Alien Arruda/ Netflix
Alien Arruda/ Netflix

Rodrigo Santoro e Christian Malheiros protagonizam filme sobre tráfico humano na Netflix

‘Estamos tocando numa ferida muito profunda que é a desigualdade social’, diz Santoro sobre ‘7 Prisioneiros’

Bárbara Correa*, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 20h00


Quarenta milhões de pessoas são vítimas do trabalho escravo contemporâneo no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). No Brasil, mais de 55 mil vítimas foram resgatadas entre 1995 e 2020, de acordo com o Radar da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho (SIT).

Os trabalhadores libertados são, em sua maioria, homens de 18 a 44 anos de idade, migrantes internos ou externos, que deixaram suas casas para a região de expansão agropecuária ou para grandes centros urbanos, atraídos por falsas promessas de emprego e melhoria de vida.

Essa é a história retratada em 7 Prisioneiros, o novo filme da Netflix que estreia nesta quinta-feira, 11. Estrelado por Rodrigo Santoro e Christian Malheiros, o longa é dirigido por Alexandre Moratto e produzido por Fernando Meirelles

Na trama, Malheiros interpreta Mateus, um rapaz do interior de São Paulo com poucas perspectivas na vida, que aceita um trabalho na capital levado por um conhecido, junto com outros três rapazes.

Ao chegar no ferro-velho de Luca (Rodrigo Santoro), os quatro percebem que foram enganados e que têm “dívidas” com o patrão, como despesas inflacionadas com a moradia que dividem, a comida, o transporte até lá e entendem que não vão ter salário. 

Então, Mateus é forçado a tomar a difícil decisão de trabalhar para o homem que o escravizou ou arriscar seu futuro e o de sua família. Segundo o diretor, o filme é fruto de muita pesquisa e, no elenco, um dos atores foi realmente vítima do tráfico de pessoas.

“Refugiado da Bolívia, quando chegou em São Paulo, foi trancado em uma oficina de costura durante 6 meses.Tomaram toda documentação dele e falaram que se ele saísse para denunciar, a policia ia matá-lo. Fiz questão de contar a história dele pra todo mundo ouvir e trazer essa autenticidade pro filme”, explicou Alexandre.

São Paulo e a exploração

Apesar do longa retratar somente a capital paulista como cenário da exploração, Moratto afirma que “toda sociedade do mundo foi construída através de mãos exploradas, mãos escravizadas. Isso continua até hoje, só que, atualmente, não queremos encarar”. 

“Não é só São Paulo, mas o Brasil. Toda base do País é a escravidão. O Brasil não teria tido o ciclo do pau brasil, ciclo da cana, do ouro, que foram a base desses ciclos econômicos, sem escravos. O Brasil está fundamentado em cima do trabalho escravo e continua”, afirma o produtor. 

Fernando Meirelles ainda destaca a relação dos protagonistas Lucca e Mateus para ilustrar a complexidade dessa exploração, uma vez que, no decorrer da narrativa, o personagem de Christian acaba tendo a mesma trajetória de seu traficante. 

Mateus: herança colonial e a transformação do poder

“O Matheus representa justamente uma herança colonial do nosso País e a gente ainda não tocou nessa ferida. Ele representa muito essa herança da pessoa que é sonhadora e cai nesse lugar sendo obrigado, humilhado, exposto a situações de vida ou morte, tentando sobreviver dentro dessa engrenagem”, diz Malheiros. 

O ator conta que o papel proporcionou a ele grandes reflexões para além da desigualdade, mas também questionamentos como: “De onde vem o que eu consumo? Será que estou financiando a escravidão moderna?”; “Sou outra pessoa depois deste filme”, conclui. 

“Estamos falando de vidas, de pessoas e, principalmente, de sonhos”, acrescenta. Para Fernando Meirelles, esse personagem é uma metáfora da transformação que a tomada de poder proporciona. 

“Quantos políticos ou partidos a gente vê que começa muito ligado a sua comunidade, mas, com o passar do tempo, não tem mais nenhuma relação com a sua base, parece que vira uma transformação e o poder corrompe, de fato”, inicia. 

“O Mateus simboliza esse processo, o filme mostra os dilemas que a pessoa passa até ir se sujeitando a essa corrupção. Esse aspecto do longa me encanta, porque vale pro Brasil e também para qualquer parte do mundo. Essa relação de poder é muito real”, afirma. 

Lucca: sobrevivente e produto da exclusão

“O Lucca é uma peça numa grande engrenagem. O filme revela camadas de uma estrutura de poder perversa e ele é parte dessa engrenagem. O Lucca é um explorador, mas é consciente das coisas terríveis que faz e não deixa de ser um sobrevivente, não deixa de ser um produto de um sistema desigual e excludente”, explica Rodrigo Santoro. 

O diretor Alexandre Moratto concorda e reitera que o explorador retrata a complexidade da relação entre “mocinho e bandido”. “Lucca é alguém que sacou que esse sistema favorece uma pessoa em cada cem. Ele representa um sobrevivente”, diz.

“Eu não acho que ele acordou um dia e falou ‘quando eu crescer, quero ser um traficante de seres humanos’. Ele se encontrou nessa situação e é justamente isso que o filme está falando. É todo um processo de um sistema em que eles se encontram e o personagem é uma pessoa que achou o caminho dele, que era o único dentro das possibilidades”, alega.

3 perguntas para: Rodrigo Santoro

Como foi interpretar um traficante de pessoas?

Este é um dos maiores aprendizados que já tive trabalhando. De maneira nenhuma eu tentei procurar uma forma que o personagem encontrasse redenção, nada justifica o que ele faz, mas procurei humanizá-lo.  

Qual foi o seu maior desafio para compor o personagem?

No meu trabalho de ator, eu me proponho a me experimentar no lugar do outro e o outro não só estava distante, como foi difícil não julgá-lo, difícil não ficar com raiva. Então, foi um trabalho doloroso, tive dificuldade em me reciclar internamente. Sim, é só um personagem, mas eu estava ali, me emprestando para aquilo. Mas, neste momento, eu fico feliz de ter feito, acho que valeu a pena.

Qual é a lição que podemos tirar de ‘7 Prisioneiros’?

A gente está falando do trabalho análogo a escravidão, mas, no fundo, estamos tocando numa ferida muito profunda que é a desigualdade social. Estamos levantando esse cenário terrível de violação grave dos direitos humanos e, ao mesmo tempo, acho que a dor sai como um dilema moral, porque o filme toca nessa ferida.

 

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