Roman Polanski filma agonia em Varsóvia

Havia tempos que Roman Polanski sonhava com a realização de um filme sobre o gueto de Varsóvia. Ele próprio um sobrevivente da barbárie nazista, achava importante dar seu testemunho, exorcizar o horror da experiência mas temia perder toda objetividade se embarcasse num relato muito pessoal. Foi então que teve acesso à experiência do pianista Wladyslaw Szpilman, que também foi confinado no gueto.Mas Szpilman era reticente em relação ao projeto. Achava que Polanski não deveria ter medo de ser autobiográfico. Ele morreu há um ano, mas deixou seu testemunho num livro chamado The Pianist. Foi justamente esse livro, um best seller, que Polanski resolveu adaptar. O diretor iniciou hoje a rodagem de O Pianista.O filme conta a história de um músico confinado com a família no gueto de Varsóvia, durante a ocupação da Polônia pelos alemães. Ele experimenta todo tipo de sofrimento e humilhação, mas escapa de ser deportado para os campos da morte. De alguma forma, a música lhe dá forças para sobreviver. "Era a história que eu procurava", disse Polanski. "É o relato de uma experiência humana diante da morte, fala do poder da música, da luta pela sobrevivência sem nenhum desejo de vingança e até possui humor." Será uma produção de 38 milhões de euros bancada por produtores da Alemanha, da França e da Inglaterra. Mais uma vez, Gene Gutowski, que acompanha a trajetória artística e pessoal de Polanski há anos, é o produtor executivo. Ele também estava na mesa. Acredita na possibilidade de realização de um belo filme. Polanski precisa disso. Talvez, ao debruçar-se sobre o próprio passado, mesmo baseado no relato de outro, ele consiga renascer como criador. Uma segunda chance.O diretor iniciou sua carreira na Polônia, com curtas e um longa (A Faca na Água) que inscreveram seu nome entre os grandes talentos do cinema no começo dos anos 60, quando a nouvelle vague estabelecia, a partir da França, um novo conceito de liberdade cinematográfica. Logo, a carreira internacionalizou-se e Polanski foi realizar seus clássicos nos EUA - O Bebê de Rosemary e Chinatown, sua obra-prima. De volta à Europa, ainda fez O Inquilino, mas os últimos filmes têm sido decepcionantes. Lua de Fel, A Morte e a Donzela (o menos ruim), O Último Portal.Nos seus melhores filmes, Polanski revela uma profunda atração pelo mal. E usa o humor como arma. O Bebê de Rosemary foi o pioneiro desses filmes sobre satanismo (e permanece como um dos melhores). Em Chinatown, o diretor criou, por meio do personagem (Noah Cross) interpretado pelo lendário John Huston, uma das mais perfeitas representações do mal em sua carreira. O mal está de volta com o nazismo, mas Polanski afirma ter encontrado no livro de Wladyslaw Szpilman a ausência de ressentimento que achava necessária para tratar do assunto com objetividade.A rodagem deve estender-se por quase dois meses, em cenários construídos para recriar o gueto da capital polonesa. O roteiro prevê cenas com mais de mil figurantes, mas Polanski diz que seu objetivo não é a grandiosidade. "Mil pessoas em cena vão multiplicar a brutalidade e a humilhação do nazismo." Não deixa de ser curioso assinalar que o filme de Annaud, embora mal sucedido, também remexe nas feridas do nacional-socialismo.Alguns nomes da equipe de O Pianista vêm de A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, também sobre o Holocausto. O desenhista de produção Allan Starski chegou a ganhar um Oscar por seu brilhante trabalho de recriação dos campos da morte. A figurinista Anna Sheppard foi indicada para o prêmio, mas não recebeu a estatueta dourada da Academia de Hollywood. "Talvez receba agora - o trabalho dela é maravilhoso", diz o diretor. Polanski também não poupa elogios ao roteiro de Ronald Harwood. Diz que, desde o de Robert Towne para Chinatown, nunca mais tinha visto trabalho tão bom.Mais de mil atores foram testados ou simplesmente cogitados para fazer o protagonista. Polanski decidiu-se por Adrien Brody. Está seguro de que fez a coisa certa. O ator de O Filho de Sam, de Spike Lee, e Pão e Rosas, de Ken Loach, não é só talentoso. Também é camaleônico, possuindo essa qualidade rara que lhe permite assumir os mais diferentes papéis sem repetir-se. Polanski está otimista. Acha que O Pianista tem jeito de ser um bom, talvez um grande, filme.

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