Luciana Prezia/Estadão
Luciana Prezia/Estadão

Rodrigo Teixeira, o homem da produção do cinema

Com um pé no mercado indie dos EUA e uma carteira de 10 filmes para 2019, ele encarna o novo modelo de produtor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2019 | 04h00

Ele é o mais internacional dos produtores brasileiros. Por meio da sua RT Features, Rodrigo Teixeira tem sido parceiro de grandes como Martin Scorsese e Olivier Assayas. Somente neste ano que se inicia, a RT tem cinco filmes para lançar e outros cinco que vai realizar. Uma carteira de dez filmes não representa pouca coisa e, mesmo que a imensa maioria seja de projetos internacionais, Teixeira é o primeiro a saber que seu modelo é o sonhado pelos novos dirigentes que ditam as regras da economia de mercado no Brasil. Um cara que não está passando o pires, que coloca dinheiro do próprio bolso, que ganha e perde na roda-viva da economia?

Queridinho do Festival do Rio, da Mostra, de Sundance (como santuário da produção independente), ele talvez ainda precise de apresentação, e justamente no Brasil, embora tenha produzido um dos filmes mais comentados do ano passado – Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino – e esteja prestes a iniciar o novo Assayas, adaptado do best seller de Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Justamente esses dois. Dias antes do Natal, Teixeira postou sua foto com eles num café de Paris. Para se exibir? “O Luca e o Olivier trabalham comigo, se tornaram amigos, e são pessoas que não estão ali pelo glamour, não. É oficio, a gente sair para bater papo. Não estávamos num restaurante super ‘trendy’, estávamos num encontro para um drink pós-jantar. É natural para mim, depois que trabalhei com diretores com quem consegui estabelecer essa relação de amizade, que a gente se encontre quando estou na cidade deles. Não tem nada de especial nisso.”

Como Teixeira chegou ao cinema? “Eu estudei Administração de Empresas, não sou formado, mas estudei e acho que isso me ajuda. Na verdade, o que me ajudou muito mais a pensar um cinema nesse formato de administração foram as pessoas que acreditaram em mim e me obrigaram a pensar com uma cabeça financeira, tentar mesclar o lado artístico com o lado financeiro.” E quem foram essas pessoas? “Sempre fui apaixonado por cinema, mas tive duas pessoas que foram fundamentais, o pai de uma amiga minha de escola, o Paulo Brito, que vinha financiando cinema nacional nos anos 90 e me recebeu no escritório dele, um garoto de 21 anos, gostou do que eu tinha para falar e me apresentou para o Mauricio Andrade Ramos, então o principal produtor da Videofilmes, produtora do Walter Salles. A partir daí, tive de me virar, obviamente. Outras pessoas foram importantes, mas esses dois foram responsáveis por me introduzir no mercado do audiovisual.”

Por que, no Brasil, existe esse clamor tão grande contra as leis de incentivo? “Existe um clamor contra qualquer atividade cultural, devido ao posicionamento político que a classe artística tomou, eu inclusive. O cinema não usa a Lei Rouanet, mas, se você está captando na legalidade, não tem o que falar. Pode-se discordar do modelo, mas é lei, e supertransparente. Quanto à Ancine, à Lei do Audiovisual e ao Fundo Setorial, são recursos que a indústria cinematográfica gera e que a gente reinveste no cinema nacional, gerando milhares de empregos, e lucro para o País. Acho que esses recursos são muito importantes, e não podemos esquecer que cultura é educação. Obviamente, acho que existe uma balança que precisa ser discutida, assim como seu formato, mas são recursos importantíssimos. Sem eles, a indústria que está se formando do audiovisual acaba, não existe mais. A produção independente de cinema e TV no Brasil necessita do FSA.”

O método de captação é diferente nos EUA? “Lá, a captação é privada, pode ser de um estúdio, de um miniestúdio, de um investidor privado, pode ser investimento da minha empresa, combinado com incentivos regionais, que seriam um ‘tax rebat’ e que variam de região, dependendo do Estado onde você vai filmar. Mas é sempre uma relação econômico-financeira e o cinema independente que eu faço é financiado parcialmente por recursos privados, pode ser tanto da RT Features, quanto de investidores que fazem parceria com a gente e financiam o filme. Quando filmamos Ad Astra, que é um filme maior, fizemos um acordo com o estúdio, que assumiu o filme, virou seu dono e nos remunerou como prestador de serviço. Ad Astra foi a minha primeira incursão em Hollywood e é um tipo de cinema que eu agora talvez faça mais.”

Só para se ter uma ideia do seu gosto, qual o seu filme preferido? “Meus filmes favoritos são O Poderoso Chefão 1 e 2, é meio um clichê, mas são filmes que revejo todo ano e sempre aprendo alguma coisa com eles.” E que filme você gostaria de ter produzido? “É difícil pensar numa coisa dessas, mas, por mais que eu goste dos Chefões, o filme que gostaria de ter produzido, pela aventura, seria o Apocalypse Now, também do (Francis Ford) Coppola. Aquela experiência deve ter sido única.” E como você escolhe os projetos? “Criamos uma curadoria. O que a RT Features tenta ser é uma produtora com uma assinatura, para que você reconheça os filmes que a gente faz e não necessariamente estamos fazendo filme só pela bilheteria, até porque tem outras formas de ganhar dinheiro com cinema. No mercado brasileiro, você vai até a bilheteria para ganhar dinheiro, mas, no exterior, não. Muitas vezes, você vende seu filme antes de ele sair e você já se remunerou, então são modelos diferentes.”

O que a RT busca é uma balança. “Quero fazer um cinema que alcance o público e que seja de qualidade, como o Me Chame pelo Seu Nome e The Witch, que tiveram essa receita no exterior, e, no Brasil, o Alemão, de José Eduardo Belmonte, com Cauã Reymond. Acho que precisamos entender o nosso país e fazer filmes que retratem a realidade – essa é a minha intenção no cinema brasileiro. Tentar ao máximo fazer filmes que retratem o que está acontecendo, filmes contemporâneos que eu gostaria de ver, mesmo que tenha de produzi-los.”

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FILMES PRONTOS PARA SER LANÇADOS

Ad Astra, de James Gray, épico de ficção científica com Brad Pitt e Tommy Lee Jones

The Lighthouse, de Robert Eggers, novo terror do diretor de The Witch/A Bruxa

A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, baseado no romance de Martha Batalha

Bergman Island, de Mia Hansen-Løve, ficção ambientada na ilha em que o grande diretor viveu e realizou alguns de seus clássicos

Port Authority, de Danielle Lessovitz, segundo filme da parceria com Martin Scorsese

 

FILMES QUE SERÃO REALIZADOS EM 2019

Wasp Network/Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Olivier Assayas, baseado no best seller de Fernando Morais

Alemão 2, de José Eduardo Belmonte

Blood on the Tracks, de Luca Guadagnino, baseado no icônico álbum de Bob Dylan, de 1975

Cadeira Escondida, de Gabriela Amaral Almeida

Emicida, de Aly Muritiba

 

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