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Rodrigo Siqueira reinventa-se com o contundente ‘Orestes'

Ele dirigiu, também, o premiado ‘Terra Deu, Terra Come’

Luiz Carlos Merten

24 de setembro de 2015 | 07h00

Rodrigo Siqueira admite estar cansado. Nos últimos tempos, ele aposentou a casquete de diretor e assumiu a de distribuidor. Foi preciso. Apesar dos elogios dos críticos, seu filme Orestes parecia condenado a uma carreira agônica no mercado. “Conversei com alguns distribuidores e eles diziam que o filme se destinava a um público limitado.” Foi um pouco o que ocorreu com o premiado Terra Deu, Terra Come, que Siqueira fez antes. Os críticos não pouparam elogios, mas o filme circulou modestamente – isso até que o diretor tenha feito cópias em DVD que distribuiu para ONGs e associações pelo Brasil. Criou-se o tititi e o alcance foi significativo. Para tentar tirar Orestes do gueto, Siqueira virou distribuidor do próprio filme.

Tem viajado muito, promovido debates. Está cansado, vale repetir – mas feliz. “Vou conseguir lançar Orestes com 12 ou 13 cópias. O filme entra em São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Fortaleza e São Luís (Maranhão). Na semana que vem, entra no Recife e, até em São Paulo, há uma possibilidade de que o pequeno circuito seja ampliado.”

É tudo o que Siqueira deseja. Em Terra Deu, Terra Come, ele abordava o mito e o associava às estruturas arcaicas que ainda regem o princípio da propriedade rural (produtiva, improdutiva) no Brasil. Em Orestes, retoma o mito, mas agora numa narrativa mais aberta e intencionalmente política. “O filme lida com os conceitos de democracia e Justiça. Tem a ver com o que ocorre atualmente no País.”

Já na época de Terra Deu, Terra Come, Siqueira pensava no próximo filme e se convencia de que deveria ser uma história de julgamento. “Minha intenção inicial era fazer um filme sobre o julgamento de Carla Cepollina, acusada pela morte do coronel Ubiratan Guimarães, que chefiou a invasão que resultou no Massacre do Carandiru, em 1992.” O filme não foi adiante, mas Siqueira seguiu com o desejo de discutir os meandros da justiça e também temas como a violência urbana, as falhas do atual sistema judiciário e das polícias, as sequelas da ditadura militar e, por fim, mas não menos importante, os diferentes conceitos de justiça por parte da população.

“Comecei a pesquisar sobre julgamentos simulados e descobri que eles são frequentes nas escolas de Direito, só que muitas vezes são julgamentos baFoi nessa época seados em crimes passionais.” que ele também descobriu a Oresteia, de Ésquilo, e foi aí que o filme que queria fazer, mas não sabia como, começou a tomar forma. “A trilogia de Ésquilo foi representada pela primeira vez em 485 a.C. Na mitologia, Orestes matou a mãe para vingar seu pai e foi julgado por 12 cidadãos de Atenas, sendo absolvido pelo voto de Minerva. Esse julgamento foi decisivo para a consolidação da democracia de Atenas. Instituiu o primado da lei formal sobre os desígnios dos deuses (e das fúrias). Acho que estamos vivendo um momento parecido no Brasil. Precisamos fortalecer nossa democracia contra todos os riscos. É disso que o filme trata.”

Documentário? Ficção? Siqueira trabalha nas bordas. Seu ponto de partida é o julgamento do ex-Cabo Anselmo, guerrilheiro que se revelou colaborador do regime militar. Partindo dessa base ‘real’, o diretor criou uma ficção que atualiza a Oresteia. Nela, há uma inversão de gênero e Orestes é julgado por assassinar o pai, em represália à morte da mãe, que ele teria planejado. Na sua trama, o diretor criou provas jurídicas que foram utilizadas num julgamento simulado na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, tendo esse novo Orestes como réu. Mas isso é só parte do filme. Na outra ponta, um grupo heterogêneo, formado pela filha de uma militante política traída e executada, um policial, uma defensora da pena de morte, um ex-preso político e pais que perderam os filhos em circunstâncias violentas, todo esse grupo participa de um psicodrama. Em linguajar psicanalítico, denomina-se assim a técnica que utiliza a representação dramática para explorar as emoções pessoais de pacientes.

Desde a exibição do filme no É Tudo Verdade e, mais recentemente, nos debates que têm realizado para promover Orestes nas praças em que será lançado, Siqueira percebeu que seu filme tem uma personagem fortíssima. A defensora da pena de morte não deixa ninguém indiferente. “Ela expressa de forma veemente posições antagônicas de boa parte da população brasileira, para não falar da maioria, em questões prementes como repressão da polícia, maioridade penal e outras.” Há uma exasperação do debate. Muita gente se enerva quando ouve falar em direitos humanos aplicados a criminosos. Querem saber dos direitos das vítimas, mas é tudo muito complexo. Quem são as vítimas quando a polícia desaparece com inocentes ou planta evidências contra jovens trabalhadores cujo crime – mas é crime? – é a pobreza e a cor escura da pele.

Há tanto que discutir sobre os aspectos legais e políticos de Orestes que uma coisa tem sido (quase) negligenciada, e é visceral, tratando-se de um filme. A combinação de tragédia grega com filme de julgamento, a mistura de documentário e ficção. “Minha maior preocupação foi evitar que o filme político se tornasse panfletário”, esclarece o diretor. “Porque se eu fizer um panfleto para qualquer causa ou corrente política perco a chance de levar a questão para um público muito maior. Faço documentários para abordar as questões com o maior grau de complexidade que conseguir. Desconfio da facilidade e espero que minha abordagem seja compartilhada com um público amplo, capaz de debater aquilo que estou propondo.” Orestes nasceu sob o signo dessa riqueza. É um filme político que honra essa tradição e, principalmente, o cinema.

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