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Rodolfo Nanni resgata sua história no livro 'Quase um Século'

Diretor do mítico 'O Saci' viaja nas lembranças e tece uma bela história que abarca tudo - família, arte e o Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2015 | 03h00

Atualizado às 19h30

Beto Brant, que foi seu aluno na Faap, Fundação Armando Álvares Penteado, define-o como um dândi e de Rodolfo Nanni se poderia dizer que é um cavalheiro na melhor tradição inglesa - um gentleman. Não é a menor das surpresas de Quase Um Século, a viagem de Nanni em suas lembranças. Sob o título, um subtítulo - Imagens da Memória. Nanni conta tudo? “Não é uma autobiografia”, ele adverte o repórter. Nanni reflete. O gentleman nasceu numa modesta família de imigrantes italianos. O pai tinha um armazém de secos e molhados. A casa era bem situada, no que é hoje uma área nobre de São Paulo - a Rua Oscar Freire. 

O primo e padrinho foi um escultor importante - Victor Brecheret. Talvez por isso o garoto Rodolfo conheceu/conviveu com figuras míticas do Modernismo. O pai apoiou-o quando resolveu estudar pintura em Paris, mas Nanni conta que a ida para a França foi meio uma fuga. Ele amava uma pintora, Tereza, cujo pai era ligado a figuras importantes da era Vargas. O pai também era contra a ligação da filha com o garoto paulistano. Até a polícia política entrou em cena. Foram para a França, onde Nanni se converteu ao cinema.

O gentleman conviveu a vida toda com a dificuldade. Tem projetos que não saem por falta de recursos. Sua última entrevista ao Estado foi quando buscava patrocínio para O Olhar Antropófago. O filme sobre a modernista Tarsila do Amaral está empacado, bem como A Cidade Ilimitada, sua ficção sobre São Paulo. Nanni pode ter vivido em Paris e Roma, pode ter viajado o mundo, mas ama sua cidade, que quer mostrar na tela numa ficção que reúne diversos personagens - o milionário, o intelectual, o operário, o jornalista e um sujeito que não sabe o que quer. Como todo roteiro de Nanni, o de Cidade Ilimitada - São Paulo sem limites - baseia-se em suas vivências, no que ele aprendeu sobre o homem e o mundo.

Quase Um Século começou a nascer há um par de anos, talvez um pouco mais. Já que os filmes não saíam, Nanni começou a redigir suas memórias. “A lembrança é como um novelo”, ele diz. “Quando a gente começa a desfiar, não para mais.” Amigos, inclusive o Secretário de Estado da Cultura de São Paulo, Marcelo Araújo, o incentivavam. A mulher foi fundamental no processo - Anna Maria Kieffer. “Marcelo sempre teve uma ligação muito forte com as artes visuais. Anna fez a cabeça dele, relatando minha experiência com os modernistas. Marcelo nos orientou a inscrever o projeto de livro na Lei Rouanet. Eu escrevia com calma, sem compromisso. De repente, ele veio com a nova de que o livro já tinha patrocínio e teria de sair logo.”

Talvez seja a única crítica que se possa fazer a um livro tão caprichado quando Quase Um Século. Capa dura, papel bom, riquíssimo em ilustrações. Beto Brant, em seu depoimento sobre o antigo professor, diz que a força do cinema está em nos libertar do inexorável avanço do tempo. Ele chega a dizer que Nanni, em O Retorno, de 2008, cria uma percepção mágica do tempo. Essa mesma magia se manifesta no começo do livro, na história da família, do bairro, dos amigos. Mas, de repente, e talvez pela necessidade de concluir o livro, Nanni meio que atropela a elegante calma de sua narrativa.

