Romance marca novo ?Guerra nas Estrelas?

Os outdoors espalhados por todo o País anunciaram a estréia nesta segunda-feira de Star Wars Episódio 2: O Ataque dos Clones. A data foi estrategicamente escolhida ? no começo das férias e logo após o encerramento da Copa. Os mesmos outdoors anunciavam que o ?nosso? baixinho ia dar a maior força para a seleção brasileira. O ?nosso? baixinho, na verdade, é o baixinho da Fox, Yoda, aquele mutante que irrompeu no imaginário do público de todo o mundo no segundo filme da segunda trilogia ? a primeira a ser feita ? da série Guerra nas Estrelas. Yoda ensinava, lá, que era possível mover o mundo só com a força da imaginação.É o que o produtor e diretor George Lucas acredita. Ele foi mostrar O Ataque dos Clones no Festival de Cannes. A sessão foi uma loucura. Na cena decisiva, o baixinho Yoda tem de empunhar a espada luminosa para enfrentar o vilão conde Dookan, interpretado por Christopher Lee. Críticos e jornalistas de todo o mundo aplaudiam e assoviavam como crianças. Transformaram o Palais du Festival, um lugar sagrado do cinema, num cenário de velhas matinês. A partir de hoje, 475 salas de todo o Brasil exibem O Ataque dos Clones. O primeiro filme da primeira trilogia, A Ameaça Fantasma, foi recebido a pedradas há três anos. Não era tão ruim, mas a mídia, de alguma forma, resolveu vingar-se de George Lucas. Motivos não faltaram. Talvez seja preciso engolir agora os desaforos. O Ataque dos Clones é melhor.Lucas, dizem os críticos, foi o homem que destruiu o cinema. Em Cannes, ele chegou para a entrevista coletiva, após a exibição de O Ataque dos Clones, de muito bom humor. O filme estava estreando naquele dia nos EUA, mas Lucas preferiu ir à França. A acolhida da platéia do festival foi um alívio para ele. Admitiu-o. Explicou por que O Ataque dos Clones estava estreando em menos salas (mais de mil) do que O Homem-Aranha. Se não ele, pessoalmente, uma equipe de técnicos formada para isso tinha de aprovar cada sala em que o filme seria exibido. ?Poderia ter tido um número muito maior de salas?, Lucas explicou. ?Mas eu queria só as melhores, aquelas que oferecessem as melhores condições técnicas de som e imagem.?Por que isso? ?Pelo mesmo motivo que me levou a desenvolver todo um projeto de tecnologia de ponta, na área dos efeitos especiais, quando fiz Guerra nas Estrelas, há 25 anos.? Não é um comerciante falando. Quer dizer, é. Mas em Lucas coexistem o comerciante e o artista. Guerra nas Estrelas, de 1977, foi o primeiro filme-evento. Um filme de marketing, se preferirem. O público foi induzido pela publicidade a ver o filme e consumir uma parafernália de objetos a ele associados. Brinquedos, quadrinhos, tudo. A partir de Guerra nas Estrelas, Lucas erigiu seu império. Levou ao paroxismo a tecnologia dos efeitos especiais. A conseqüência foi que Hollywood se infantilizou.Ele sabe disso, mas explica, calmamente, que seu objetivo não é ganhar dinheiro. Já ganhou muito mais do que queria. O que ele quer é contar essa saga que o apaixona. Disse que não revelaria, nem sob tortura, se tem algum preferido entre os filmes da série. Os três primeiros, na verdade, compõem a segunda trilogia: Guerra nas Estrelas, O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi. Por que Lucas começou pela segunda trilogia? ?Porque não existia tecnologia para que eu pudesse começar pela primeira.? Não é só isso. Foi preciso desenvolver os efeitos especiais, indo além de Stanley Kubrick em 2001, Uma Odisséia no Espaço, para tornar a fantasia viável na tela. Isso é verdade. Mas Lucas também sabe que tinha de começar a série pela construção do mito do herói.Teve a assessoria de um mitólogo, Joseph Campbell, para criar a saga de Luke