Romance de Sarney ganha as telas

A maré do litoral do Maranhão écaprichosa: mesmo com todas as previsões, a água do mar costumasurpreender até os precavidos, subindo sete metros antes doprevisto. Foi o que aconteceu em diversas oportunidades com aequipe de filmagem do longa-metragem O Dono do Mar,inspirado na obra de José Sarney. "Em alguns dias, a água subiuquase à altura da câmera, obrigando o pessoal da produção acarregar as baterias na cabeça", lembra o diretor OdoricoMendes. "Em outro momento, chegamos a perder um tripé naágua."Os sustos e o relativo prejuízo material forampraticamente os únicos percalços de um ambicioso trabalho, quedeverá ficar pronto em fevereiro - orçado em R$ 5,8 milhões, aprodução já conseguiu R$ 3,3 milhões por meio das leis deincentivos fiscais. "Estamos conversando com algumas empresas elogo teremos o suficiente para finalizar o longa", acredita oprodutor associado Fábio Gomes, também autor do roteiro, ao ladode Frank Dawe. "Mostramos que a ousadia é um ingredientenecessário mas ainda ausente em boa parte das produçõesnacionais."Uma ousadia que começou, na verdade, com um ato de certapetulância. Depois de se maravilhar com o primeiro capítulo dolivro escrito por Sarney, Gomes decidiu que realizaria a versãocinematográfica. Era 1996, quando ele, figura atuante no meiopublicitário, comprimiu sua obrigação profissional e se entregouà confecção do roteiro. O passo seguinte foi conseguir aaprovação do próprio Sarney.Não foi fácil - o ex-presidente e atual senador(PMDB-AP) não escondia a desconfiança sobre a intenção de umapessoa que lhe era estranha. Sarney sempre se orgulhou daamizade de cineastas (financiou a produção do documentárioMaranhão 66, de Glauber Rocha) e não escondia o desejo dever sua obra adaptada por cineastas como Paulo César Saraceni ouNelson Pereira dos Santos. "Descobri que, na verdade, ele nãofreqüentava o cinema havia 20 anos, por isso só conhecia osnomes mais antigos", conta Gomes que, para reacender o gosto doescritor, convenceu-o a assistir a diversos filmes emvideocassete.Depois de vencer a resistência de Sarney ("Nuncaacreditei que essa história daria um filme, mas fiqueiimpressionado com a proposta desse trabalho", confessa oescritor), Gomes saiu atrás de parceiros para viabilizar oprojeto. Encontrou no produtor Ary Pini um entusiasta. Emseguida, buscou um diretor. Chegou a Odorico Mendes que, comoele, exibia uma carreira publicitária, além de já ter dirigidoum longa-metragem, Sigilo Absoluto (Discression Assured), em 1992, com Jennifer O´Neill e Michael York.A primeira reação foi de resistência - o diretor não seempolgava em dirigir um filme inspirado na obra de um político."Mesmo não tendo lido o livro, eu sofria o mesmo preconceitoque muitas pessoas têm com a obra literária do Sarney", comentaMendes, que desconversou durante um mês até se decidir pelaleitura do roteiro. Quando abriu as primeiras páginas, confessater ficado maravilhado. "Descobri que meu preconceito eracontra o político e não o escritor."O Dono do Mar conta a saga do pescador maranhense,Antão Cristório, que, no final da vida e ainda amargurado com amorte do filho Jerumenho, decide dar as costas ao futuro,preocupando-se apenas em contar sua história. Em uma atmosferade realismo fantástico, o pescador encontra Querente, umfantasma do mar com quem vive uma aventura existencial aodividir as tarefas diárias, e se casa com Camborina, mulhervoluntariosa que traz a irmã, Germana, para morar junto. Oslimites da vida são apresentados por Aquimundo, um velho delongas barbas brancas que representa o tempo."Minha inspiração são as histórias dos pescadores esuas lendas, com os quais convivo desde criança", conta Sarneyque, curioso, passou a freqüentar semanalmente o set defilmagem. "Ele se transformou em um valioso consultor, dandodicas sobre postura e linguagem", comenta o ator Jackson Costa,que interpreta Antão Cristório. "Ele me permitiu descobrir apulsação do meu personagem", completa Alexandre Paternost, quevive o fantasma Querente. Os dois atores, aliás, tambémconfessaram desconhecer a obra de José Sarney até o início dasfilmagens. O elenco conta ainda com Daniela Escobar (Camborina),Regiane Alves (Germana), Odilon Wagner (Aquimundo) e SérgioMarone (Jerumenho), entre outros.O belo litoral do Maranhão foi escolhido como cenáriograças à sua diversidade, que abriga tanto a brancura das dunase o verde dos manguezais como a lama preta povoada decaranguejos, nas encostas dos rios. Três vilas cenográficas debarro e palha foram construídas, em Mojó, Jararaí e Itaquaritua.No total, foram nove locações diferentes, incluindo cenasrodadas no Parque Nacional dos Lençóis.A produção atraiu a população local que, além dacuriosidade natural, participou ativamente das filmagens, tantocompondo a figuração como no exótico fornecimento de animais."Alugamos os animais dos próprios moradores para compor ascenas", conta Fábio Gomes, que estabeleceu uma curiosa tabelade cachês: R$ 2 pelas galinhas, R$ 5 pelos porcos e R$ 10 paracada vaca. "Como os animais conhecem o ambiente, não houvenenhum problema de adaptação."Para as cenas de maior impacto, como as de tempestade ede naufrágio, a produção decidiu construir um tanque especial.Trata-se de um modelo, segundo Gomes, e dele só existem outrosquatro no mundo: dois nos Estados Unidos, um no México (ondeforam rodadas as cenas do naufrágio de Titanic) e outro nailha de Malta. O produtor Ary Pini pesquisou durante dois meses,em Los Angeles, até descobrir o melhor modelo de tanque."Os americanos ficaram céticos com nossas soluções",comenta Gomes, referindo-se aos quatro tratores responsáveispela movimentação da água do tanque. "Como uma aparelhagemespecífica aumentaria demais os custos, optamos por essasolução." Com isso, a construção custou R$ 140 mil e, segundo oprodutor, deverá permanecer para ser utilizado para futurasfilmagens. "Nosso objetivo é estabelecer um pólo de cinema emSão Luís, que pode começar justamente com esse tanque." O repórter viajou a convite da produção

Agencia Estado,

24 de setembro de 2001 | 16h41

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