Esse homem teve o que se pode definir como uma vida notável. Foi aluno de Anita Malfatti, Axl Leskoschek e Arpad Szenes, colega de Carlos Scliar e Mário Gruber. Em Paris, participou da Associação Latino-Americana e conviveu com Jorge Amado, Pablo Neruda e Nicolás Guillén. Frequentou o IDHEC, o Instituto de Altos Estudos Cinematográficos. Na Itália, ligou-se ao grupo do neorrealismo, foi amigo de Cesare Zavattini e Sergio Amidei. De volta ao Brasil, no começo dos anos 1950, fez um filme mítico - O Saci, adaptado de Monteiro Lobato. Seu assistente, um certo Nelson Pereira dos Santos, fez a carreira que se sabe, ajudando a fundar o Cinema Novo.

Nanni não foi apenas testemunha das mudanças que mudaram a face do País. De volta da Europa, frequentava um bar da Avenida Angélica em que seus companheiros de mesa eram Thomas Farkas e Fernando Henrique Cardoso, com a namorada, Ruth. Discutiam o Brasil, que queriam mudar. Nanni fez mais um filme mítico nos anos 1950, O Drama das Secas, tema retomado em O Retorno. O encontro com Josué de Castro, o geógrafo da fome, foi decisivo. Pesquisando a miséria no mundo, fortaleceu as convicções que sempre o levaram a contestar a desigualdade social.

Aos 90 anos - nasceu em 1924 - , nunca deixou de lutar pelo Brasil, e pelo cinema brasileiro. Como imagens na memória do autor, o livro resgata vários desses momentos. Para o cinéfilo, é fascinante ouvir os relatos de Nanni sobre grandes artistas, desde uma estrela como Lucia Bosè a diretores como os italianos Pier-Paolo Pasolini e Bernardo Bertolucci e os brasileiros Walter Hugo Khouri e Rubem Biáfora. Esse último, Nanni visitava na antiga redação do Estado. Sua emoção - no começo de dezembro, no lançamento de Quase Um Século, ficou mais de quatro horas dando autógrafos. “Não sabia que era tão querido”, diz, com modéstia. Querido e importante, Nanni é mais que parte da história. Ele é a História.

Quase um Século - Imagens da Memória

Autor: Rodolfo Nanni

Editora: Akron (240 págs., R$ 50)

Mulher do artista tem projeto musical dos mais ambiciosos

Foi o cinema que aproximou Rodolfo Nanni e Anna Maria Kieffer. Ele havia emprestado sua casa para Walter Hugo fazer a pré-produção de As Amorosas. Anna foi fazer um teste como atriz. Não foi selecionada, mas desde então, e lá se vão 45 anos, tem sido a companheira de Nanni.

Com sua música e seu saber em tantas áreas, Anna tem tido presença marcante na vida criativa do marido. Agora mesmo, desenvolve um projeto erudito - e multidisciplinar - que dá conta de sua importância como compositora e pesquisadora. Há alguns anos, Anna foi abordada pela Flip para uma homenagem aos 400 anos do Padre Antônio Vieira (1608/1697).

Restrições orçamentárias dificultaram o trabalho, mas houve uma apresentação no Pateo do Colégio. A própria Anna considera esse trabalho uma súmula de suas pesquisas com música antiga e contemporânea, com texto e imagem. Chama-se Vieira - Do Tejo ao Amazonas. Ela selecionou seis sermões. Abordam temas que vão do bom ladrão (a corrupção na política) a multiplicidade de culturas na Amazônia. Um grande ator que também é filólogo - Luiz Lima Barreto, parceiro de Luiz Miguel Cintra no Teatro da Cornucópia - diz o texto clássico. Anna criou camadas por meio da música, que mixa o tecno-elétrico e o modo gregoriano mais erudito. Participam dois coros, um masculino e um misto.

Nos últimos anos, Anna tem se dedicado a aprimorar o trabalho. Em janeiro, deve fazer a mixagem definitiva. Falta patrocínio. Tamanha erudição, ao invés de impor respeito, tem assustado. Este mês, um possível patrocinador poderá dar seu aval. A falta de dinheiro não implica em amadorismo. Tudo isso está feito com o máximo rigor, com a cumplicidade de todo mundo que participa do projeto. Os sermões de Vieira terminam numa grande pajelança. Do que o repórter ouviu num demo dá para dizer que vem obra-prima musical por aí.

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