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Roma traz a história de um país pela da família, é um luxo de filme

Faz diferença ver o filme na TV ou no cinema? Com certeza, mas quanto?

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2018 | 03h00

Na tela do cinema, tudo fica maior, e a imagem e o som podem ser usufruídos na sua totalidade. Talvez não seja a mesma coisa para usuários da Netflix. A provedora global de filmes e séries via streaming, atualmente com mais de 100 milhões de assinantes, chega ao seu público por outras telas. Graças a um a deferência especial – contratual –, Roma teve lançamento nos cinemas e termina nesta quarta sua temporada no Kinoplex Itaim.

Isso permitiu que o filme chegasse ao Globo de Ouro e esteja ‘papando’ prêmios de associações de críticos. Não apenas nos EUA. Entrou na lista de melhores do ano do Divirta-se, do Estado. Com toda certeza irá para o Oscar. Faz diferença ver o filme na TV ou no cinema? Com certeza, mas quanto? Logo na abertura, Cleo, a doméstica, lava o piso da garagem onde fica o carrão da família. O lugar é estreito, o carro é largo. Exige muita perícia para ser estacionado. Na água estagnada no piso, por um momento, vislumbra-se a passagem de um avião.

Quase não se nota na TV, mas se Alfonso Cuarón colocou a informação é porque ela faz algum sentido. Há outro avião, no desfecho, quando Cleo está subindo a escada para o terraço em que lava a roupa. Cleo que estás en el cielo. Cuarón, de 57 anos, é casado – desde 2011 – com Sheherazade Goldsmith. Pode ser mera coincidência, mas Xerazade, na mitologia, é a narradora das 1001 Noites. Como contador de histórias, faz todo sentido que o cineasta tenha sido atraído por ela.

A história de uma família – a dele –, pelo olhar da doméstica, Cleo. Pai e mãe separam-se, a própria Cleo arranja esse namorado que a leva ao cinema. Ela engravida, ele some. Só reaparece como integrante das milícias que promovem o massacre de estudantes de Corpus Christi, o chamado “Halconazo’, na Cidade do México, em 1971. O filme mistura o público e o privado. A história da família é também a do México. Se as mulheres (a babá, a mãe) forjaram a sensibilidade de Alfonso, o mundo em que ele se criou, fundamentado na injustiça social, também ajudou a definir o propósito humanitário de seu cinema.

Fotografado em preto e branco – um luxo de imagem –, Roma tinha tudo contra. Por um desses milagres de que a arte está cheia, deu tudo certo. Cuarón fez filmes pequenos como E Sua Mãe também, grandiosos como Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Nessa era de tantas fantasias científicas, depois de Stanley Kubrick – 2001 –, talvez nenhum outro cineasta tenha encarado o desafio da epopeia espacial como ele em Gravidade. Não por acaso, ganhou o Oscar de direção. Roma é dedicado à babá que inspirou Cleo, Libo. Só um grande artista para nos fazer compartilhar, com elevado grau de fruição estética, a emoção.

Numa cena admirável, Cleo entra no mar para salvar as crianças. Não importa que não saiba nadar. Age no instinto. Depois, chora. “Yo no lo quería” (o próprio bebê). As Cleos do mundo não têm tempo para ser mães porque estão criando, com amor, os filhos dos outros. Mas raros são Alfonsos, como Cuarón.

 

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