o mercado externo é mais sensível quando as histórias têm forte característica regional. Ao contrário do que se pensa, produções sem identidade marcada não têm vez no mercado global. Pelo menos é que ocorre com as de pequeno porte, que só podem contar com fatias pequenas e segmentadas de mercado.

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