Skywalker, que enfrenta o sinistro Darth Vader, que ocorre ser seu pai. Agora, na outra trilogia ? a primeira, cronologicamente ?, ele conta a história de Annakin Skywalker, pai de Luke, e de como ele virou Darth Vader. Um filme desses é mais difícil. O que Lucas propõe, agora, é a saga da construção do vilão. Ele sabe das dificuldades. Não se intimida com as crúticas negativas que A Ameaça Fantasma recebeu. ?Tudo vai fazer sentido quando a saga estiver concluída.? É o que acredita. Essa história que Lucas tem inteira na cabeça virou sua obsessão desde garoto, quando escolheu o cinema como projeto de vida.Ao formar-se, na escola de cinema, realizou um curta que foi o embrião para THX 118, sua estréia na direção. Ele fez depois Loucuras de Verão, mas retomou a vertente da fantasia científica com Guerra nas Estrelas. Essa visão de um épico espacial, na qual mocinhos e vilões, a República e a Federação se defrontam nas estrelas, nasceu de um monte de influências. Quadrinhos, os filmes que Lucas via na TV, 2001. Kubrick fez um experimento filosófico sobre a origem do homem. Lucas, com Yoda, escolheu mostrar a força da imaginação. Esse é o lado artista.Buscando inspiração no segundo filme da segunda trilogia, O Ataque dos Clones poderia chamar-se O Amor Contra-Ataca. Pois há, aqui, uma trama sobre um exército de clones, encomendado pela Federação para dominar o mundo, mas cuja existência é descoberta por Obi Wan Kenobi, isto é, Ewan McGregor, para a República. A partir daí, há inúmeras cenas de combates e, a bem da verdade, elas são até um pouco longas. Um dia, ao editar a série inteira, Lucas talvez descubra que poderá cortá-las um pouco. A grande, a verdadeira história de O Ataque dos Clones, porém, é a história de amor de Amidala e Annakin Skywalker. Natalie Portman virou uma linda mulher. O estreante Hayden Christensen forma um belo par com ela.Christensen foi muito criticado nos EUA. Não é nenhum ator shakespeariano, mas tem physique du rôle para o papel. É frágil e determinado, o que o torna convincente como homem apaixonado. E tem aquele olhar angustiado que serve à criação de Annakin. A segunda trilogia construía-se no embate entre um filho e seu pai. A primeira agora é entre um filho e sua mãe. Por isso mesmo, embora breves, as participações de Pernilla August, com sua presença humana, são fundamentais. Annakin, nessa primeira série, está pintando como o edipiano típico. Lucas pode apostar na guerra dos clones, mas sabe que um pouco de psicologia é necessário para se entender a gênese do vilão.É uma linda história de amor e, se você acompanha a série, vai querer esperar pelo terceiro filme, que mostrará o momento da passagem, sabe-se lá por qual decepção, de Annakin para o lado escuro da força. Há 25 anos, Guerra nas Estrelas foi definido como um western intergaláctico. Não faltava nem uma cena ? Luke de volta à casa, encontrando só ruínas fumegantes ? que evocava o clássico Rastros de Ódio (The Searchers), do mestre John Ford. Aqui, a referência e a homenagem são outras. Annakin, transtornado pelo que ocorreu com sua mãe, provoca um banho de sangue ? que Lucas sugere, não mostra. Isso vem de Lawrence da Arábia, outro clássico, esse de David Lean, que Lucas também carrega em seu coração de cinéfilo. Evoca a cena em que Lawrence, após ter sido violado pelo bei turco, vinga-se matando meio mundo no campo de batalha. Lean deixava claro que, ao fazê-lo, Lawrence desencadeava um processo de violência que se voltava contra ele mesmo, para destruí-lo como homem. É o que ocorre com Annakin, na sua caminhada para o lado escuro da força. O Ataque dos Clones é uma grande aventura romântica e triste.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.