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Roschdy Zem explica por que fez 'Chocolate' e anuncia que vai dirigir o remake de 'O Invasor'

De ascendência marroquina, ele se tornou aceito e respeitado como 'astro'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2016 | 03h00

Ator e diretor, Roschdy Zem descobriu o teatro aos 20 anos – fará 51 em setembro. No cinema, considera-se cria de André Téchiné, com quem fez J’Embrasse Pas e Minha Estação Preferida. Dirigir era uma intenção nada secreta, e há dez anos ele estreou no longa com Mauvaise Foi/Má Fé. Depois disso, dirigiu mais três filmes, incluindo Chocolate, que o trouxe ao Brasil em junho, para participar do Festival Varilux do Cinema Francês. Chocolate estreou na quinta, 21. Para o cinéfilo brasileiro, o principal atrativo talvez seja a presença de Omar Sy, o astro de Intocáveis, que virou peça com Aílton Graça. Prepare-se, porque há bem mais para descobrir em Chocolate, a começar pelo ator que divide a cena com Sy – James Thiérrée.

Zem não esconde o motivo que o levou a fazer o filme. De ascendência marroquina, ele se tornou aceito e respeitado como ‘astro’, mas sabe bem o que são o racismo e o preconceito que perseguem os magrebinos na França. Quando conversou com o repórter, refletiu sobre a tragédia que representam os ataques do terror, e depois disso veio o bárbaro ataque em Nice. “Existe gente interessada em radicalizar, em criar um clima de guerra civil. E o pior é que o entendimento fica cada vez mais difícil. Nesse quadro, não cabe neutralidade, mas tomar partido muitas vezes dilacera o coração”, disse. Foi, portanto, o racismo que o levou a se interessar por Chocolat, o primeiro negro a virar artista de circo na França. Mas isso, ele sabe, é meia-verdade. Como todos os seus filmes, Chocolate é sobre uma dupla que desenvolve uma ligação de amor e ódio.

“Gosto dessas duplas baseadas na antinomia. Elas não apenas ajudam na dinâmica da narrativa como permitem focar conflitos que são muito fortes na vida social.” Chocolate inspira-se no livro Chocolat, Clown Nègre, de Gérard Noiliel, que surgiu em 2012, com o subtítulo A História Esquecida do Primeiro Artista Negro da França. Seu nome era Kananga, e ele começou assustando o público no papel de canibal, num pequeno circo de interior. Outro palhaço, Footit, percebeu seu potencial e criou um número de dois, formando a dupla do palhaço branco autoritário e do palhaço negro, rebatizado como Chocolat, que sofre com as imposições do primeiro. O duo transferiu-se para Paris, Chocolat estourou, virou celebridade. Consciente de sua força cênica, mas também do racismo implícito no número que representava, tentou se fazer aceito como ator dramático, montando Shakespeare. Não teve sucesso. Para agravar, era perdulário e começou a gastar o que não tinha. Foi preso e humilhado. E começou a decadência.

O cinema imortalizou sua imagem – num filme do pioneiro Georges Méliès. E, embora Roschdy Zem seja sempre atraído pelo tema do racismo, dessa vez ele admite que foi o aspecto humano da história que o moveu. “De certa forma, acho que estou reparando uma injustiça, ao resgatar a figura de Chocolat como artista popular. Ele foi para o circo, ou seja para a arte ao vivo, o que Omar Sy é hoje para o cinema. E tem outra coisa. Um pouco pelo meu tipo, a tendência dos produtores e diretores foi me confinar no gênero de ação, como ‘durão’. Como ator e diretor, quis sempre fugir ao rótulo. E isso também implicava fazer filmes ‘grandes’. Faço dramas, policiais. Aqui, Eric e Nicolas Altmayer (os produtores) me acenaram com a possibilidade de tecer um vasto afresco histórico. Era tudo o que queria.”

Omar Sy também era um ator com quem queria trabalhar. “Depois do sucesso de Intocáveis, ele chegou a um ponto em que pode escolher, não apenas ser escolhido. Omar se associou ao projeto antes de mim, atraído pela gravidade do tema. Fazer rir faz parte da sua natureza, mas ele começa a perceber, como o próprio Chocolat, que sua persona pode ajudar a veicular outros temas, num momento em que a realidade exige da gente comprometimento.” A parceria com Sy foi ‘muito rica’, avalia o diretor, mas ele destaca que não conseguiria levar seu filme ‘grande’ até o fim sem uma colaboração fundamental, e foi a de James Thiérrée.

“James foi uma espécie de codiretor. Ele é neto de Charles Chaplin, filho de sua filha Victoria e de Jean-Baptiste Thiérrée, que criou o Nouveau Cirque. Ele encenou os números de circo. Foi decisivo para mim.” Há uma sugestão de homossexualidade em Footit. “É uma liberdade ficcional, mas com o pé na realidade. Encontrei muitas fotos dele vestido de mulher.” Depois do filme grande, Roschdy Zem volta ao policial. E surpresa – vai fazer a versão francesa de O Invasor, de Beto Brant. “Havia visto o filme há tempos. Gostei muito. Revi, recentemente, e descobri que não apenas não envelheceu como me possibilita, com pequenas mudanças, abordar questões humanas, políticas e sociais que são prementes na França de hoje.”

 

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