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'Roda Gigante', de Woody Allen, reabre as feridas de velhas acusações de assédio e abuso

É preciso deixar claro que o filme é um dos melhores do diretor e que Kate Winslet é a melhor atriz do ano

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2017 | 06h00

Quem viu o belo documentário de Barbara Kopple sobre Woody Allen – Wild Man Blues, de 1997 –, com certeza, guardou duas informações preciosas – 1) sua mulher, Soon Yi Previn, é autoritária e manda nele e 2) seu processo criativo é peculiar; ele escreve as histórias e até roteiros, coloca numa gaveta e espera os projetos ‘amadurecerem’. Não dá para saber exatamente quanto tempo Roda Gigante ficou na tal gaveta, mas o tempo de desova não poderia ser mais (in)oportuno. Não admira que Woody Allen praticamente tenha se eximido de debater o novo filme. Algumas entrevistas selecionadas, e só. Allen, com certeza, estava querendo evitar perguntas embaraçosas.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que Roda Gigante é um grande Woody Allen e Kate Winslet é a melhor atriz do ano. Tão boa como ela só a Cynthia Nixon de Além das Palavras, de Terence Davies. Vamos ver como se comporta o Oscar. Se as duas serão selecionadas, qual delas vai vencer, ou nada disso? Fim do parêntese. O timing – neste momento, é muito curioso (mas será essa a melhor definição?) um filme sobre uma madrasta em litígio com a enteada por seu homem. Sim, você captou tudo – Roda Gigante ainda expõe vestígios daquele affair que fez tremer Hollywood no começo dos anos 1990. O triângulo Woody/Mia/Soon Yi, lembram-se? Ainda o timing – a madrasta, em Roda Gigante, quer se vingar da enteada, quer se livrar dela. Será por vingança que tantas mulheres, subitamente empoderadas, estão colocando a boca no trombone em Hollywood? Terá sido por isso que Allen fugiu ao debate sobre o novo filme?

Tergiversações à parte, Roda Gigante é grande. Vale repetir, porque essa já lendária produtividade de Allen tem produzido falácias que vão se estabelecendo como verdadeiras. Fazer um filme por ano, todos os anos, exige (muita) criatividade. Allen mantém o ritmo, mas nem sempre o nível. Não dá para fazer grandes filmes todos os anos. Criou-se o mito – Allen é tão bom que até seus filmes ruins são melhores que os de outros diretores. Não mesmo – eventualmente, são divertidos, mas filme ruim é ruim, seja de Woody Allen ou não. Esse é bom, muito bom. Na abertura de sua grande exposição no Ibirapuera, o diretor de fotografia Vittorio Storaro falou de Nova York, pelo telefone, ao Estado. Conversou pela manhã – cedo –, antes que o carro da produção o apanhasse no hotel para levar ao set de seu terceiro filme com Allen.

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Comentou os anteriores – Café Society e Roda Gigante/Wonder Wheel, que ainda nem havia estreado (A estreia oficial foi no Festival de Nova York). Antecipou o que se poderia esperar, e que o filme confirma. Roda Gigante passa-se no verão, é uma explosão de cor. Mas, nessa recriação do esplendor de Coney Island, nos anos 1950, a cor possui uma função narrativa. Sua utilização é, às vezes, enganosa, como a narrativa de Justin Timberlake. O verão do nosso desengano. A euforia – a descoberta do amor, do sexo – é logo substituída pela decepção e pela amargura. É a função do narrador. A vida, já dizia Shakespeare, é uma história cheia de som e fúria, narrada por um bobo. Tal é a função da narrativa em off de Roda Gigante.

Justin Timberlake não é um salva-vidas como os outros. Ele trabalha na praia, mas é um pouco filósofo. Sua vocação é ser escritor – dramaturgo. Ginny, a personagem de Kate Winslet, está garçonete, mas é atriz. Resumindo – Ginny tinha uma carreira promissora como atriz, mas um passo em falso (um adultério?) encerrou sua carreira e agora ela trabalha de garçonete, casada com o mecânico Jim Belushi. De sua atabalhoada ligação anterior, tem um filho – que Belushi cria, e o menino é incendiário. Literalmente – adora colocar fogo nas coisas. Belushi também tem uma filha, e Carolina, interpretada por Juno Temple, também deu seu passo em falso. Uniu-se a um gângster, de quem se cansou, mas ele não está aceitando a separação e colocou atrás dela seus sicários. Carol sabe demais e precisa ser eliminada. Sem ter para onde ir, ela busca a proteção do pai.

O parque de diversões de Coney Island vira representação do mundo e todas as vidas se estruturam em torno da gigantesca roda gigante. Ginny tem um affair com Mickey, o salva-vidas que conta a história. Chega Carolina, que se apaixona por Mickey, e é correspondida. O que faz Ginny? Renuncia? Nem sonhar. Como qualquer vilã de folhetim, ela só pensa em se livrar da rival. Woody Allen ama os trágicos, e ele anda nessa fase Tennessee Williams, que já inspirava a Cate Blanchett de Blue Jasmine. Só que a pequenez do mundo, das vidas, o impede de criar, a toda hora, tragédias, como em Crimes e Pecados e Maridos e Esposas. Sobra o melodrama. Por um momento, Woody Allen abre mão dos grandes europeus que sempre o inspiraram – cineastas como Ingmar Bergman e Federico Fellini, escritores como Dostoievski, Kafka e Tolstoi – e bebe na fonte de Douglas Sirk, o grande autor de melodramas que fez a crítica do ‘american way of life’ nos anos 1950. Mas esperem – o próprio Sirk, embora tenha se transformado na representação máxima do melodrama hollywoodiano, era alemão e nasceu em Hamburgo, de pais dinamarqueses.

A vida, não como ela é, mas enganosa, como tendem a ser os parques de diversão. Vale destacar, e o leitor que tire suas conclusões, que Coney Island também oferece o cenário para uma bela cena de Extraordinário – o encontro da garota com a avó, e extraordinária é Sonia Braga, que faz o papel, como mãe de Julia Roberts. O parque, a paixão das mulheres. Woody Allen, que já havia feito O Homem Irracional, com Joaquin Phoenix, há dois anos, desta vez fez, com Kate, a Winslet, sua mulher irracional.

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